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Campo Grande, Domingo, 22 de Julho de 2018

31/01/2018 08:40

Cheque vira raridade e tem menor circulação no período de 20 anos

No período, quantidade reduziu 78%; em um ano, são R$ 1,8 bilhão a menos

Osvaldo Júnior
Cheques são cada vez menos usados em MS (Foto: Paulo Francis)Cheques são cada vez menos usados em MS (Foto: Paulo Francis)

Entre os objetos que José Rosa, 45 anos, afirma que precisa jogar fora estão dois talões de cheques. “A última vez que usei cheque foi há oito anos”, estimou o mototaxista, em menção a uma forma de pagamento cada vez mais em desuso. Em 2017, a queda foi recorde: a quantidade e o valor das transações com cheques em Mato Grosso do Sul foram os menores dos últimos 20 anos.

Dados do Banco Central mostram que, de janeiro a dezembro do ano passado, foram trocados 6,73 milhões de cheques em todo o Estado com movimentação correspondente a R$ 11,97 bilhões. O volume de documentos vem caindo ininterruptamente há sete anos e recuou, em 2017, para a menor marca desde 1997, quando teve início a série histórica do levantamento. Nesse período, a retração foi de 78%.

José Rosa guarda em casa dois talões de cheques já sem validade (Foto: Paulo Francis)José Rosa guarda em casa dois talões de cheques já sem validade (Foto: Paulo Francis)

A trajetória dos valores apresenta oscilação mais acentuada que a do volume de cheques. Entretanto, com a diminuição expressiva no número de lâminas em 2017, o valor das transações também foi, nesse ano, o menor da série histórica. Até então, a cifra mais modesta havia sido a de 2006, com R$ 13,16 milhões.

Em um ano, de 2016 a 2017, as variações na quantidade e nos valores dos cheques movimentados em Mato Grosso do Sul foram, respectivamente, de -16,63% e de -13,31%. Em 2016, foram trocados 8,082 milhões de cheques no valor de R$ 13,81 bilhões. Nesse intervalo, as reduções, em termos absolutos, foram de 1,34 milhão de lâminas e de R$ 1,83 bilhão.

Jorge não usa mais cheque e só ficou com um cartão de crédito (Foto: Paulo Francis)Jorge não usa mais cheque e só ficou com um cartão de crédito (Foto: Paulo Francis)
Belarmino afirma que só usa dinheiro. Nunca tive cheque, conta (Foto: Paulo Francis)Belarmino afirma que só usa dinheiro. "Nunca tive cheque", conta (Foto: Paulo Francis)

Consumidores – Essas estatísticas se manifestam no comportamento de consumo dos campo-grandenses, que veem no cheque um artigo do passado. “Saiu da moda. Hoje, raramente o comércio aceita”, observa o mototaxista José Rosa, que usou cheque, pela última vez, há oito anos na compra parcelada de material de construção. Como “recordação” desse tempo há dois talões com data vencida. “Esqueço de destruir e jogar fora”, diz.

A menor transação com cheques também reflete a redução do poder de compra dos consumidores. “Já não uso mais nem cheque e diminuí os cartões, porque o dinheiro ficou escasso. Tenho só um cartão pra fazer compra em supermercado”, contou Jorge Mashar, 63 anos. Ele acrescenta que a última vez que assinou uma folha de cheque foi há sete anos.

Pipoqueiro há 40 anos na Praça Ary Coelho, Belarmino Pereira dos Santos, 73 anos, é mais radical. “Nunca usei cheque, não gosto de mexer com banco. Tudo que comprei na vida foi com dinheiro. Se o dinheiro dá, eu compro. Se não, não compro”, afirmou.

Cheque vira raridade e tem menor circulação no período de 20 anos

Dos cheques devolvidos no ano passado, 76% não tinham fundos 

A redução da participação dos cheques no mercado pode estar relacionada com a baixa segurança proporcionada por essa forma de pagamento. De cada dez cheques movimentados em Mato Grosso do Sul no ano passado, um foi devolvido e a maior parte por não ter fundos.

De acordo com o Banco Central, as devoluções somaram 1,187 milhão de cheques no Estado em 2017. Desse total, 910 mil ou 76% foram devolvidos por não ter fundos. Os demais retornaram, porque foram sustados, tinham erros formais (data, grafia numérica) não apresentavam assinaturas, foram furtados, entre outros motivos.

Alternativa à inadimplência – A aceitação modesta de cheque no comércio também está ligada aos índices de inadimplência. Na rede de farmácias São Leopoldo, por exemplo, dos cheques recebidos de forma pré-datada, metade não era convertida em pagamento efetivo. “Tínhamos 50% de inadimplência com cheques. E pensamos até mesmo em não mais aceitar esse tipo de pagamento”, contou David Oliveira, supervisor de uma das lojas da rede.

A saída para o problema foi criar um grupo de clientes que podem pagar com cheque. “Começamos isso há dois meses. Nós temos um banco só de clientes que pagam com cheque. Com isso acabamos com a inadimplência”, informou.

O seleto grupo tem perfil, que torna reduzido o risco da inadimplência. “São pessoas idosas, que têm o costume de pagar com cheque. São também clientes muito antigos, de 15 anos ou mais. Então, não tem perigo”, descreveu o supervisor.

História – De acordo com o Banco Central do Brasil, o cheque surgiu no País em meados do século XIX com o nome de “cautela”. A primeira referência a essa espécie de “avô do cheque” é de 1845, quando foi fundado o Banco Comercial da Bahia. A denominação “cheque” só vai aparecer em 1893, na Lei 149-B.

Quanto à origem do nome, o Banco Central menciona que há duas versões. “Enquanto os franceses atribuem a origem da palavra cheque ao vocábulo inglês to check - 'verificar', 'conferir' –, os ingleses sustentam que a palavra é originária do francês echequier, que significa 'tabuleiro de xadrez'. Segundo os ingleses, as mesas usadas pelos banqueiros tinham a forma de um tabuleiro de xadrez, daí seu nome”, informa a instituição financeira.



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