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Construção dá sinais de queda, mesmo com aumento do financiamento imobiliário

Economia

Construção dá sinais de queda, mesmo com aumento do financiamento imobiliário

Mesmo com crescimento de 19,4% no financiamento imobiliário, a construção civil dá sinais de queda

Por Ignácio Aglietti | 20/05/2020 14:42
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Não deve ter nenhum setor da indústria ou comércio que não tenha já sido atingida pelos efeitos que essa pandemia vem arrastando. Lamentavelmente a paralisação da economia e o isolamento social veio pôr um freio no crescimento que o Brasil vinha experimentando nos últimos anos. De fato o Relatório de Acompanhamento Fiscal n° 39 do mês de abril, elaborado pelo Instituto Fiscal Independente do Senado (IFI) projeta uma queda do PIB de -2,2% ou até de -5,2% num cenário pessimista. Ainda mais, em um cenário extremo, imaginando 22 semanas (5 meses e meio) de paralisação e redução de um 85% na atividade econômica a diminuição do Produto Interno Bruto poderia superar os 7 pontos porcentuais.

De acordo com o informe, também o índice de confiança empresarial (ICE) recuou 6,5 pontos em março, senda mais drástica a perda de confiança nos setores de comércio e serviços. E a construção? a piora da confiança foi menor em comparação com outras áreas caindo 2 pontos (bastante menos que o setor do o comércio, por exemplo, que caiu 11%).  O cenário ainda não fica claro: desde o começo da pandemia, as previsões com respeito à construção civil não são homogêneas e os dados podem confundir.

Crescimento do financiamento imobiliário SBPE

Um dado a ser levado em conta é que em comparação com o mesmo período do ano passado, no primeiro trimestre deste 2020 o financiamento imobiliário feito com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) cresceu um 29,8% atingindo R$ 20,25 bilhões. Só em março, o financiamento por este meio chegou a ser de R$ 6,73 bilhões crescendo 5,6% em relação ao mês anterior e 19,4% com respeito a março de 2019. A informação foi brindada no Boletim Informativo de Crédito Imobiliário e Poupança da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).

O SBPE capta recursos a través de uma das ferramentas de investimento mais tradicionais que existe no Brasil, isto é a caderneta de poupança. Assim, o dinheiro aplicado pelo poupador é recebido pelos bancos através de um processo monitorado e regulado pelo Conselho Monetário Nacional e o Banco Central, a fim de poder oferecer linhas de créditos para os seus clientes. Para as famílias que procuram empréstimos para construção essa costuma ser uma das mais viáveis e utilizadas: só entre janeiro e março de 2020 79,07 mil construções ou aquisições de unidades habitacionais foram financiadas por este sistema, 24,3% a mais do que no mesmo período de 2019.

Mesmo que a informação até aqui possa parecer otimista, é importante lembrar que, sendo que os dados foram registrados até março, o Boletim pode ainda não estar  refletindo o impacto da crise da atual pandemia sobre o crédito habitacional do SBPE. Como o dinheiro aplicado pelas pessoas se transforma indiretamente em crédito para o setor imobiliário, vai ser preciso observar daqui pra frente o comportamento da captação líquida das cadernetas, já que a poupança dos brasileiros está ligada diretamente a possibilidade de financiar a compra de um imóvel.

Até março a captação líquida das cadernetas de poupança do SBPE foi positiva com um dos melhores comportamentos por mês registrados na história (R$ 8,25 bilhões). Isto reflete o esforço da maioria das famílias em acrescer as reservas que possam ser precisar para fazer frente a crise do coronavírus, principalmente com as ameaças para o emprego e fontes de renda. Mas não existem previsões de que a captação possa continuar crescendo do jeito que vem o fazendo, justamente por causa da possível diminuição dos ingressos familiares.

Mudanças nas projeções na construção civil 

A situação atual fica bastante longe das expectativas que, para este ano, eram formuladas entre finais do ano passado e começo de 2020. Nesse sentido, a maioria das estimações feitas por consultorias ou órgãos públicos imaginava um crescimento interessante na área da construção civil. De acordo com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) em 2019 a economia brasileira cresceu um 1,1%, e o crescimento na construção de 1,6% - por cima do incremento geral do país- com certeza ajudou a dar impulso no crescimento de PIB nacional e industrial. Para ter uma ideia do que isso supõe, no 4° trimestre do ano passado foram lançados 44.332 imóveis residenciais novos (8,4% a mais em comparação com aquele período do 2018).

Com respeito ao presente ano, se projetava um período mais do que positivo esperando um  crescimento nos lançamentos de 20% a 30%, com um potencial para gerar 5.5 milhões de postos de trabalho- ou seja 5% de todos os empregos do país- e para construir até um milhão de novas moradias.

Essas expectativas se apoiavam, em grande parte, nas ferramentas financeiras para a aquisição dos imóveis e na disponibilidade de funding por parte dos bancos. É por isso que informações como a capacidade de captação líquida na caderneta de poupança e as variações do SBPE (um dos maiores sistemas de funding)  são tão importantes.

Só que ninguém contava com uma crise mundial da magnitude que a atual pandemia veio provocar. O aumento da confiança no mercado e do nível de renda que apoiava o crescimento esperado começam a desaparecer e o futuro da construção ainda é de incerteza. Por enquanto,  na Sondagem Indústria da Construção feita pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) se monstra que a atividade da construção caiu drasticamente de fevereiro para março: o índice do nível de atividade ficou em 28,8 pontos numa escala de 0 a 100 pontos (nesse sistema de medição, os valores que ficam por baixo de 50 pontos são considerados retração).

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Atualmente as projeções variam muito dependendo das consultorias ou órgãos públicos. O financiamento ainda consegue ser uma boa notícia. Dentre outras medidas adotadas, a Caixa Econômica Federal anunciou que destinará R$ 43 bilhões em novas linhas de crédito com carência de 6 meses no pagamento delas para pessoas físicas e empresas. A CBIC recebeu o anúncio com otimismo. Em palavras do presidente da Câmara, José Carlos Martins, “a construção civil pode ser o alicerce para não deixar a economia do país afundar e que, se neste momento for preciso um ‘pause’, quando colocar um ‘play’ o setor vai sair na frente”.


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