“Tropeços”: post de preso por matar ex escondia relação violenta, diz família
Com casa alugada e malas sendo preparadas, vítima planejava se mudar para perto do filho em Santa Catarina

Dois meses e meio antes de Adrieli Rossoni dos Santos, de 34 anos, ser encontrada morta dentro de casa, em Campo Grande, uma postagem no Facebook mostrava uma troca pública de carinho entre ela e Aparecido de Sousa Doirado, de 46 anos, preso em flagrante como suspeito do feminicídio.
RESUMO
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Adrieli Rossoni dos Santos, de 34 anos, foi encontrada morta em sua residência em Campo Grande, no sábado (29). O companheiro Aparecido de Sousa Doirado, de 46 anos, foi preso em flagrante como suspeito do feminicídio. Segundo familiares, a vítima estava se preparando para mudar para Santa Catarina e havia sido alvo de agressões anteriores. O caso é o 25º feminicídio registrado no Mato Grosso do Sul em 2025.
Na publicação, Aparecido compartilhou uma foto ao lado de Adrieli e escreveu: “Feliz aniversário, meu amorzinho. Diante dos tropeços, aqui estamos”, acompanhando a mensagem com um emoji de rosto apaixonado. Nos comentários, Adrieli respondeu à homenagem: “Lindo! Amo você!”.
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No perfil da vítima, porém, o status de relacionamento aparecia como “divorciada”. Logo abaixo, Adrieli havia escrito: “Em paz!”.
Conforme apurado pela reportagem, o casal estava separado. Segundo familiares, a relação havia sido marcada por idas e vindas e Adrieli se preparava para deixar Campo Grande e começar uma nova fase da vida em Santa Catarina, onde mora o filho mais velho.
A reportagem acompanhou, na tarde deste domingo, a despedida de Adrieli. O velório ocorreu no Cemitério Jardim das Palmeiras, na Avenida Tamandaré, em Campo Grande, e reuniu poucas pessoas, entre parentes e pessoas próximas.

Prima da vítima, a empresária Caliane Kisel, de 35 anos, afirmou que Adrieli já havia rompido com Aparecido e estava organizando a mudança para Santa Catarina. Segundo ela, a prima pretendia ficar mais próxima do outro filho, que mora no Estado com o pai.
“Ela já tinha separado dele porque ele já tinha sido agressivo com ela várias vezes. Ela ia se mudar amanhã para Santa Catarina para ficar perto do outro filho, que morava com o pai lá. Ele estava indo várias vezes na casa dela e sendo agressivo porque não queria que ela fizesse a mudança”, relatou Caliane.
Segundo a prima, Adrieli estava feliz com os planos de recomeçar a vida. Caliane descreveu Aparecido como uma pessoa possessiva e ciumenta e disse acreditar que a proximidade da mudança tenha provocado novos conflitos entre os dois.
“Essa mudança vinha se aproximando e ela estava super bem, super feliz, alegre por ficar próxima do outro filho. Ele era super possessivo, ciumento. Ela tentou uma vez mudar para o Paraná, ele foi atrás dela e fez ela voltar”, afirmou.
As declarações fazem parte do relato da família. A Polícia Civil não divulgou, até o momento, a motivação atribuída ao crime e informou que detalhes sobre a dinâmica são mantidos sob sigilo durante a investigação.
Caliane também contou que, na manhã de sábado, Aparecido teria enviado uma mensagem para a mãe de Adrieli dizendo que ela não estava bem e estaria internada na Santa Casa.

Segundo a prima, imagens de câmeras de segurança teriam mostrado Aparecido deixando o local por volta das 6h com o filho de 3 anos do casal no colo. A informação sobre as imagens e o conteúdo da mensagem são relatos da família e ainda integram o contexto apurado pela investigação.
“Ele mandou uma mensagem para minha tia falando que ela não estava bem e que estava na Santa Casa internada. Minha tia viu nas câmeras de segurança que ele saiu às seis da manhã com uma criança no colo, com o filhinho deles. Então não faz sentido ele ter mandado essa mensagem falando que ela estava na Santa Casa”, disse.
Ainda conforme Caliane, diante da mensagem, o irmão de Adrieli começou a procurá-la em hospitais. A mãe, desconfiada após verificar as imagens das câmeras, foi até a residência da filha.
“Ela falou que já teve a sensação de que alguma coisa tinha acontecido. Foi lá, bateu, bateu e ninguém abria. Aí ela pegou a escada, entrou e encontrou ela morta”, contou a prima.

