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Cidades

Negros já contabilizam conquistas, mas ainda sofrem com preconceito

Por Luciana Brazil e Viviane Oliveira | 20/11/2013 11:39
Sobrinho de Tia Eva, seu Otávio lamenta a falta de incentivo. (Fotos:Marcos Ermínio)
Sobrinho de Tia Eva, seu Otávio lamenta a falta de incentivo. (Fotos:Marcos Ermínio)

No dia da Consciência Negra, comemorado hoje (20) em todo país, conquistas já podem ser celebradas, mas ainda há muito com o que se preocupar. Entre vitórias e lutas, os negros e afro-descendentes ainda sofrem com o racismo, com a desigualdade e com a cruel diferença imposta pela história do país.

Em Mato Grosso do Sul, onde 4,6% da população é negra, a realidade não é diferente. O povo se alegra com a inclusão na sociedade e com o reconhecimento, apesar de muitas vezes este ser tímido. Porém, 125 anos após o fim da escravidão, ainda é comum se deparar com o desrespeito e com a indiferença diante da raça.

O presidente do Conselho Estadual dos Direitos dos Negros de Mato Grosso do Sul, Carlos Alberto da Silva Versoza, classifica o momento da história como “fruto de muitas lutas”, mas ressalta que o reconhecimento do povo negro é “ínfimo”, diante da contribuição dada pelos mesmos.

“A luta começou no período colonial, mas as conquistas só começaram a se concretizar na época da república. Ainda tem muita coisa que precisa ser feita”.

O brasileiro não se admite preconceituoso, aponta Carlos. “Diz que não tem preconceito, mas diz: ‘só não gosto...’. É difícil”, ri o presidente.

A implementação definitiva da lei que institui na educação escolar o estudo da cultura negra e afro brasileira é uma das ambições atuais dos representantes dos negros no país.

“Isso traria uma mudança de olhar, mostrando os valores e a contribuição dada pelo povo. A lei existe há 10 anos, mas falta vontade política dos governantes para que ela seja praticada. Material tem. Existem muitas pesquisas referentes a isso”, frisa Carlos.

Ao falar em discriminação, Carlos explica que o racismo se transforma em intimidação, levando o descriminalizado a se sentir acuado, ou até culpado. “O racismo é um crime perfeito porque acaba vitimizando o descriminado. Ele se sente tão intimidado que não expõe a discriminação e muitas vezes até se sente culpado”.

Porém, ele acredita que em Mato Grosso do Sul, os negros estejam superando o medo. “Antes não havia queixas de racismo. Hoje, já temos duas queixas. Isso significa que o negro está vencendo e se sentindo menos acuado”.

Dos mais de 2 milhões de habitantes no Estado, 120.096 pessoas são negras. Campo Grande detém a maior parte dos habitantes negros, 42.347 vivem na Capital.

Lucia diz que o chicote ainda existe, mas de outras formas.
Lucia diz que o chicote ainda existe, mas de outras formas.

A titulação de terras quilombolas no Estado está entre os objetivos de conquista dos negros. Segundo Carlos, são 21 comunidades em Mato Grosso do Sul- (Furnas do Dionísio, em Jaraguari, Furnas da Boa Sorte, em Corguinho, Chácara Buriti, em Anahanduí, e São Miguel, em Maracaju) porém, apenas quatro foram tituladas pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).

“A titulação garante benefícios e permite que eles tenham acesso a crédito, mini-créditos, assim como os indígenas. Essas terras são onde os quilombos se agrupavam ou fugindo da escravidão ou pós- escravidão. E existem os descendentes que vivem nessas terras”, explicou Carlos.

Ao falar sobre cotas para negros em concursos, instituições de ensino e outros, Carlos garante que se trata de uma redimição de erros cometidos pelo Estado maior, a Nação.

“O estado brasileiro errou, cometeu muitos erros. O Brasil foi o último país a abolir a escravidão na América do Sul. As cotas são um forma de redimir o erro”, afirmou.

“Tratar o desigual de forma desigual garante que este possa ter oportunidade”, finalizou.

Usando os ensinamentos da mãe ele diz que “a gente precisa dar nossos pulos e tocar a vida”. “O racismo é muito ruim para quem passa. É uma dor muito grande”, lamenta.

Há 10 anos, as cotas foram implantadas nas universidades do país. No ano passado, o STF (Supremo Tribunal Federal) considerou a lei como constitucional.

Negro: “Muita coisa já mudou. Já conquistamos nosso espaço. Mas todo dia o negro precisa provar que é capaz. O chicote não á mais aquele que todo mundo conhece, mas ele existe e está escondido”, disse a presidente da Associação dos Descendentes da escrava Tia Eva, Lucia da Silva, 50 anos.

Ela lembra ainda que o negro está inserido de alguma forma na sociedade. “Em todas as profissões tem um negro. Isso mostra nosso valor”.

O bisneto da Tia Eva, Otávio Gomes de Araújo, 76 anos, lamenta a falta de incentivo e diz que muitos jovens negros continuam fora da escola. “A questão do preconceito não mudou”, afirma.

O Dia da Consciência Negra é celebrado na morte de Zumbi dos Palmares, líder negro que morreu em 1695.

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