MP notifica gigantes da celulose sobre impactos dos eucaliptos no Leste de MS
Inquérito reúne laudos e pesquisas sobre mudanças nas microbacias e pede explicações das empresas sobre danos
Depois de quase um quarto de século de expansão da indústria da celulose sob forte apoio político e institucional, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul passou a cobrar explicações diretamente das empresas sobre os impactos ambientais do modelo que transformou o leste do Estado no maior polo brasileiro de florestas plantadas. No último dia 10, em ofício encaminhado às sedes, em São Paulo, o promotor Antônio Carlos Garcia de Oliveira, de Três Lagoas, notificou Suzano e Eldorado Brasil, concedendo prazo de 15 dias para que apresentem esclarecimentos sobre “possíveis danos ambientais associados à expansão dos eucaliptais”.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul notificou as empresas Suzano e Eldorado Brasil para que apresentem, em 15 dias, esclarecimentos sobre possíveis danos ambientais causados pela expansão dos eucaliptais no estado, onde a área plantada saltou de 35 mil hectares em 1985 para quase 1,7 milhão em 2025. Pesquisas apontam que o monocultivo em larga escala, combinado ao desmatamento do Cerrado, contribui para a escassez hídrica na região.
Outras duas gigantes do setor instaladas no Vale da Celulose, a Arauco e Bracell, podem ser chamadas a se manifestar no decorrer do inquérito civil.
- Leia Também
- Eucalipto ocupa trechos de até 20 km sem corredores para fauna em MS
- Plantações de eucalipto serão investigadas após impacto em 400 nascentes
As notificações representam uma inflexão na relação entre o poder público e um setor que, desde a virada do milênio, passou a ser tratado como prioridade estratégica para o desenvolvimento econômico de Mato Grosso do Sul. As articulações para atrair as primeiras grandes indústrias de celulose começaram ainda no governo Zeca do PT e ganharam impulso em Três Lagoas durante a gestão da então prefeita Simone Tebet.
Quase 25 anos depois, é justamente um pedido formulado pelo próprio Zeca, baseado num laudo produzido pelo gestor ambiental e secretário de meio Ambiente de Selvíria, Valticinez Santiago, que deu origem ao inquérito que coloca sob investigação oficial os efeitos ambientais dessa expansão. O gestor citou cerca de 400 nascentes supostamente secas pelos eucaliptais, mas o MP fez uma investigação prévia e concluiu que são necessários mais dados científicos para relacionar danos à expansão da silvicultura ou em áreas antropizadas que já estavam em processo de degradação pela pecuária.

Em nota, a Suzano informou que não recebeu notificação do MPMS referente ao inquérito. A empresa afirmou manter compromisso com a conservação ambiental, disse que realiza o plantio apenas em áreas anteriormente ocupadas por atividades agropecuárias e destacou possuir política de desmatamento zero, certificações internacionais de manejo florestal e 327 mil hectares destinados à conservação da biodiversidade em Mato Grosso do Sul. A Eldorado não se manifestar sobre a investigação, mas informou que atua “em estrita conformidade com a legislação brasileira e conduz suas operações com base nos mais elevados padrões de governança, ética e transparência”.
Pesquisas
A investigação do MPMS se apoia em levantamento próprio e em um conjunto de estudos e levantamentos técnicos que começaram a revelar uma face pouco discutida da expansão dos eucaliptais: seus possíveis impactos sobre os recursos hídricos, a biodiversidade e a dinâmica das microbacias do Cerrado. Um dos principais é desenvolvido desde 2019 pela geógrafa francesa Marine Dubos-Raoul, professora convidada da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).
Parte desse trabalho foi publicada em 2022, durante seu pós-doutorado, no artigo A chegada do eucalipto no município de Três Lagoas (MS) na percepção dos moradores das comunidades rurais de Arapuá e Garcias: entre a sujeição e a resistência territorial, que documentou, por meio de entrevistas, imagens de satélite e análise do uso da terra, as transformações provocadas pela expansão da cadeia da celulose sobre comunidades rurais do leste sul-mato-grossense.