Entenda - Adrieli foi encontrada sem vida na tarde de sábado (29), na casa onde morava, na Rua Brasil Central, região do Santo Antônio. A família já estava preocupada porque ela havia deixado de responder pelo celular e não compareceu ao trabalho.
Como o imóvel estava trancado, a mãe utilizou uma escada para entrar na residência e encontrou a filha morta na sala.
As primeiras informações apontavam asfixia e sinais que poderiam indicar esganadura. A perícia foi acionada para esclarecer oficialmente a causa da morte e reconstruir a dinâmica do caso.
No início da noite de sábado, equipes da Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) localizaram Aparecido de Sousa Doirado, de 46 anos, e efetuaram a prisão em flagrante. Ele é apontado pela Polícia Civil como suspeito da morte de Adrieli.
Durante as diligências, o filho de 3 anos de Adrieli também foi localizado. Em nota, a Polícia Civil informou que a criança “foi localizada em segurança e encontra-se em local protegido, sob cuidados devidos”.
Familiares manifestaram preocupação com a possibilidade de o menino ter presenciado a morte da mãe. A hipótese, entretanto, não foi confirmada pela investigação. A criança recebe acompanhamento psicológico e permanece protegida.
Além do menino de 3 anos, Adrieli tinha outro filho, de 11 anos, que mora em Santa Catarina com o pai. Segundo Caliane, a mudança já estava sendo preparada e uma casa havia sido alugada no Estado.

“Ela estava recomeçando a vida, estava com planos de trabalho, já tinha alugado uma casa lá em Santa Catarina. O filho dela, de 11 anos, está esperando ela em Santa Catarina, com o pai. Ela já estava arrumando as malas, as coisas para levar, e todo mundo estava feliz com esse recomeço”, declarou.
A prima contou ainda que o relacionamento entre Adrieli e Aparecido durou alguns anos e teve diversos rompimentos e reconciliações. Segundo ela, havia alguns meses que Adrieli vinha tentando encerrar definitivamente a relação.
“Ela teve várias idas e voltas, mas já faz alguns meses que estava solteira, que estava se separando dele”, disse.
Caliane afirmou que a família está revoltada e abalada com a morte justamente porque Adrieli demonstrava entusiasmo com os novos planos.
“Está todo mundo muito revoltado, muito triste, porque dá uma sensação de impotência. Ela estava recomeçando a vida. Todo mundo estava feliz com esse recomeço”, afirmou.
Segundo a empresária, os familiares consideravam a relação prejudicial para Adrieli. Ela classificou o relacionamento como violento e afirmou que a família não aprovava a convivência entre os dois.
“Era um relacionamento violento, que fazia mal para ela. Desde que ela ficou com ele, a vida dela não ficou legal. No momento em que a gente viu que ela ia recomeçar, que ia ter uma vida nova, aconteceu isso”, relatou.
Ao falar sobre a prima, Caliane descreveu Adrieli como uma mulher alegre, animada e muito ligada aos filhos. Segundo ela, poucos dias antes da morte, a vítima havia compartilhado com familiares a felicidade pela mudança.
“Ela mandou uma mensagem na quinta-feira para mim e para mais alguns familiares, feliz com a mudança. Era uma pessoa alegre, animada. Era formada em Farmácia, tinha os dois filhos, os dois eram autistas. Ela era uma mãe muito presente, muito próxima dos filhos, muito cuidadosa e carinhosa”, disse.
A mãe e o irmão de Adrieli estiveram na delegacia e prestaram depoimento durante a apuração do caso.
A Polícia Civil informou que não divulgará, neste momento, detalhes sobre como o crime teria ocorrido. “Detalhes sobre o modus operandi e a dinâmica do crime serão mantidos sob sigilo, restritos ao inquérito”, informou a corporação em nota.
Com a morte de Adrieli, Mato Grosso do Sul chegou ao 25º feminicídio registrado neste ano.
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