Inteligência artificial: tecnologia avança, experiência humana permanece
Imagine a seguinte situação: você se candidata a uma vaga de emprego em uma empresa e, em vez de conversar com um profissional de recursos humanos, sentar-se diante de alguém, apresentar sua trajetória, falar de suas experiências e demonstrar suas habilidades, acaba fazendo sua primeira entrevista com uma máquina. Uma inteligência artificial, um aplicativo ou um sistema automatizado passa a conduzir aquele primeiro contato.
É o mundo em que estamos vivendo. A tecnologia avança em uma velocidade impressionante, a inteligência artificial ganha cada vez mais espaço e os aplicativos passam a ocupar funções que, até pouco tempo atrás, dependiam exclusivamente das relações humanas.
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Não se trata de negar a importância dessas ferramentas. Pelo contrário. A inteligência artificial representa uma das maiores transformações do nosso tempo. É capaz de reunir informações, organizar conhecimentos, acelerar processos e oferecer respostas que podem contribuir significativamente para o desenvolvimento profissional, educacional e social.
Mas precisamos fazer uma reflexão: até que ponto estamos confundindo inteligência tecnológica com inteligência humana?
Uma máquina pode processar informações, mas não acumula experiências de vida. Pode reproduzir conhecimentos, mas não vive as circunstâncias que dão significado a eles. Pode identificar padrões, mas não necessariamente compreender a complexidade de uma trajetória humana, suas dificuldades, suas contradições, seus sentimentos e suas conquistas.
A experiência vivida é um patrimônio que não se transfere por meio de um aplicativo.
Pensemos nos professores. Um bom professor não é apenas alguém que domina determinado conteúdo ou transmite informações encontradas nos livros. É alguém que, ao longo dos anos, aprende a interpretar comportamentos, identificar dificuldades, compreender contextos e reconhecer potencialidades. Sua experiência permite perceber aquilo que muitas vezes não está escrito em uma avaliação ou em uma resposta pronta.
É justamente essa bagagem que faz a diferença na formação de novos profissionais.
Um estudante que desenvolve o hábito da leitura, da escrita, da interpretação e do pensamento crítico terá condições muito melhores de utilizar a inteligência artificial. Saberá fazer perguntas mais inteligentes, identificar inconsistências, comparar informações, questionar respostas e transformar o conhecimento disponível em soluções concretas.
A inteligência artificial pode oferecer milhares de informações, mas é o repertório humano que permite selecionar, interpretar e dar sentido ao que recebemos.
Por isso, existe uma preocupação que precisa estar presente no debate sobre o futuro da educação e do trabalho: não podemos formar gerações que saibam apenas apertar botões, fazer pesquisas rápidas e reproduzir respostas. Precisamos formar pessoas capazes de pensar, argumentar, interpretar, escrever e, principalmente, estabelecer relações humanas.
Essa discussão se torna ainda mais importante quando olhamos para o futuro da sociedade brasileira. Nas próximas duas ou três décadas, teremos uma população significativamente mais envelhecida. E estaremos falando de gerações que cresceram valorizando a conversa presencial, o telefone, o encontro, o olho no olho e a troca de experiências. Pessoas para quem conversar sempre foi diferente de simplesmente trocar mensagens.
O desafio será construir uma sociedade que saiba conviver com a tecnologia sem abrir mão da humanidade.
Não podemos transformar eficiência em indiferença, modernidade em distanciamento ou inovação em substituição indiscriminada das relações humanas. Uma entrevista de emprego, por exemplo, não deveria avaliar apenas respostas previamente identificadas por um algoritmo. Ela também precisa permitir que alguém perceba a história, a postura, a capacidade de diálogo, a maturidade e as experiências de quem está diante de uma oportunidade.
Talvez o grande desafio da inteligência artificial não seja apenas ensinar as máquinas a fazer mais coisas, mas ensinar a sociedade a não deixar de pensar, sentir, interpretar e conviver.
A tecnologia deve ser uma ferramenta a serviço das pessoas, e não um instrumento para diminuir a importância delas.
A inteligência artificial pode ampliar nossos horizontes, mas a experiência, a leitura, a escrita, a capacidade de interpretação e o conhecimento construído ao longo da vida continuam sendo diferenciais fundamentais.
Afinal, a inteligência artificial pode acumular informações, mas não substitui a inteligência construída pela experiência de viver. E, por mais avançadas que sejam as máquinas, nenhuma tecnologia deveria nos fazer esquecer o valor insubstituível de uma boa conversa, de um professor experiente ou de um ser humano olhando para outro ser humano.
O futuro precisa ser tecnológico, sim. Mas não podemos aceitar que, para sermos mais modernos, tenhamos que ser menos humanos.
(*) Carlos Alberto Rezende é conhecido como Professor Carlão. Siga no Instagram: @oprofcarlao.

