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Interior

Juiz aceita denúncia e 11 viram réus por balcão de negócios em delegacia

Primeira parte da denúncia no âmbito da Operação Codicia inclui acusados de corrupção e organização criminosa

Por Helio de Freitas, de Dourados | 27/05/2022 17:19
2ª DP de Ponta Porã, onde esquema era concentrado, segundo o Gaeco (Foto: Arquivo)
2ª DP de Ponta Porã, onde esquema era concentrado, segundo o Gaeco (Foto: Arquivo)

O juiz Marcelo Guimarães Marques, da 2ª Vara Criminal de Ponta Porã, aceitou denúncia do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) contra 11 investigados no âmbito da Operação Codicia (ganância, em espanhol).

Deflagrada no dia 25 de abril deste ano, a operação investiga organização criminosa que teria transformado em “balcão de negócios” a 1ª e a 2ª Delegacia de Polícia da cidade localizada a 313 km de Campo Grande, na fronteira com o Paraguai.

A denúncia à qual o Campo Grande News teve acesso é referente aos crimes de organização criminosa, corrupção (passiva e ativa) e peculato (desvio). Entretanto, pelo menos outras três no âmbito da mesma operação foram apresentadas, mas estão em segredo de justiça.

Concluída no dia 9 deste mês e recebida pelo juiz da 2ª Vara Criminal no dia 17, a denúncia é assinada pela procuradora de Justiça e coordenadora do Gaeco Ana Lara Camargo de Castro, e pelos promotores Tiago Di Giulio Freire, Gerson Eduardo de Araujo, Marcos Roberto Dietz, Thalys Franklyn de Souza e Janaina Scopel Bonatto.

Os réus – Os denunciados nessa ação penal são o delegado Patrick Linares da Costa, o escrivão aposentado Valdenei Peromalle, a escrivã Adriana Jarcem da Silva, o escrivão Jonatas Pontes Gusmão, os investigadores Márcio André Molina Azevedo, Mauro Ranzi e Elvis Elir Camargo Lima, o perito Rogério Insfran Ocampos, o ex-policial civil Rafael Grandini Salles, Paulo de Tarso Silva Kobal e Sérgio Eduardo Vieira (esses dois últimos são representantes de locadoras de carro e seguradoras que pagavam propina aos policiais).

Elvis Elir Camargo e Rafael Grandini Salles também são réus no âmbito da Operação Omertà. Rafael foi demitido da Polícia Civil em fevereiro deste ano depois de ser preso por contrabando e tráfico de drogas.

Adriana Jarcem da Silva foi denunciada por organização criminosa e corrupção passiva qualificada. Ela admitiu ter recebido dinheiro do operador do esquema, o escrivão aposentado Valdenei Peromalle, mas disse que era empréstimo que ele nunca aceitou receber de volta.

Elvis Elir Camargo virou réu por peculato. O Gaeco o denunciou por utilizar em proveito próprio uma Toyota Hilux apreendida na 2ª DP de Ponta Porã. Elvis é réu na Operação Omertà e aparece entre policiais incluídos na “folha de pagamento” do grupo de extermínio comandado por Jamil Name (já morto) e Jamil Name Filho.

Jonatas Pontes Gusmão, o “Jhow” – que segundo o Gaeco dividia com Peromalle o controle do esquema de propina – foi denunciado por associação criminosa e corrupção passiva. Ele também é acusado de tráfico de drogas (crime não incluído nessa ação).

Márcio Molina virou réu por associação criminosa e corrupção passiva. Segundo o Gaeco, ele recebeu 84 créditos sem identificação do remetente em sua conta bancária, totalizando R$ 101,8 mil. No dia da operação, os policiais apreenderam R$ 25 mil em espécie na casa dele.

Mauro Ranzi foi denunciado e virou réu por associação criminosa, corrupção passiva qualificada e peculato. O Gaeco achou R$ 37.014,50 na casa dele no dia da prisão. Ao Campo Grande News, a mulher de Mauro disse que o dinheiro era da venda de um terreno.

Pistola, carregadores e dinheiro encontrados na casa do policial Molina (Foto: Reprodução)
Pistola, carregadores e dinheiro encontrados na casa do policial Molina (Foto: Reprodução)

Patrick Linares da Costa virou réu por peculato e corrupção passiva (duas vezes). Ele é acusado pelo Gaeco de receber vantagem em dinheiro para permitir o esquema no período em que comandou a 2ª DP. O delegado se diz vítima de perseguição de uma promotora de Ponta Porã, nega ter recebido propina e diz que agiu no estrito cumprimento do dever.

Residente em Santos (SP), Paulo de Tarso Silva Kobal virou réu por corrupção ativa. Gravações feitas pelo Gaeco apontam Paulo como um dos representantes de empresas que pagavam propina para agilizar a liberação de veículos apreendidos na fronteira.

Rafael Grandini Salles, que antes de ser demitido da polícia era escrivão na 2ª DP de Ponta Porã, virou réu por peculato (duas vezes). Ele é acusado de atuar no caso em benefício de Elvis Camargo e de envolvimento no suposto desvio de discos de arado avaliados em R$ 40 mil que estavam na carroceria de caminhão apreendido na fronteira.

Rogério Insfran Ocampos foi denunciado por organização criminosa e corrupção passiva qualificada. O Gaeco encontrou pagamentos feitos a ele por Valdenei Peromalle, supostamente para agilizar processos de interesse da organização.

Residente em Belo Horizonte (MG), Sérgio Eduardo Vieira, assim como Paulo Kobal, virou réu por corrupção ativa, acusado de pagar propina para acelerar a liberação de veículos apreendidos.

Valdenei Peromalle, apontado como "peça-chave" (Foto: Arquivo)
Valdenei Peromalle, apontado como "peça-chave" (Foto: Arquivo)

“Peça-chave” – Valdenei Peromalle passou a ser réu por associação criminosa, corrupção qualificada e peculato. Segundo o Gaeco, o policial aposentado desponta como peça-chave ao utilizar as delegacias de Polícia Civil de Ponta Porã como “balcão de negócios” voltado à obtenção de vantagens patrimoniais indevidas.

Com a quebra de sigilo autorizado pela Justiça, o Gaeco descobriu que Peromalle recebeu 237 transações bancárias sem identificação, totalizando R$ 184,7 mil. Espécie de chefe do pátio da delegacia, era ele que controlava a entrega dos carros apreendidos e distribuía a propina aos outros policiais.

Valdenei, Mauro Ranzi, Márcio Molina, Jonatas Gusmão e Rafael Grandini estão presos na 3ª Delegacia de Polícia em Campo Grande.

O Campo Grande News apurou que Adriana, que estava presa na sede do Garras, e o perito Rogério Insfran, que também estava na carceragem da 3ª DP, deixaram a cadeia na semana passada por ordem judicial e estão sendo monitorados por tornozeleira eletrônica. Os demais réus estão em liberdade.

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