Fábrica acelera, mas comércio freia e Ribas busca saída para a 'estagnação'
Com menos trabalhadores circulando, comércio local enfrenta queda nas vendas

Ribas do Rio Pardo vive um paradoxo econômico. A fábrica da Suzano continua produzindo em grande escala, mas parte do comércio que cresceu embalado pela construção do empreendimento enfrenta agora queda nas vendas, aumento da concorrência e necessidade de reduzir custos.
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É o que empresários locais já chamam de “boom negativo”: o período de ajuste depois da euforia.
A mudança era previsível, mas nem por isso deixou de ser dolorosa. No pico das obras da fábrica, mais de 10 mil trabalhadores estavam diretamente envolvidos na construção. Com a entrada em operação, em julho de 2024, o contingente ligado às atividades industriais, florestais e logísticas passou para cerca de 3 mil pessoas, entre empregados próprios e terceirizados.
Isso não significa que sete mil moradores de Ribas tenham perdido o emprego. Boa parte da mão de obra da construção veio de outras cidades e deixou o município depois da conclusão dos serviços. Mas a redução do número de trabalhadores circulando, alugando imóveis, frequentando restaurantes e comprando no comércio teve efeito direto sobre a economia urbana.
O Projeto Cerrado recebeu investimento de R$ 22,2 bilhões e transformou Ribas do Rio Pardo em sede da maior fábrica de celulose em linha única do mundo, com capacidade para produzir 2,55 milhões de toneladas por ano. Em 2025, primeiro ano completo de funcionamento, a unidade produziu 2,58 milhões de toneladas. A indústria, portanto, segue acelerada. O problema está na dificuldade de fazer essa riqueza circular com maior intensidade dentro da cidade. Suzano
Os sinais do aperto aparecem nas decisões tomadas pelos próprios empresários. Ângelo da Silva, comerciante do setor de embalagens, mudou a sede da empresa para adequar custos e estrutura à nova realidade econômica.

Wagner Roberto da Silva, conhecido como Dum, também transferiu o estabelecimento. Instalou-se na avenida central e passou a buscar parcerias dentro de seu ramo de atuação, numa tentativa de ampliar o movimento e conquistar novos consumidores.
Douglas Thiem, comerciante da área de celulares, seguiu caminho semelhante e mudou de endereço. Além da retração local, ele aponta outro adversário: o comércio eletrônico, que permite ao consumidor comparar preços e comprar fora da cidade sem sair de casa.
A soma desses fatores pressiona principalmente pequenos e médios negócios, que ampliaram estoques, contrataram funcionários ou investiram em estrutura durante a fase de construção da fábrica. Agora, precisam reorganizar as contas diante de um mercado menor e mais competitivo.
Presidente da Associação Comercial, Industrial e do Agronegócio de Ribas do Rio Pardo, a ACIARRP, Ricardo Scavassa afirma que outro problema é a saída do consumo para Campo Grande. Parte dos moradores viaja até a Capital atraída por preços aparentemente mais baixos, sem colocar na conta combustível, tempo de deslocamento, desgaste do veículo e o risco de percorrer a BR-262.
Nessa conta completa, o barato pode sair caro. Para o comércio local, cada compra feita fora representa dinheiro que deixa de circular na cidade, reduzindo faturamento, empregos e arrecadação.
Como primeira reação, a associação prepara o “Show de Prêmios ACIARRP 2026”. A campanha terá 12 sorteios semanais, entre 10 de outubro e 26 de dezembro, com prêmios doados pelos próprios empresários participantes.
O encerramento será no dia 10 de janeiro, com R$ 20 mil em dinheiro. O primeiro sorteado receberá R$ 10 mil; o segundo, R$ 6 mil; e o terceiro, R$ 4 mil.
A diretoria da ACIARRP reuniu-se nesta sexta-feira com o prefeito e terá audiência na terça-feira com os vereadores. A intenção é construir medidas conjuntas para estimular as vendas de fim de ano e fortalecer o comércio local.
Campanhas promocionais ajudam, mas não resolvem sozinhas uma mudança estrutural. Com população estimada em pouco mais de 24 mil habitantes, Ribas do Rio Pardo precisa transformar a força de sua principal indústria em oportunidades permanentes para outros setores. IBGE
A fábrica mudou a dimensão econômica do município. O desafio agora é impedir que a riqueza passe pela cidade sem permanecer nela. Depois de crescer com a obra, Ribas precisa aprender a prosperar com a fábrica em funcionamento