A pesquisa amplia o monitoramento ao combinar imagens históricas do MapBiomas desde 1985, análise de microbacias hidrográficas, séries pluviométricas, trabalho de campo e entrevistas realizadas desde 2019 com moradores, agricultores, apicultores e comunidades rurais, aprofundando a investigação sobre os impactos ambientais e sociais da silvicultura.

O cruzamento dessas diferentes fontes levou a evidências que aponta para um processo cumulativo de degradação ambiental, acelerado nos últimos quinze anos pela expansão do monocultivo de eucalipto sobre uma paisagem já profundamente alterada pela pecuária e que, não recuperadas, serviu a um modelo econômico desenvolvimentista. "Precisamos pensar em um modelo que consiga fazer o básico: preservar os recursos naturais e alimentar sua população.", disse ela em entrevista ao Campo Grande News.
O redesenho do território
O retrato dessa transformação aparece de forma eloquente na série histórica reunida pelo parecer técnico que embasa o inquérito civil do Ministério Público de Mato Grosso do Sul. Em quatro décadas, a ocupação do território passou por profunda transformação. A área plantada com eucalipto passou de 35.358 hectares em 1985 para 189.749 hectares em 2007, alcançando 893.320 hectares em 2024.
Levantamento atualizado em 2025, elaborado com processamento de imagens do Google Earth Engine e dados do Imasul (Instituto de Meio Ambiente de MS), estima que o Estado já possua 1.729.763 hectares de florestas plantadas, confirmando que a expansão da silvicultura continua em ritmo acelerado. No sentido inverso, a vegetação nativa despencou de 4.107.983 hectares para 1.562.499 hectares, uma perda superior a 2,5 milhões de hectares desde 1985.
A mesma série histórica ajuda a compreender como essa mudança ocorreu. Nas duas primeiras décadas, o Cerrado foi progressivamente substituído por pastagens. A área destinada à pecuária cresceu de 4.107.983 hectares em 1985 para 6.903.885 hectares em 2007. A partir daí, iniciou-se um movimento inverso: as pastagens recuaram para 4.961.905 hectares em 2024, cedendo cerca de 1,94 milhão de hectares ao avanço dos eucaliptais. Apenas o período entre 2007 e 2025, a área plantada com eucalipto saltou de 189.749 hectares para 1.729.763 hectares, um crescimento superior a 810% em apenas 18 anos.
Escassez hídrica
Essa sequência histórica reforça as conclusões da pesquisa de Marine, iniciada no pós-doutorado e ampliada nos últimos anos com o monitoramento das microbacias e das comunidades rurais. "O problema não é o eucalipto sozinho. O problema é esse cultivo em grande escala e os seus impactos. É um conjunto de fatores: um Cerrado praticamente eliminado, um clima naturalmente mais seco (agravado pelos extremos climáticos) e uma cultura extremamente exigente em água”, afirma. "Esse conjunto vem conduzindo à escassez hídrica."
A geógrafa evita atribuir o secamento de nascentes exclusivamente ao eucalipto. O que ela demonstra é uma sucessão de transformações na paisagem: primeiro, o desmatamento em larga escala do Cerrado para a formação de pastagens; depois, a substituição gradual dessas áreas por extensas plantações de eucalipto. Em uma região situada no limite climático do bioma, essa combinação reduziu a capacidade natural de infiltração da água e de recarga dos aquíferos, alterando o funcionamento das microbacias.
A série histórica de chuvas analisada indica que o volume anual de precipitação permaneceu relativamente estável nas últimas décadas, insuficiente, portanto, para explicar sozinho o impacto em córregos, açudes e nascentes com vazão reduzida observado em campo. Alguns simplesmente secaram. "É difícil afirmar que o eucalipto seca as nascentes. O que consigo afirmar é que essa ocupação do solo vem contribuindo para a escassez hídrica."


