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Economia

Tréguas nas unidades de Três Lagoas e Ribas pressionam custos da Suzano

Desaceleração na produção de celulose é natural e reflete movimento de “boom e estabilidade do setor"

Por Viviane Monteiro, de Brasília | 14/08/2026 08:22
Tréguas nas unidades de Três Lagoas e Ribas pressionam custos da Suzano
Unidade da Suzano em Mato Grosso do Sul (Foto: Divulgação)

As duas maiores unidades de produção de celulose da Suzano em Mato Grosso do Sul tiveram paradas de manutenção mais longas no segundo trimestre, pressionando os custos da companhia e afetando o ritmo de produção no Estado. O movimento ocorre em meio a um cenário internacional de maior oferta de celulose, puxado principalmente pela expansão da capacidade chinesa.

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As duas maiores unidades de produção de celulose da Suzano em Mato Grosso do Sul registraram paradas de manutenção mais longas no segundo trimestre de 2026, pressionando custos e a produção. O custo-caixa ficou em R$ 843 por tonelada. O cenário é agravado pela expansão da capacidade chinesa, que preocupa especialistas, embora executivos da Suzano afirmem que a demanda por papel no país segue crescendo em dois dígitos.

A companhia concentra em Mato Grosso do Sul capacidade de produção de cerca de 5,8 milhões de toneladas, o equivalente a 38,5% da capacidade nacional da empresa.

Em teleconferência nesta quinta-feira (13) com analistas de mercado sobre o balanço financeiro no segundo trimestre, divulgado na noite de quarta-feira (12), os executivos da Suzano relataram uma programação mais intensa de manutenção nas unidades de Mato Grosso do Sul. Segundo eles, a medida ampliou o “downtime” em Três Lagoas. Já em Ribas do Rio Pardo o tempo de trégua se estendeu além do previsto.

“Uma programação mais intensa de manutenção, ampliando o downtime em Três Lagoas, enquanto a parada em Ribas do Rio Pardo acabou se estendendo mais”, afirmaram os executivos, sem detalhar os motivos ou a duração das paradas.

Para especialistas que acompanham o mercado de celulose no Estado, a desaceleração pode estar relacionada ao ritmo de processamento de madeira em tora, uma das principais etapas da operação da Suzano no Vale da Celulose.

Professor de Economia da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), Daniel Frainer avalia que a desaceleração na produção de celulose é natural e reflete um movimento de “boom e estabilidade do setor”, semelhante ao que ocorreu nos segmentos de carne, soja e sucroenergético.

O especialista aponta a alta da produção da China como o principal desafio para o setor e avalia que o país asiático pode se tornar autossuficiente em celulose nos próximos cinco anos, aproximadamente.

Frainer considera, no entanto, que ainda é cedo para avaliar eventuais impactos dessa mudança sobre o Vale da Celulose, principalmente porque a China continua sendo o principal destino das exportações de Mato Grosso do Sul em 2026.

“Mas logo vão estabelecer cotas, provavelmente”, avalia.

Custos

Segundo a Suzano, o custo-caixa de produção de celulose, excluindo os efeitos das paradas, ficou em R$ 843 por tonelada no segundo trimestre, praticamente estável em relação ao mesmo período de 2025. A empresa mantém o objetivo de reduzir o custo para cerca de R$ 800 por tonelada nos próximos trimestres.

Parte da pressão sobre os custos foi atribuída ainda ao conflito no Oriente Médio, que tem contribuído para elevar os preços de produtos químicos e de energia. O custo da madeira também sofreu pressão, principalmente em razão do aumento das despesas com logística, manutenção, transporte e mão de obra.

Esses fatores negativos foram parcialmente compensados por outros efeitos, como o câmbio, o melhor desempenho das vendas e o aumento das exportações. A empresa também destacou o impacto do leilão de energia em Ribas do Rio Pardo, que entrou em vigor em janeiro de 2026 e ajudou a compensar parte das pressões sobre os custos.

Tréguas nas unidades de Três Lagoas e Ribas pressionam custos da Suzano

Cenário desafiador

A consultoria inglesa Hawkins Wright aponta que a disponibilidade doméstica de madeira na China pode ser maior do que o mercado estima, apoiada por uma base florestal de aproximadamente 5,5 milhões de hectares de eucalipto e 6,5 milhões de hectares de álamo (poplar), destaca um relatório da XP, divulgado nesta quarta-feira (12).

O documento reforça que a expansão da capacidade de produção da China continua pressionando o mercado de celulose. A avaliação contrasta, em parte, com a expectativa dos executivos da Suzano, que projetam uma melhora no segundo trimestre do mercado em razão de fatores sazonais.

Segundo o relatório da XP, embora algumas paradas operacionais tenham ajudado a equilibrar o mercado de fibra curta no primeiro semestre de 2026, a perspectiva se torna menos favorável no segundo semestre, à medida que terminam as paradas programadas para manutenção e novas capacidades integradas na China aumentam gradualmente sua produção.

O relatório da XP reforça, contudo, que a China continua sendo a principal preocupação estrutural do setor. Isso porque “após a desaceleração do mercado imobiliário, os investimentos têm se deslocado cada vez mais para a indústria de transformação, ajudando a sustentar o crescimento da capacidade de produção de celulose e papel, apesar da fraca demanda doméstica”.

Atualmente, a China responde por cerca de 30% da produção industrial global, enquanto representa aproximadamente 17% do PIB mundial. Ao mesmo tempo, a produção doméstica de celulose absorveu a maior parte do crescimento da demanda adicional por fibra no país nos últimos anos, destaca o relatório da XP. Esse movimento ajuda a explicar por que as importações de celulose "permaneceram praticamente estáveis", apesar do crescimento das exportações de papel.

Durante a teleconferência, analistas de mercado questionaram os executivos da Suzano sobre as perspectivas para o setor diante de um possível excesso de capacidade na China, onde, segundo a avaliação apresentada pelos analistas, o consumo estaria fraco em relação à oferta.

Os executivos da Suzano, porém, discordaram da avaliação de que o consumo de papel esteja fraco na China. Segundo eles, em grande parte do segmento, como embalagens, o crescimento da demanda está "na casa de dois dígitos".

A Suzano também destacou a importância da madeira local para o mercado chinês. Segundo a companhia, atualmente cerca de 58% a 60% da madeira utilizada na China é de origem local, enquanto aproximadamente 40% a 42% é importada.

“O crescimento da demanda na China, na nossa opinião, continua forte. Não vemos uma contração da demanda.”