A geração de cristal e o medo de perder
Há algumas décadas, entrar em uma quadra poliesportiva, em um campo de futebol ou em uma pista de atletismo de base significava, para muitos jovens, o primeiro contato real com a disciplina e a hierarquia. O treinador era uma figura intocável. Sua voz grossa e a exigência de repetição exaustiva não eram vistas como grosseria, mas como método. Errar um saque ou um passe podia render uma série de sprints; contestar uma decisão podia resultar em banco. O objetivo era forjar não apenas atletas, mas indivíduos resistentes à pressão.
Hoje, esse cenário mudou drasticamente. Relatos de treinadores das categorias de base do vôlei, basquete, atletismo, futebol e de outros esportes revelam uma realidade inversa: o técnico tornou-se refém do seu próprio elenco. Qualquer tom de voz mais elevado ou cobrança mais incisiva gera, imediatamente, uma ligação para os pais ou, nos casos de atletas mais estruturados, a intervenção de empresários e representantes. O treinador que “berra” não é mais visto como um formador, mas como um agressor.
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O resultado é um ambiente higienizado, onde a competitividade é substituída pelo cuidado excessivo com a autoestima, criando o paradoxo da proteção. Este fenômeno, embora nascido de uma nobre intenção de proteger a saúde mental dos jovens, criou um paradoxo perigoso. Ao blindar o atleta da aspereza do treinador, a família o priva de um laboratório fundamental para a vida: o treino não é a vida real. A vida real, seja no esporte profissional ou no mercado de trabalho, é indiferente ao seu estado emocional. Ela não interrompe o jogo porque você se sentiu ofendido.
Ao afastar a figura do treinador “durão”, podemos formar atletas tecnicamente habilidosos, mas emocionalmente frágeis. Eles sabem executar a manchete, o chute, o arremesso etc., mas não sabem reagir quando o levantador, o meia ou o armador os ignora numa jogada decisiva. Sabem sacar, chutar e arremessar, mas não sabem perder uma final. O erro, que deveria ser visto como parte do processo, torna-se um trauma, é o nascimento da essência do que é o verdadeiro espírito competitivo.
No esporte, é o nosso adversário que nos faz crescer e evoluir competitivamente, com energia, respeito e lealdade. Essa afirmação é tão rica porque desconstrói a ideia de que o adversário é um "inimigo". Em vez disso, ele é um parceiro de evolução, nos faz crescer e evoluir competitivamente. Sem um oponente à altura, ficamos na nossa zona de conforto. É a pressão que ele exerce, a necessidade de superar os obstáculos que ele apresenta, que nos força a treinar mais, a buscar novas estratégias e a descobrir nossos limites. Ele nos mostra, na prática, onde precisamos melhorar:
- Com energia: essa é a paixão, a garra, a intensidade do jogo. É o combustível que nos move para dar o melhor de nós. É a adrenalina do confronto, que torna a vitória doce e a derrota um aprendizado.
- Com respeito: é o pilar fundamental. Respeitar o adversário significa reconhecer seu esforço, sua dedicação e sua habilidade. É saber que, sem ele, não há jogo. É cumprimentá-lo antes e depois da partida, independentemente do resultado. É competir duro, mas jamais ultrapassar a linha da dignidade.
- Com lealdade: é a irmã do respeito. É jogar dentro das regras, com honestidade. É não buscar vantagens ilegítimas. É saber que a verdadeira vitória só tem valor se for conquistada de forma justa, em um campo de batalha onde ambos os lados jogaram limpo.
Podemos dizer que, numa competição saudável, você e seu adversário não estão apenas um contra o outro; vocês estão juntos em uma jornada para se superarem. Ao empurrar seus limites, ele o ajuda a se tornar um atleta (e uma pessoa) melhor, e você faz o mesmo por ele.
O espelho dos realities shows demonstra isso, onde essa fragilidade encontra o seu espelho mais cruel, mais especificamente nos realities shows de confinamento. Observar o comportamento de jovens adultos nesses programas é assistir, ao vivo, ao resultado dessa geração que não aprendeu a competir no ambiente controlado do esporte.
Nos realities há uma confusão estrutural sobre o que significa “jogar”. Atletas de alto rendimento devem saber que o jogo tem regras, um adversário e, ao final, um resultado. Nos programas de confinamento, muitos participantes confundem a competição com uma agressão pessoal. Criar estratégias contra alguém é interpretado como traição; discordar é visto como desrespeito. Sem a vivência esportiva que ensina que o adversário não é um inimigo (é apenas alguém do outro lado da rede), esses jovens recorrem à única arma que lhes resta: a explosão emocional.
Assim, substituem o jogo tático pelos gritos, pela violência simbólica e, muitas vezes, pelas mentiras como ferramenta de autopreservação. Não sabem perder porque nunca lhes foi ensinado que perder é uma possibilidade real e digna. Foram criados em um ambiente onde todos os treinos terminavam com um “está tudo bem, você tentou”, e nunca com um “você perdeu porque foi inferior hoje. Vamos trabalhar para reverter isso”, a chamada cultura do “articular contra”.
Outro reflexo direto é a dificuldade em separar a pessoa do jogador. No esporte, o atleta aprende que o técnico que o tira de um jogo não o odeia; ele apenas precisa de uma estratégia diferente. Na vida, essa geração tende a personalizar os conflitos. Sem o esporte para ensinar a resiliência, qualquer confronto vira uma crise existencial.
Nos realities isso se manifesta na incapacidade de formar alianças racionais. Em vez de articular um movimento para vencer, o participante articula um discurso para destruir a imagem do oponente. A vitória só é válida se o outro for aniquilado moralmente, porque a derrota esportiva justa nunca foi internalizada como uma opção viável.
O movimento de humanizar o esporte e respeitar os limites dos atletas é uma evolução inegável da sociedade. Não defendo treinos com falta de educação ou de violência verbal. O bom professor ensina a vencer com humildade e a perder com dignidade. No entanto, a correção do excesso não pode resultar no vácuo de autoridade. Quando as famílias e representantes silenciam o treinador, eles não estão protegendo o atleta; estão adiando o inevitável. Mais cedo ou mais tarde, a vida irá confrontar esse jovem. E a diferença entre um campeão e uma ex-jóia promissora, muitas vezes, não está na habilidade técnica, mas sim no que ele aprendeu a fazer com a sua frustração.
O grito que se calou na quadra, no campo ou na pista, hoje ecoa distorcido, nos confessionários dos realities shows.
(*) Carlos Alberto Rezende é conhecido como Professor Carlão. Siga no Instagram: @oprofcarlao

