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12/02/2017 07:39

O nascimento da empresa que comanda o crime

Mário Sérgio Lorenzetto
O nascimento da empresa que comanda o crime

Criado no dia 31 de agosto de 1993, o Primeiro Comando da Capital, a maior empresa de criminosos do país, a princípio designava apenas mais um time de futebol, entre tantos que participavam de um campeonato no presídio de Taubaté (SP), conhecido como Piranhão.

Naquele torneio entre detentos, as rivalidades iam além do esporte. Não foram poucos os casos de agressão durante as partidas. Para se defender, os jogadores de uma das equipes firmaram um pacto de união contra os rivais. Depois viram que era possível estender aquele tipo de solidariedade ao dia a dia da prisão. E também como tática para enfrentar os diretores da unidade carcerária.

Nascia o PCC. Ainda não era uma organização empresarial e sim uma associação solidária de presidiários.

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O Massacre do Carandiru deu o discurso para o PCC.

O massacre da Casa de Detenção do Carandiru, ocorrido quase um ano antes, em outubro de 1992 - quando 111 presos foram mortos por policiais militares chamados para acabar com uma rebelião no Pavilhão 9 - seria constantemente lembrado pelo grupo que organizou o PCC e seria determinante para forjar a ideia de união dos detentos contra o "sistema".

Começava a segunda fase organização do PCC. "Temos que permanecer unidos e organizados para evitar que ocorra novamente um massacre, semelhante ou pior ao ocorrido na Casa de Detenção...", afirmava um trecho de um artigo do estatuto de fundação do grupo.

E concluía: "Porque nós do Comando vamos sacudir o sistema e fazer essas autoridades mudar a prática carcerária desumana, cheia de injustiça, opressão, tortura e massacres nas prisões". É com essa verve ideológica que o PCC dessa fase era chamado de "Partido do Crime".

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Os oito fundadores do PCC.

Os líderes do novo grupo se esmeravam para mostrar força e poder aos colegas de cela. Cesar Augusto Roriz da Silva, conhecido como Cesinha, um dos oito fundadores do PCC, era descrito como um orador carismático e ladrão de banco destemido. Tinha fama de desequilibrado, capaz de espetar a cabeça de inimigos em estacas.

Outro integrante do Comando inicial era Jonas Mateus, que já tinha trabalhado como açougueiro e por isso se tornou dos exímios cortadores de cabeça a serviço do PCC. José Marcio Felicio, o Geleião, tinha 1,90 metro e pesava 130 quilos. Em uma partida de futebol quebrou o pescoço de um adversário, agarrando a cabeça com as duas mãos e torcendo-a em um gesto brusco.

Os outros membros fundadores do "partido do crime" eram: Misael Aparecido da Silva, o Misa; Vander Eduardo Ferreira, o Eduardo Cara Gorda; Antônio Carlos Roberto da Paixão, o Paixão; Isaias Moreira do Nascimento, o Isaias Esquisito; e Antônio Carlos dos Santos, o Bicho Feio.

Enquanto o time do PCC jogava com o crime, Marcos Williams Camacho, o Marcola, e Idemir Carlos Ambrósio, o Sombra, que anos mais tarde se tornariam os principais líderes da massa carcerária, estavam em uma cela separada, confinados. Ainda não comandavam o crime.

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A terceira fase é a do terror e organização empresarial.

Em fevereiro de 2001, o Sombra se tornou o líder mais expressivo do PCC ao coordenar, pelo celular, rebeliões simultâneas em 29 presídios paulistas. Nessa mesma época o símbolo chinês do yin-yang, pintado de branco e preto, foi adotado como escudo da facção. "Uma maneira de equilibrar o bem e o mal com sabedoria", explicavam os dirigentes do PCC.

O Sombra seria assassinado em poucos meses durante uma disputa pelo poder. Geleião e Cesinha assumiram o poder e montaram a aliança com os presidiários do Rio de Janeiro. O terror foi instalado. Era a arma para amedrontar autoridades e outros presos que passaram a disputar o poder do PCC.

É dessa época a cobrança de mensalidade. Para conseguir dinheiro para a facção, os "irmãos", como eram denominados os membros do PCC, tinham de pagar R$ 50 mensalmente, enquanto estivessem presos, e R$ 500 à partir do primeiro mês em liberdade. O dinheiro era usado para comprar armas e drogas.

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O seguro-prisão do PCC.

Passaram a entender um paradoxo, um grande dilema que até hoje parcela importante da população ainda não compreendeu. As prisões - chamadas pela facção de "faculdades" - fortalecem o poder das lideranças presas.

Quanto maior a probabilidade de um criminoso ser preso, mais importante é para ele obedecer às regras estabelecidas pelas lideranças. Mesmo para aquele que está do lado de fora, mas que tem possibilidade de ser preso, obedecer às regras das lideranças passa a funcionar como um "seguro-prisão".

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O PCC tem plano de saúde para seus membros.

A cada presidiário novo, o PCC cobra a mensalidade (atualmente é de R$ 650), determina suas obrigações e comportamento, mas garante incentivos nada desprezíveis. Os "Batizados" - como são denominados os quadros da facção - tem acesso a serviços de saúde privados, algo que é valioso do lado de fora, mas que se torna decisivo nos ambientes insalubres das prisões, onde a propagação de doenças é comum.

Eles também tem acesso a advogados, pagos pela organização. Esse serviço é importantíssimo em um país em que 40% dos presidiários não foi julgado. Também há milhares de presos que receberam do juiz a pena de responder pelo seu crime em prisão domiciliar, acaba esquecido dentro do sistema prisional, caso não possa contar com os serviços dos advogados particulares.

Os benefícios se estendem para fora da cadeia. O PCC empresta armas e dinheiro para a organização de crimes. É a quarta fase de organização do PCC. Essa organização criou um "Banco de Crédito" para financiar traficantes.

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As contas bancárias do PCC.

Pelas contas bancárias de 600 lideranças ligadas ao PCC passaram entre 2006 e 2012, cerca de R$ 2,8 bilhões , conforme levantamento feito pelo Coaf. Uma média de R$ 400 milhões por ano. Um dinheiro que raras empresas "legais" conseguem colocar nos bancos. Esquentam o dinheiro em postos de combustíveis, lojas de carros, casas de câmbio e cooperativas de transporte.

A estimativa dos procuradores é de que, hoje, os chefes do PCC tenham pelo menos R$ 100 milhões investidos em imóveis. A fronteira entre o "legal" e o "ilegal" está se tornando imprecisa, está sendo apagada.

O grupo de Marcola levou para o "partido do crime" o espírito empreendedor e organizacional dos traficantes. Mudaram o modelo de negócios do PCC. Na nova estrutura do PCC, o poder se tornou menos personalista, mais horizontal e descentralizado, oferecendo autonomia de decisão.

É essa eficiente organização empresarial que alguns burocratas, sentados em seus gabinetes, pretende combater criando mais presídios. Isto é, fornecendo mais criminosos para a empresa PCC.



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