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Interior

Luzia não teve tempo de testemunhar milagre, mas família cumprirá promessa

Morta aos 51 anos por covid-19, Luzia havia feito promessa peal cura do neto vítima de acidente

Por Lucia Morel | 01/07/2020 11:24
Luzia tinha 51 anos e faleceu ontem, segunda-feira. (Foto: Arquivo Pessoal)
Luzia tinha 51 anos e faleceu ontem, segunda-feira. (Foto: Arquivo Pessoal)

Ela vivia para cuidar do neto, que foi vítima de acidente de trânsito em 2018. Tinha 51 anos e era casada há 35 com Izael de Andrade, que tem 57. Com dois filhos e dois netos, Luzia Teixeira de Andrade foi vencida pela covid-19 e faleceu ontem, 29 de junho, no Hospital Universitário de Dourados.

Izael aceitou falar com o Campo Grande News e prestar homenagem à esposa, que para ele, “era tudo”.

“Se não fosse esse coronavírus ela estaria bem. Pro coração ela fazia tratamento, tomava remédio, estava bem”, afirmou.

Luzia apresentou problemas cardíacos há uns sete meses, pouco depois de ter voltado a Itaquiraí, onde morava, com o neto, que fazia acompanhamento em Dourados. Começou tratamento e estava bem. Os primeiros sinais de que o coração precisava de cuidados foi a falta de ar, regularizada posteriormente com medicação.

Já a infecção pelo novo coronavírus apareceu num susto. Um pouco debilitada, a primeira suspeita era de que ela estaria com dengue. Entre os dias 10 e 11 de junho, Luzia sentiu calafrios e dores nas costas.

Ao buscar atendimento, dois exames foram feitos e um identificou dengue e outro, o rápido, deu negativo para covid-19. Ela voltou para casa, para repouso, mas o quadro agravou e então foi identificada pneumomia, o que acendeu alerta para o coronavírus. Teste molecular foi feito e o resultado foi positivo, no dia 17 de junho.

Diante do quadro, ela ficou internada no Hospital São Francisco em Itaquiraí, e em 22 de junho conseguiu transferência para o HU de Dourados. “Ela ficou com oxigênio, mas no domingo (21), entubaram”, contou o marido.

Segundo ele, antes de ser internada, Luzia estava tão debilitada que mal consegui ir de um cômodo da casa para outro, com muita falta de ar.

Desse momento em diante, outros sintomas da covid-19 apareceram, como perda do olfato e do paladar e a família já não pôde mais ter contato direto com Luzia. Todas as informações eram repassadas por telefone e todos foram testados, resultando positivos apenas a filha e o genro.

“Certeza não dá pra ter, mas a gente acha que ela pegou (a doença) do genro. A gente esteve na casa dele no dia 12 mais ou menos e ele estava com sintomas, gripado. E como ele trabalha na Frangobello, frigorífico grande daqui, a gente acha que pode ter sido isso”, disse, enfatizando que “a maioria dos casos está vindo de lá”.

Izael conta ainda que Luzia chegou a apresentar melhoras no quadro de saúde, com o pulmão mais limpo, no entanto, a doença afetou o rim, que “começou a parar”. Ainda entubada, a “trabalhadeira”, como classificou o marido, não resistiu ao tratamento e faleceu na última segunda-feira, 29 de junho.

Luzia formou-se como técnica de enfermagem, mas não chegou a atuar. Recentemente, costurava máscaras para a prefeitura da cidade e também fazias alimentos em conserva.

Luzia, com a filha e o neto. (Foto: Arquivo Pessoal)
Luzia, com a filha e o neto. (Foto: Arquivo Pessoal)

Promessa – O neto de Luzia tem 13 anos, mas em novembro de 2018 sofreu acidente ao ser atropelado por uma carreta em Itaquiraí, cidade que fica a 404 Km de Campo Grande. Ele quase perdeu uma das pernas e quebrou a bacia, além de escoriações.

Depois de várias cirurgias, o menino ainda usa uma sonda e precisa passar por mais procedimentos para resolver um problema na uretra. Luzia era quem cuidava dele, indo aos médicos e acompanhando todo tratamento.

“O objetivo de vida dela depois do acidente (do neto) era cuidar dele. Tanto que ela tinha feito uma promessa, que nós vamos cumprir, que é e quando ele fizer 15 anos, de entrar com ele na igreja, descalços, durante o terço dos casais, e entregar uma rosa ao pé do altar, porque ele é um milagre”, sustentou Izael.

Mulher forte, o marido lembra que ela fará falta em tudo, “como mãe, esposa, avó”.

Em página na rede social, a filha de Luzia, Cristiane, fez uma homenagem à mãe, enfatizando ensinamento que ela lhe deu.

“Sei que perdemos esta batalha para essa doença maligna. Mas, como sempre dizia: filha, coloca Deus na frente que nós vamos atrás e só observa, que Deus toma conta de tudo”.

Luzia é uma das três pessoas que já morreram da doença em Itaquiraí. Outro foi João Francisco dos Reis, como você pode ler aqui.

Colaborou o jornalista Evaldo Sérgio, de Itaquiraí.

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