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Campo Grande, Domingo, 17 de Dezembro de 2017

20/11/2017 17:05

Número de desempregados negros é 83% maior que o de brancos em MS

Além disso, salários pagos aos negros é 25% inferior ao dos brancos

Osvaldo Júnior
Carmelindo Nunes começou a trabalhar com nove anos e, hoje, recebe pouco mais de um salário mínimo como aposentado (Foto: Marcos Ermínio)Carmelindo Nunes começou a trabalhar com nove anos e, hoje, recebe pouco mais de um salário mínimo como aposentado (Foto: Marcos Ermínio)

Aos nove anos, Carmelindo Nunes fazia o que conseguia para ajudar no pagamento das contas de casa: vendia picolé, salgadinho ou engraxava sapatos. Estudou pouco, porque precisou trabalhar muito. Hoje, com 66 anos, recebe benefício com valor muito abaixo de tudo que fez em uma vida inteira de trabalho. 

Os problemas como aposentado são gerais, mas há, no caso de Carmelino, um agravante, que funcionou, entre outros empecilhos, como barreira para eventual crescimento no mundo do trabalho: a cor de sua pele. Ele passou boa parte da vida em atividades informais e, com carteira assinada, atuou em área que está entre as que pagam baixos salários. 

Carmelindo personaliza números do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) que mostram que continua gritante a desigualdade entre trabalhadores brancos e negros. Conforme a última PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), divulgada recentemente pelo Instituto, em Mato Grosso do Sul, os negros representam 63% dos desempregados e têm rendimento médio 25% inferior ao dos brancos. 

De acordo com a pesquisa, referente ao terceiro trimestre deste ano, o rendimento médio habitual dos negros do Estado é de R$ 1.874 e o dos brancos, de R$ 2.508. Em um ano de trabalho (sem considerar o 13º salário), o branco recebe, em média, R$ 30.096 e o negro, R$ 22.488. Para ganhar o mesmo valor do branco, o negro teria de trabalhar quatro meses a mais por ano.

Além de receber menos, os negros também são maioria entre os desempregados. Da população sul-mato-grossense com idade superior a 14 anos e que está dentro da força de trabalho (exercendo alguma atividade remunerada ou desocupado), 68 mil são negros e 37 mil, brancos. Esses números equivalem, respectivamente, a 63% e a 34% do total de 108 mil desempregados no Estado. A quantidade de negros sem emprego é 83% maior que a de brancos.  

Número de desempregados negros é 83% maior que o de brancos em MS

A dificuldade de crescer no mercado com essas características fez com que o aposentado Carmelindo passasse 25 anos como vigilante, algo distante de seus sonhos de crianças. "Quando era guri, eu sonhava em ter conforto, uma vida boa, como alguns coleguinhas tinham. Mas não pude estudar muito, tive que ajudar minha mãe... Então, não deu", rememora. Ele conta que estudou até a antiga 4ª série do primeiro grau.

Depois de trabalhar como engraxate, picolezeiro, vendedor de salgados, Carmelindo se tornou servente de pedreiro. Conseguiu, depois, assinar a carteira como vigilante. "Minha profissão mesmo é a de pedreiro, mas acabei trabalhando mais como servente", lamenta-se.

Ele avalia que o retorno dado pelo governo está abaixo do que merecia receber. "Eu contribui 37 anos, oito meses e 20 dias e ganho um pouquinho mais que um salário mínimo!", reclama o aposentado.

Nivaldo não consegue voltar ao mercado formal e está, desde 2009, trabalhando como autônomo (Foto: Marcos Ermínio)Nivaldo não consegue voltar ao mercado formal e está, desde 2009, trabalhando como autônomo (Foto: Marcos Ermínio)

Os problemas de renda também atingem quem está na ativa. O pintor de residência Nivaldo Borges, 39 anos, afirma que termina sempre o mês no vermelho. "Tá difícil", admitiu Nivaldo, que está na área há 21 anos, mas sem emprego formal desde 2009.

"Trabalho por conta, recebendo diária ou pegando por empreita", detalhou, já aproveitando para fazer propaganda do seu serviço. "Tenho muita experiência e faço todo tipo de pintura", disse e pediu à reportagem: "Não quer colocar o telefone?". O contato de Nivaldo é 99287-5867.

A dificuldade de retornar, formalmente, ao mercado de trabalho se relaciona, entre outros fatores, à cor da pele. "Infelizmente, ainda existe racismo no Brasil. Vai um branco e um negro disputar uma vaga. Muitas vezes, o patrão prefere o branco, só porque é branco", comentou.



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