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19/09/2018 08:45

"Um dragão insaciável". Assim funciona o apetite

Mário Sérgio Lorenzetto
Um dragão insaciável. Assim funciona o apetite

A Pedro foi recomendado pela nutricionista dois biscoitos integrais para o café da manhã ou, se tivesse muita fome, seis ao longo do dia. Antes de sair para o trabalho já estava no oitavo biscoito.Doces, embutidos, queijos... Amava a todos, nunca lhe apetecia o espinafre.
Tudo começou quando tinha 31 anos - agora têm 60 anos - depois da perda de um familiar. "Despertou um dragão dentro de mim que sempre têm fome", afirma o obeso Pedro. Chegaram a obesidade, a hipertensão, o colesterol gigante... Vinte quilos depois, Pedro, como se fosse um São Jorge, resolveu lutar contra o dragão. Aprendeu ferramentas de relaxamento e gestão de emoções para dominar a fera. Não matou o dragão, mas conseguiu colocá-lo para dormir.
A luta para manter o dragão dormindo começa no supermercado. Pedro toma muitas precauções para não despertar o monstro. Vamos ver o que Pedro vem fazendo.

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Pedro aprendeu que não é só a fome.

Uma revisão de estudos de 2016, publicada no Critical Reviews in Food Science and Nutrition, alerta: a ingestão calórica que realizamos não depende exclusivamente da fome. De fato, segundo os cientistas que assinam esse estudo, da Universidade de Sheffield, na Grã Bretanha, no mundo ocidental rico em recursos, a fome é só uma pequena parte da equação que nos empurra para comer, e nem é a mais importante. Bem claro: comemos sem sentir fome. Ou o que é o mesmo: podemos comer muito.... sempre queremos mais.

Um dragão insaciável. Assim funciona o apetite

O dragão não é tão misterioso.

O mecanismo da fome é bem conhecido. É devido a uma resposta fisiológica gestionada pelo hipotálamo mediante estímulos captados. Por exemplo, uma diminuição do açúcar no sangue ou no fígado, gera respostas hormonais como a secreção de grelina (um hormônio que controla o apetite), que traz consigo a aparição da fome.
O mesmo ocorre com a saciedade: aspectos fisiológicos da digestão desencadeiam a secreção de leptina, que diz ao cérebro que já estamos cheios. Mas, inclusive esses hormônios, que bem poderiam se converter em precisos relógios nos assuntos de comer, têm seus truques. As pessoas que perdem 10% ou mais de seu peso habitual, terminam recuperando o peso por uma questão de compensação metabólica: aumenta a grelina (quer dizer, a fome) e cai violentamente a leptina (capacidade de saciar-se).

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Quem mede o prazer?

Requebradas hormonais à parte, existem muitos fatores que modulam nossa saciedade e dão uma insondável complexidade a um processo fisiológico que é aparentemente simples. A Fundação Britânica de Nutrição resume esses fatores nos seguintes: a palatibilidade do alimento (quer dizer, quanto prazer o alimento nos dá), o tamanho das porções (usar pratos pequenos, mas cheios, facilita a sensação de saciedade), a variedade de comida e de bebida disponível (um bufê desperta o dragão), os estados emocionais, os aspectos de nosso entorno (disponibilidade de comida ou publicidade), os eventos sociais (reuniões com familiares ou amigos) e os níveis de atividade física.
De todos estes condicionantes,a palatibilidade é, provavelmente, o mais relacionado com a satisfação. A palatibilidade é o terceiro pilar do apetite, junto com a fome e a saciedade. Também é tremendamente difícil de medir, pois responde a questões psicológicas. Comemos porque gostamos de comer, nos traz uma satisfação, um deleite que ativa o circuito de recompensa por momentos... a seguir, ativa o circuito contrário, o de culpa.

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Então, é possível viciar com comida?

Claro que sim. E é um transtorno psíquico muito conhecido. Com uma particularidade: diferente do jogo e do álcool, sempre estamos expostos à comida, é bem mais fácil de viciar. Pode dizer não a uma barra de chocolate em uma noite fria? É capaz de comer só uma batata Pringle? Quanto mais palatável é a oferta, maior é a nossa disposição de deixar de lado a saciedade.

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Pequenos truques que não te contaram para segurar o dragão.

O primeiro é enamorar-se de alimentos que contenham fibras longas, que não possam ser digeridas inteiras. É uma das melhores ferramentas fisiológicas. Mastigar bem devagar e com consciência (desligue a televisão ao comer, concentre-se na mastigação). Sempre esquente o prato (há dados que demonstram que aumenta a saciedade por satisfação). Repetir um sabor em distintos pratos (por exemplo, com as batatas de saquinhos, compre de uma só marca e sabor). Coloque sobre a mesa de refeição o envoltório do que se está comendo. Metade da mesa para a comida e a outra metade para os sacos e garrafas vazias. Visualize-se em um banquete antes de entrar em um. Sempre compre um tipo de pão mais duro para que se canse de mastigar.



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