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Economia

Às margens da BR-163, comerciantes temem retirada de barracas com duplicação

Audiência pública reuniu cerca de 150 pessoas e discute tombamento das 43 barracas como patrimônio cultural

Por Viviane Oliveira e Cassia Modena | 25/02/2026 11:46
Às margens da BR-163, comerciantes temem retirada de barracas com duplicação
Barracas instaladas às margens da BR-163, no distrito de Anhanduí (Foto: Juliano Almeida)

“Se fizerem isso, vão tirar o nosso pão de cada dia.” O desabafo de Rosimeire da Silva, de 48 anos, resume a preocupação dos comerciantes de Anhanduí, distrito de Campo Grande, diante da possibilidade de retirada das barracas instaladas às margens da BR-163. Há quase 40 anos no local, eles temem que a duplicação da rodovia comprometa a principal fonte de renda do distrito.

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Comerciantes de Anhanduí, distrito de Campo Grande, temem a retirada de 43 barracas instaladas às margens da BR-163 devido ao projeto de duplicação da rodovia pela concessionária Motiva Pantanal. As barracas, que existem há quase 40 anos, são a principal fonte de renda para dezenas de famílias locais. Em audiência pública realizada na quarta-feira (25), discutiu-se projeto de lei que propõe o tombamento das barracas como patrimônio cultural do município. A medida é vista como alternativa para garantir a permanência dos comerciantes, que vendem produtos como pimenta, doces artesanais, salame e queijo principalmente para caminhoneiros e turistas.

A declaração foi feita durante audiência pública realizada nesta quarta-feira (25), na Escola Municipal Isauro Bento Nogueira, na Rua Mairiporã. O encontro ocorreu próximo à área onde funcionam as 43 barracas que vendem pimenta, doces artesanais, salame, queijo, leite, feijão de corda e milho verde. Cerca de 150 pessoas participaram da discussão, entre barraqueiros, familiares e fornecedores.

O debate foi convocado para discutir projeto de lei de autoria do vereador André Salineiro (PL), que propõe o tombamento das barracas como patrimônio cultural do município. A medida é vista pelos comerciantes como alternativa para garantir a permanência no local. Este reconhecimento impediria a retirada sem a apresentação de alternativa que preserve a atividade econômica. O projeto aguarda inclusão na pauta para votação em plenário. 

A preocupação aumentou com a retomada do projeto de duplicação da rodovia pela concessionária Motiva Pantanal, antiga CCR MSVia. Conforme apurado pela reportagem, em 2015, quando a concessionária ainda operava sob o nome anterior, a retirada das barracas já havia sido discutida. O tema chegou à Câmara Municipal, mas acabou não avançando e caiu no esquecimento.

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Agora, com a reativação do projeto de duplicação, o receio voltou à tona. O empresário Jezreel Lescano, filho de ex-barraqueiro, foi quem sugeriu a realização da audiência pública. Ele relatou que, em dezembro do ano passado, representantes de uma empresa terceirizada da Motiva se reuniram com os comerciantes no CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) do distrito para levantar informações sobre a atividade.

Segundo ele, houve um levantamento detalhado sobre a quantidade de barracas, número de comerciantes, funcionários e tipos de produtos vendidos. Durante a reunião, os representantes questionaram desde quando os comerciantes atuavam no local, como funcionava o trabalho, se havia renda alternativa e como seria a adaptação caso fossem deslocados para uma rua lateral da rodovia. Ainda conforme os relatos, foi informado que não há decisão oficial sobre retirada, seja temporária ou definitiva.

Para Rosimeire, que trabalha há mais de 20 anos na barraca de doces, pimentas, salame e provolone aberta inicialmente pela sogra, a incerteza se arrasta há décadas. “Há mais de 30 anos existe essa ameaça, mas nunca chegaram para nós e disseram oficialmente que vão nos tirar. Se fizerem isso, vão tirar o nosso pão de cada dia, porque aqui não tem indústria, não tem nada onde a gente possa trabalhar”, afirmou.

Os comerciantes reforçam que o distrito tem pouca infraestrutura e mercado de trabalho limitado. Segundo eles, as barracas movimentam a economia local e sustentam dezenas de famílias.

Claudete Soares da Silva, 56 anos, comparou a situação à organização do camelódromo de Campo Grande, mas afirmou que o modelo não se aplica à realidade de Anhanduí. “Aqui nossos principais clientes são os caminhoneiros e turistas. Eles não vão sair da rodovia para comprar. O ideal é continuar na estrada. Não aceitamos sair, porque não somos feirantes. Vendemos para quem está viajando, de passagem pela estrada”, disse.

Ela afirma ter pesquisado casos semelhantes em outras regiões do país onde comerciantes foram retirados das margens de rodovias. “Em todos os lugares, os comerciantes faliram”, relatou. Segundo Claudete, 100% dos barraqueiros dependem exclusivamente das vendas para manter as famílias e apoiam o tombamento como forma de proteção.

O professor aposentado Sebastião Gomes de Souza, 74 anos, que lecionou na escola onde ocorreu a audiência, também participou do encontro. Hoje pequeno produtor rural, ele possui uma chácara de 10 hectares no distrito, onde cultiva soja, milho e arroz, e fornece amendoim, feijão de corda, milho verde e pimenta para diversos barraqueiros.

Às margens da BR-163, comerciantes temem retirada de barracas com duplicação
Comerciantes reunidos no ginásio da escola durante a audiência pública que debateu o futuro das barracas em Anhanduí (Foto: Juliano Almeida)

Ele acompanhou o surgimento das primeiras barracas e defende que a proposta de tombamento deveria ter sido implementada há décadas. “Anhanduí já não tem geração de emprego, não tem infraestrutura. O que vai acontecer? Um prejuízo total para a comunidade e para o comércio, porque não gera dinheiro. Tem dias em que eles [barraqueiros] fazem R$ 2 mil. Essa lei já era para ter sido feita há 40 anos, quando começaram a ocupar aqui”, declarou.

Marluce Martins Nantes, 41 anos, e o marido, Cristiano Catarino Souza, 38, assumiram a barraca do sogro e definem a atividade como um projeto familiar. “É uma vida inteira dedicada a isso. Comerciantes e fornecedores dependem daqui para sobreviver. Se tirar as barracas, vai acabar o Anhanduí”, afirmou. Todos os comerciantes atuam como MEI (Microempreendedor Individual).

Durante a audiência, também foi ressaltada a importância de documentar as discussões, inclusive com possibilidade de eventual ação judicial, caso haja tentativa de remoção.

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Marluce Martins Nantes, 41 anos, e o marido, Cristiano Catarino Souza, 38, assumiram a barraca do sogro e definem a atividade como um projeto familiar (Foto: Juliano Almeida)

Estudo - Por meio de nota, a Motiva Pantanal informou que o tema está em fase inicial de análise interna, com a realização de levantamentos e diagnóstico técnico preliminar, sem qualquer definição ou deliberação até o momento. A concessionária ressaltou que não há processo de realocação em andamento envolvendo comerciantes às margens da BR-163/MS e que, por ora, o trabalho se limita a um estudo para compreender a realidade social e econômica local.

A concessionária acrescentou que a discussão será conduzida de forma institucional, em conjunto com o Governo do Estado e a Prefeitura de Campo Grande, e reafirmou compromisso com a transparência, a segurança viária, o cumprimento do contrato e o respeito à dinâmica da comunidade.

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