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28/07/2018 08:50

Onde fica o inferno? Ele deixou de nos ameaçar

Mário Sérgio Lorenzetto
Onde fica o inferno? Ele deixou de nos ameaçar

Erasmo de Roterdã, um dos mais importantes pensadores da história, perdia a paciência ante as intermináveis disputas entre os teólogos de seu tempo que discutiam sobre se era pecado menos grave matar mil pessoas que costurar um sapato no domingo dedicado ao Senhor. Com o passar do tempo, surgiram novos dilemas em muitas igrejas e templos. A mais nova é o debate se podem fumar (tabaco, bem entendido) enquanto se reza. Ou rezar enquanto se fuma. Mas naquele tempo de Erasmo, Lutero ou Inácio de Loyola, quinhentos anos atrás, nem nos séculos posteriores, discutiram sobre a existência do Inferno, Céu, Purgatório ou Limbo.Seria uma heresia insuportável.

Durante séculos procuraram o lugar do Paraíso. Sem dúvida, ele ficava em algum lugar do planeta Terra para alguns. Em algum lugar próximo a Jerusalém? Em um ponto da África ou da Europa? Mais tarde, tiveram a certeza que seria nas Américas. A prova era visível, bastava olhar aqueles "anjos" (índios) com suas "asas"(penas) celestiais. Para, em seguida, mudarem o endereço do Céu para as nuvens. Já o Inferno era em algum lugar depois do principal rio onde viviam. Na margem inacessível, nos lugares que os aterrorizavam. A maioria acreditava que ficava embaixo da Terra.

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João Paulo II destruiu o Inferno.

O impensável ocorreu no verão europeu de 1999. João Paulo II corrigiu o "Mais Além", o Inferno, de maneira solene e taxativa. O Céu, disse o pontífice polaco, não é um "lugar físico entre as nuvens". O Inferno, tampouco, "é um lugar", e sim "a situação de quem se aparta de Deus". E o Purgatório é um estado provisório de "purificação que nada têm a ver com endereços terrenos".

O curioso é que uma tamanha correção de rumo, que resulto pacífica quando a predicou o conservador João Paulo II venha se tornando escandalosa 18 anos depois quando reiterada,sem dar muita importância, o papa Francisco, argentino e jesuíta. Na Semana Santa, Francisco concedeu uma entrevista a Eugenio Scalfari, um dos mais conceituados jornalistas italianos. Perguntado sobre o que acontece com as almas dos pecadores quando morrem, afirmou: "Não são castigados.

Aqueles que se arrependem obtêm o perdão de Deus, mas aqueles que não se arrependem e não podem ser perdoados, desaparecem. O inferno não existe, o desaparecimento de almas pecadoras existe".

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A contestação ao papa Francisco.

Desde então, não param de escutar-se execrações contra Francisco, na boca de católicos puristas, mas também na Cúria Romana e entre cardeais, tachado-o, quando pouco, de herege ou maçom.

Inclusive a Imprensa do Vaticano retificou a afirmação papal. Disse que o jornalista havia transcrito inadequadamente as palavras do Papa. "As aspas que aparecem não devem ser consideradas como uma reprodução fiel das palavras do Santo Padre", dizia o comunicado. Mas não evitou a enchente de críticas. Há muito tempo um pontífice não recebe tantas execrações, nem havia sido tratado com tanto desrespeito desde Pio IX, o papa que proclamou a infalibilidade de quem ocupava o Trono do Vaticano e condenou com enorme fúria todas as ideias que estavam abrindo caminho nos finais do século XIX, entre outras, o liberalismo, o naturalismo e a autonomia da sociedade civil.

O mundo suportou muitos infernos desde Pio IX. Foram duas Guerras Mundiais e vários holocaustos. O inferno são os outros. Seja como for, a predicação de Francisco excitou a imaginação de alguns jornalistas católicos puristas. Há anos a nova escatologia estava aberta sem algazarra. O Céu da fé não é o céu dos astronautas. Não é um lugar e sim uma forma de ser e de se comportar. Tampouco o Inferno deve ser entendido como um lugar embaixo da terra, e sim como uma exclusão de comunhão com Deus.



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