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Campo Grande, Domingo, 22 de Julho de 2018

25/06/2018 13:43

Máfia usava de bijouterias a garagem para lavar dinheiro do tráfico

Dez empresas foram fechadas por ordem judicial e 50 pessoas usadas como laranjas foram identificados

Anahi Zurutuza, Aline dos Santos e Geisy Garnes
Da esquerda para a direita, o delegado Nilson Zoccarato, delegado da PF de Naviraí, núcleo da investigação, o superintendente da PF e o auditor fiscal da Receita Federal, este dois últimos identificados no texto (Foto: Marina Pacheco)Da esquerda para a direita, o delegado Nilson Zoccarato, delegado da PF de Naviraí, núcleo da investigação, o superintendente da PF e o auditor fiscal da Receita Federal, este dois últimos identificados no texto (Foto: Marina Pacheco)

A máfia liderada por policial militar da fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai usava pessoas físicas e jurídicas para pulverizar e “legalizar” o dinheiro obtido com o lucro da venda de maconha pelo país. Dez empresas, de loja de bijouterias a revendedora de veículos, identificadas como parte do esquema milionário de lavagem de capitais foram fechadas por ordem da 3ª Vara Federal de Campo Grande.

A força-tarefa, montada pela PF (Polícia Federal) e Receita Federal para desmantelar a quadrilha que comandada por subtenente da PM (Polícia Militar) e a família dele, também identificou ao menos 50 pessoas como parte do “laranjal”.

Dentre as empresas, um dos destaques é comércio de bijoux. Segundo o delegado Luciano Flores de Lima, superintendente da Polícia Federal em Mato Grosso do Sul, a loja movimentava milhões de reais anualmente, sem ter capacidade financeira para isso.

“A empresa está no nome da mulher de um dos presos”, explicou o delegado.

Um dos alvos, o único que até o fim da manhã não havia sido localizado, também é um dos laranjas do esquema. Ele é comerciante, mas tinha negócio “rendia milhões” em Naviraí – a 366 km de Campo Grande -, segundo a PF.

PM posa para foto em festa da corporação (Foto: Arquivo Pessoal/Facebook)PM posa para foto em festa da corporação (Foto: Arquivo Pessoal/Facebook)
Ferrari que pertencia a família de policial, segundo a PF (Foto: Arquivo de Família/Facebook)Ferrari que pertencia a família de policial, segundo a PF (Foto: Arquivo de Família/Facebook)

Exclusivo – O Campo Grande News publicou em primeira mão que Silvio César Molina Azevedo, lotado no Batalhão da Polícia Militar de Eldorado - a 447 quilômetros de Campo Grande, era o principal alvo da operação. Mais tarde, após a coletiva de imprensa, servidor da PF confirmou as informações já apuradas pela equipe do jornal on-line.

Até o ano passado, Molina era policial em Mundo Novo, onde ele e a família moram.

Segundo o Portal da Transparência de Mato Grosso do Sul no mês de maio, o subtenente teve salário de R$ 10.145,40 e recebeu líquido R$ 7.619,22.

A vida regada a de viagens, festas e carros de luxo, exposta nas redes sociais, colocou o PM e a família na mira da PF. 

José Maria Nogueira, durante coletiva de imprensa (Foto: Marina Pacheco)José Maria Nogueira, durante coletiva de imprensa (Foto: Marina Pacheco)

Lavagem de dinheiro – Para evidenciar a estratégia de “legalizar” o dinheiro do tráfico, a Receita Federal entrou em campo. Depois que a PF identificou o PM como principal suspeito de liderar a quadrilha, a Justiça Federal autorizou a quebra dos sigilos bancários e fiscais de 38 pessoas ligadas a ele. Foi aí que começou o trabalho de contabilidade.

José Maria Nogueira, auditor fiscal da Receita da Copei (Coordenação-Geral de Pesquisa e Investigação) de Brasília, é um dos integrantes da força-tarefa que investigou a organização criminosa com raízes em Mato Grosso do Sul.

