O peso que não pertence ao líder
Durante muito tempo, eu acreditei que um bom líder era aquele que nunca desistia das pessoas.
Sempre que um colaborador perdia o brilho no olhar, eu me perguntava o que ainda poderia fazer. Sempre que alguém decidia ir embora, eu voltava para casa revivendo conversas, procurando respostas e tentando encontrar onde havia falhado. Carregava comigo a sensação de que, se eu liderasse melhor, talvez conseguisse mudar aquela história.
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Hoje percebo que esse foi um dos maiores pesos que assumi como empresária.
Empreender nunca foi apenas abrir uma empresa para mim. Foi um sonho. Um sonho que amo viver todos os dias, mesmo nos dias difíceis. Talvez por amar tanto esse caminho, eu tenha acreditado que também conseguiria fazer outras pessoas amarem. Descobri, com o tempo, que amor não se transfere. Propósito não se impõe. Sonhos não podem ser vividos por outra pessoa.
Essa descoberta não me tornou menos humana. Pelo contrário. Ela me fez compreender que liderança não é carregar a vida de quem trabalha conosco. É construir um ambiente onde as pessoas tenham oportunidade de crescer, aprender e encontrar sentido enquanto fizer sentido permanecer.
Existe uma diferença enorme entre cuidar de pessoas e assumir a responsabilidade pela felicidade delas. Durante muito tempo, confundi essas duas coisas. E foi justamente aí que meu sonho começou, silenciosamente, a parecer uma prisão.
Nenhum líder é capaz de despertar o sonho de quem ainda não decidiu sonhar. Nenhum treinamento substitui uma decisão que pertence ao outro. Nenhuma empresa consegue preencher vazios que a própria pessoa ainda está tentando compreender.
Essa talvez tenha sido a lição mais difícil da minha trajetória.
Não porque eu deixei de acreditar nas pessoas.
Mas porque precisei aprender a acreditar que algumas escolhas nunca dependerão de mim.
Hoje continuo acreditando na força da liderança. Continuo acreditando em desenvolvimento, em diálogo e em cultura. Apenas deixei de acreditar que amar profundamente uma empresa me dá o poder de decidir o caminho de quem caminha ao meu lado.
Talvez amadurecer como líder seja justamente isso: continuar cuidando das pessoas sem carregar um peso que nunca foi meu.
Michelle Pinho — CEO Padoca do Enaldo e sócia da Solutri Soluções. Colunista da Sabor e Negócios, escreve sobre gestão, propósito e os bastidores reais da gastronomia com alma. 📩 negocioscomsabor@gmail.com — para quem cansou de empreender sozinho.

