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Telefonema muda rotina de mãe em MS e vira chance de vida para paciente

Renata descobriu compatibilidade e passou 6 horas em procedimento realizado em São Paulo

Por José Cândido | 09/03/2026 16:42
Telefonema muda rotina de mãe em MS e vira chance de vida para paciente
Renata, moradora de Ribas do Rio Pardo, atendeu ao chamado do Redome e doou medula óssea para um paciente brasileiro, gesto que pode ter garantido uma nova chance de vida. (Foto Divulgação)

Quando o telefone tocou, Renata Rodrigues não imaginava que aquela ligação poderia significar a esperança de vida para alguém que ela nunca conheceu.

RESUMO

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Moradora de Ribas do Rio Pardo, Renata tornou-se doadora de medula óssea aos 18 anos. Anos depois, foi convocada pelo Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea após confirmação de compatibilidade com um paciente brasileiro. O procedimento, realizado em São Paulo, durou nove dias. Mato Grosso do Sul registrou sete doações de medula óssea em 2024 e conta com mais de 197 mil cadastros de doadores voluntários. Para se cadastrar, é necessário ter entre 18 e 35 anos, não possuir doenças infecciosas, hematológicas ou do sistema imunológico. O processo pode ser iniciado durante doação de sangue nas unidades do Hemosul.

Moradora de Ribas do Rio Pardo, a 97 quilômetros de Campo Grande, ela havia se cadastrado como doadora voluntária de medula óssea ainda aos 18 anos, durante uma campanha realizada no município. Anos se passaram, a rotina mudou, vieram os filhos, o trabalho e as responsabilidades do dia a dia. O cadastro ficou apenas como um gesto solidário feito na juventude.

Até que o chamado chegou.

A convocação partiu do Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome). Havia a suspeita de compatibilidade com um paciente brasileiro que aguardava transplante.

“Mandaram mensagem perguntando se eu poderia ir até Campo Grande para fazer exames”, conta.

A coleta de sangue era apenas o primeiro passo. A confirmação poderia levar até 180 dias. A espera foi longa, silenciosa, cheia de expectativa.

Faltando poucos dias para o prazo final, veio a resposta: havia compatibilidade.

E uma pergunta direta.

Ela desejava continuar?

“Eu disse sim na hora”, lembra.

Um gesto que começou cedo

A história de Renata com a solidariedade começou ainda na adolescência. Aos 17 anos, ela participou pela primeira vez de uma campanha de doação de sangue organizada por voluntários do Rotary em Ribas do Rio Pardo.

Assim que atingiu o peso mínimo exigido, tornou-se doadora.

Pouco tempo depois, decidiu também se cadastrar no Redome. Mas naquele momento ainda tinha dúvidas.

“Perguntei se doía. Eles explicaram que ali era só o cadastro e que a chance de compatibilidade é rara, mas que, se acontecesse, entrariam em contato”.

Ela autorizou a inclusão de seus dados e seguiu a vida normalmente. Nunca mudou de telefone nem de endereço — detalhe que anos depois faria toda a diferença.

Entre o medo e a decisão

Quando recebeu a confirmação da compatibilidade, Renata já era mãe de Liz, de 7 anos, e de Leonardo, que tinha apenas 1 ano e 7 meses na época.

A decisão de ajudar veio imediata. Mas a realidade logo apareceu.

“Eu pensei: como vai funcionar? Tenho duas crianças pequenas”.

Mesmo assim, não houve recuo.

Ela foi encaminhada para São Paulo para novos exames e orientações médicas. Lá conheceu os detalhes do procedimento.

Existem duas formas de doação: por punção na região da bacia ou por aférese, método indicado para o caso dela.

Na aférese, o doador toma medicação por alguns dias para aumentar a quantidade de células-tronco na corrente sanguínea. Depois, o sangue é coletado por uma máquina que separa as células necessárias e devolve o restante ao organismo.

Todo o processo é realizado em centro especializado e custeado pelo Redome, ligado ao Instituto Nacional de Câncer (INCA) e ao Ministério da Saúde.

Renata passou cerca de seis horas ligada ao equipamento.

“Eles explicam tudo com muita clareza. Me senti segura o tempo todo”, conta.

O momento mais difícil

Ao todo, foram nove dias em São Paulo.

Mais do que exames ou o procedimento, o momento mais delicado foi ficar longe da família.

“Ficar nove dias longe deles pesou muito. Meu filho ainda era muito pequeno. O apego é muito forte”, relata.

Mesmo assim, ela sabia que, em algum lugar, alguém aguardava aquele gesto.

“Eu sabia que era por uma causa muito valiosa”.

Ainda havia a possibilidade de uma segunda coleta, caso a quantidade de células não fosse suficiente.

Quando recebeu a notícia de que a primeira doação já havia atendido à necessidade do paciente, a emoção veio sem aviso.

“Quando a médica disse que tinha dado certo e que não precisaria repetir, eu desabei. Foi uma emoção muito grande”.

O transplante foi realizado em 28 de outubro de 2025.

Um encontro que nunca acontece

Por regra do programa, o doador não recebe informações detalhadas sobre quem recebe a medula.

Renata sabe apenas que o paciente é brasileiro.

Mesmo sem saber o rosto, o nome ou a história, a conexão existe.

“A gente pensa na pessoa que está do outro lado esperando. Eu espero que esteja bem, que tenha saúde. Que isso tenha sido um recomeço”.

Ao final do processo, recebeu uma camiseta simbólica de doadora de medula óssea.

Para ela, mais que um símbolo, é uma lembrança permanente.

“É uma experiência única. Vou lembrar para sempre com muito carinho”.

Uma história para inspirar outras

De volta à rotina na loja de roupas infantis onde trabalha, em Ribas do Rio Pardo, Renata decidiu compartilhar a própria experiência.

O objetivo é simples: incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo.

“Doem sangue. Se cadastrem como doadores de medula óssea. É algo que pode mudar completamente a vida de alguém”.

Como se tornar doador de medula óssea

A medula óssea é responsável pela produção das células do sangue. O transplante pode ser a única chance de cura para pacientes com doenças que afetam essas células.

Para se cadastrar como doador voluntário é necessário:

  • Ter entre 18 e 35 anos e 9 meses

  • Não ter doenças infecciosas ou incapacitantes

  • Não apresentar doenças hematológicas, neoplásicas ou do sistema imunológico

O cadastro pode ser feito durante a doação de sangue nas unidades do Hemosul.

Quando há compatibilidade com um paciente, o Redome entra em contato com o doador e todo o processo é custeado pelo INCA e pelo Ministério da Saúde.

Em Mato Grosso do Sul, segundo a chefe do Setor de Captação do Hemosul, Lucéia Fernandes, sete pessoas efetivaram a doação de medula óssea em 2024.

Ao longo dos anos, mais de 100 doadores sul-mato-grossenses já foram compatíveis com pacientes, no Brasil e no exterior.

Atualmente, o Estado soma 197.502 cadastros de doadores voluntários registrados entre 2001 e 2025.

Cada novo cadastro representa uma possibilidade concreta de salvar uma vida. Por isso, é fundamental manter telefone e endereço sempre atualizados no sistema.