Durante coletiva de imprensa nesta manhã, ele explicou que a comissão é responsável pela trabalho de inteligência fiscal. “Temos servidores treinados para combater a lavagem dinheiro. Buscamos seguir o dinheiro seja qual for a forma que ele toma, patrimônio, bens imóveis, aeronaves, embarcações, veículos, investimento no mercado financeiro e identificar quem se beneficia nisso”.

Especificamente sobre a máfia alvo da Laços de Família, ele citou que não havia um modelo específico para lavar o dinheiro da droga. “Na verdade, o crime organizado sabe que quanto mais pulverizar o dinheiro, fica mais difícil identificar. Eles trabalhavam com sucessivas transferências de bens, compras e vendas simuladas, etc”.

José Maria detalhou ainda os relatórios que embasaram a investigação “evidenciam contradição entre o padrão de vida ostentado pelas pessoas e aquilo que elas declaravam como o que elas formalmente possuíam”.

Os 38 investigados pela Receita foram separados em dois grupos. Havia quem morava em mansões, usava carros importados e viajava para o exterior várias vezes, mas não tinha renda suficiente para viver assim. Mas, também tinha as pessoas que não tinham salários altos, algumas sequer emprego formal, e levavam vida modesta, mas a movimentação bancária era exorbitante.

“Muitos o fazem [emprestam o nome para integrar o laranjal] por uma questão de amizade ou parentesco. Outros têm uma ideia melhor da dimensão que isso representa e se beneficiavam do esquema”, detalhou José Maria.

Superintendente da PF em MS em entrevista (Foto: Marina Pacheco)Superintendente da PF em MS em entrevista (Foto: Marina Pacheco)

“Com isso a gente consegue chegar no coração financeiro de uma organização como esta”

Inédito – O superintendente da PF destacou ainda que a medida cautelar dada pela Justiça Federal parar encerrar as 10 empresa identificadas é inédita e só foi possível após mudança no Código de Processo Penal.

“Com isso a gente consegue chegar no coração financeiro de uma organização como esta”, afirma Luciano.

O delegado completa que a providência, é tão importante quanto apreender drogas e prender pessoas. “O ideal daqui para a frente é não ficar só em apreender toneladas de drogas. É preciso ir além”.

Laços de Família – A Operação Laços de Família é resultado de investigação que começou em 2015. Nesta segunda-feira (25), equipes da PF foram às ruas de 5 Estado para cumprir 230 mandados de prisão, apreensão e sequestro de bens. Até o fim da manhã, 21 pessoas haviam sido presas, 15 delas em Mato Grosso do Sul – 2 mulheres e 12 homens, sendo 2 presos temporários e 10 homens presos preventivamente.

Ainda segundo a PF, muitos dos alvos de mandados de prisão- preventiva já são presidiários, mais uma evidência da ligação do clã com facções criminosas que agem de dentro dos presídios do país.

Dos 15 pessoas, segundo o superintendente da Polícia Federal, 7 devem ser levadas para a Penitenciária Federal da Capital, “após autorização do juiz responsável em conceder a vaga”, devido ao grau de periculosidade e participação no esquema.

O Campo Grande News apurou com a Polícia Militar, o subtenente está na delegacia da Polícia Federal de Naviraí e, "após os trâmites legais, será conduzido por equipe da PM ao Presídio Militar Estadual em Campo Grande".

Durante o cumprimento dos 35 mandados de busca e apreensão, três pessoas foram presas em flagrante por posse ilegal de arma de fogo. A PF só não detalhou também se os mesmos já eram alvos de mandados de prisão.

Para a Operação Laços de Família, foram expedidos no total 20 mandados de prisão preventiva, 2 de prisão temporária, 35 de busca e apreensão em residências e empresas, 136 de sequestros de veículos, 7 mandados de sequestro de aeronaves (helicópteros), 5 de sequestros de embarcações de luxo (incluindo o de um iate usado pelo PM considerado o cabeça do esquema e pela família dele para lazer) e 25 mandados de sequestro de imóveis (apartamentos, casas, sítios, imóveis comerciais).



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