Longe da família, operários superam desafios para erguer ponte bioceânica
Centenas de pessoas entre paraguaios e brasileiros se deslocaram para trabalhar nesta construção da fronteira

Durante quatro anos, centenas de trabalhadores abriram mão da convivência com a família, enfrentaram temperaturas extremas trabalhando até de madrugada, para transformar em realidade a Ponte Bioceânica, estrutura que liga Porto Murtinho (MS) a Carmelo Peralta, no Paraguai.
RESUMO
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A Ponte Bioceânica, que liga Porto Murtinho a Carmelo Peralta, entra em fase final com a união de suas estruturas. Com 1.294 metros de extensão, a obra é o principal elo do corredor logístico entre o Centro-Oeste brasileiro e o Oceano Pacífico. Cerca de 460 trabalhadores enfrentaram clima extremo e distância familiar para erguer o projeto, que deve receber inicialmente 250 caminhões por dia. A estrutura visa integrar mercados do Mercosul e da Ásia, otimizando o transporte regional.
Mais do que uma obra de engenharia, a construção da principal ligação da Rota Bioceânica é marcada pelas histórias de quem deixou a própria cidade para viver em alojamentos, trabalhar sob sol intenso e frio rigoroso e conviver diariamente com colegas de diferentes regiões do Brasil e do Paraguai.
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Com 1.294 metros de extensão, a ponte é considerada a principal obra do corredor logístico que conectará o Centro-Oeste brasileiro aos portos do Oceano Pacífico, passando por Paraguai, Argentina e Chile.
Para o engenheiro civil paraguaio Kevin Larrea, de 28 anos, os maiores desafios da obra foram justamente os que ficaram longe dos cálculos estruturais. Há três anos trabalhando no empreendimento, ele afirma que a distância da família foi o momento mais difícil.
"O momento mais difícil foi a distância que tivemos que percorrer desde Assunção até Carmelo Peralta. São cerca de 800 quilômetros da minha casa. Essa foi uma das maiores dificuldades, além do esforço que o trabalho na obra exigiu", conta.
Mesmo distante, Larrea manteve contato constante com os familiares. "Eles ficaram em Assunção. Sempre estamos em contato, dando apoio uns aos outros."
Apesar dos desafios, ele considera a experiência um marco na carreira. "É a segunda ponte dessa magnitude da qual participo. É um orgulho muito grande para mim, tanto profissionalmente quanto pessoalmente."
Entre os brasileiros que ajudaram a erguer a ponte está o soldador sergipano Valdileno Batista dos Santos, de 42 anos, responsável pela operação do carro de avanço, equipamento utilizado para executar as aduelas da estrutura sem necessidade de escoramento no solo.
Acostumado a trabalhar em grandes obras desde 2010, ele já participou da construção da ponte que liga o Brasil à Guiana Francesa. Agora, celebra a participação em mais uma ligação internacional.
"Em 2010 fizemos uma ponte para ligar o Brasil com a Guiana Francesa. Agora estamos ligando o Brasil com o Paraguai", relata.
Se a técnica da construção já fazia parte da rotina, a adaptação cultural foi um desafio inesperado. "O mais diferente para mim foi o linguajar deles. O espanhol até dá para entender, dependendo do que falam, mas o guarani achei um pouco difícil."
Além do idioma, o trabalhador precisou se adaptar aos costumes locais. "Sou nordestino, então tive que me adaptar um pouco a cultura do Mato Grosso do Sul. Depois ainda veio a alimentação do Paraguai, a lama, tudo diferente. Mas estamos aqui há um ano e meio e, graças a Deus, estamos chegando à reta final."
Após concluir a desmontagem do carro de avanço, prevista para os próximos meses, Valdileno seguirá diretamente para outra obra, desta vez em Aracaju (SE), onde trabalhará na construção de novas pontes.
Força coletiva - O superintendente de obras do PYBRA (Consórcio Binacional PYBRA) e coordenador principal da Ponte da Rota Bioceânica, o engenheiro civil René Gómez, resume a conclusão da estrutura como um momento de emoção para todos que participaram do empreendimento.
"Estamos fazendo a união definitiva da ponte, o famoso 'beijo da ponte'. Foram quatro anos de obra. Não foram anos fáceis, porque enfrentamos temperaturas muito extremas e grandes variações de calor. Hoje estamos chegando ao fim desse trabalho e todos estamos muito emocionados."
Segundo Gómez, o maior desafio enfrentado pelos trabalhadores foi justamente o afastamento da família. "No auge da obra, tivemos cerca de 460 pessoas trabalhando diretamente e aproximadamente 80% delas vieram de outras localidades. Ficar longe da família, dos filhos e das mães exige muito sacrifício."
Ele também destacou o resultado alcançado na área de segurança. "Concluímos a obra sem nenhum acidente grave. Esse é um ponto que merece ser ressaltado."
Estrutura entra na reta final - A ponte possui 1.294 metros de extensão e terá capacidade para receber, inicialmente, cerca de 250 caminhões por dia, segundo estimativa da Receita Federal.
A expectativa é que esse número aumente conforme a consolidação da Rota Bioceânica como alternativa logística para o Mercosul e os mercados asiáticos.
Em 2024, quando cerca de 55% da obra estava concluída, o canteiro funcionava em ritmo intenso, com aproximadamente 460 operários atuando diariamente até a meia-noite.
Agora, na fase final dos serviços, cerca de 140 trabalhadores permanecem na obra, responsáveis pelos acabamentos, pavimentação, instalação de guarda-corpos, iluminação e demais estruturas complementares que antecedem a entrega definitiva da maior obra da Rota Bioceânica.

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