Pesquisadora da UFMS estuda células-tronco do leite para tratar bebês
Pesquisa pioneira testa estruturas regenerativas em crianças, mas está em fase inicial

Pesquisadoras do Humap (Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian), da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), estudam como células-tronco presentes no leite humano, no cordão umbilical e na gordura abdominal podem auxiliar na saúde regenerativa de pacientes em estado grave na unidade.
RESUMO
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A bióloga e pesquisadora Thais de Andrade é a responsável pela iniciativa, realizada no Centro de Processamento Celular do hospital. O grupo já testou o uso de células-tronco retiradas da gordura abdominal em dois bebês internados na unidade, com resultado positivo. No entanto, a pesquisadora alerta que os dados ainda não são suficientes, cientificamente, para atestar a eficácia do tratamento. Por isso, novos estudos estão sendo realizados com o método.
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O "biobanco" de células-tronco tem cinco anos de funcionamento e foi criado com recursos do governo federal. Segundo a pesquisadora, existem dois tipos de célula-tronco: uma que forma as células do sangue e outra responsável pela regeneração dos tecidos, que é a trabalhada no laboratório.
Entusiasta da amamentação, Thais conta que, quando começou a trabalhar com células-tronco, também passou a estudar as células presentes no leite. A partir disso, resolveu fazer sua tese de doutorado sobre leite materno e células-tronco.
“Aí eu vi que as células do leite em geral, elas passam pelo estômago do bebê, não são digeridas, não são mortas e elas fazem parte do corpo do bebê. Então assim como as células quando tá na barriga, que as células da mãe passam pro bebê, as células do leite também passam. E essas células podem ajudar a melhorar a saúde, tanto que que bebês que mamam mais tempo tem uma inteligência maior. Então tem vários estudos sobre os benefícios do leite materno”, relata.

A proposta da bióloga é desenvolver um composto do leite com as células-tronco, que será dado a bebês em UTI (Unidade de Terapia Intensiva) neonatal. A ideia é tratar esses pacientes, já que eles não conseguem fazer terapia endovenosa por terem veias extremamente sensíveis.
“Já que a célula resiste ao trato intestinal, então meu objetivo é pegar essa célula do leite, concentrar e aumentar a quantidade, porque apesar do leite ter célula tronco, é uma quantidade pequena. Aumentar essa quantidade e colocar no leite que eles já vão tomar pra poder enriquecer e tratar esses bebês lá da UTI”, explicou a bióloga.
O estudo está em fase de padronização das células. Nessa etapa, a bióloga coleta alguns mililitros de leite de mães doadoras para a pesquisa. Depois de vários processos, são retiradas as células-tronco do leite, que passam a ser cultivadas. A pesquisa ainda não chegou à fase de aplicação dessas células em pacientes.
A técnica de enfermagem Lucimeire Rodríguez, de 42 anos, é mãe de Helena, de 2 meses, e participou da pesquisa doando leite. A filha está internada desde o dia 16 de março no hospital, devido a uma condição de saúde que os médicos ainda não identificaram totalmente. A bebê já passou por uma cirurgia no maxilar para conseguir abrir a boca, mas, até o momento, é alimentada apenas por sonda e precisa de aparelho respirador.
Lucimeire também reconhece a importância do leite materno. Segundo ela, mesmo internada há dois meses e próxima de crianças com quadros virais, a filha nunca ficou doente. A doadora visitou o Centro de Processamento Celular para ver as células-tronco do leite doado e, quando a filha tiver alta, pretende continuar fazendo doações, desta vez para alimentar bebês internados na unidade.
“No mês passado eu tirei 24 litros e no mês de março, que foi do dia 16 ao dia 30, eu tirei 9 litros. E eu tiro de manhã à tarde à noite, e elas (enfermeiras) não sabem de onde vem tanto leite. Eu falo que é Deus, porque é só Deus”, comenta.

Thais relata que há uma diferença muito grande entre as mulheres e que a quantidade de células-tronco depende da pessoa, da saúde, da alimentação, entre outros fatores que ainda estão sendo pesquisados. A bióloga também estuda por que não consegue aumentar a quantidade de células-tronco do leite materno da mesma forma que consegue ampliar células de outras fontes, como cordão umbilical e gordura abdominal.
Os bebês que participaram da pesquisa e receberam tratamento com células-tronco foram tratados por causa de feridas. Entretanto, Thais frisa que não existe tratamento com células-tronco autorizado no país. Tudo que é feito ocorre dentro de pesquisa e precisa de aprovação do Comitê de Ética.
A recuperação das crianças que participaram da pesquisa foi excelente, destaca a bióloga. Porém, por se tratar de um número pequeno de pacientes, ainda é cedo para afirmar que a eficácia do tratamento se deve 100% ao uso das células.
“Mas o que a gente observou é que a cicatrização delas foi maior, mais rápido do que a gente tem relatado na literatura para esse tipo de lesão. A lesão fechou em 70 dias, depois do inicio de aplicação da célula, e ela estava correndo risco de amputação do braço. A outra criança era amputada, e também estava com lesões muito extensas e com possibilidade de ficar muito tempo internada, então a gente teve também uma diminuição do tempo de cicatrização, mas ainda é experimental”, informou a pesquisadora.
A responsável pelo estudo comenta ainda que esse tipo de pesquisa também é realizado por estudiosos de todo o mundo. Segundo ela, os trabalhos já feitos pela equipe da UFMS apontam baixos efeitos adversos e, quando eles ocorrem, são leves, como dor no local da aplicação e pouco inchaço.
“A gente já teve já tratamento de doença de Crohn, de bexiga, de artrite. Então a gente tem alguns trabalhos que são feitos em adultos, em criança o meu é o primeiro, e que tem bons resultados. A gente está nesse caminho de encontrar e de aumentar a quantidade de pessoas analisadas”, pontua.
Mães interessadas em participar da pesquisa podem procurar o Banco de Leite Humano do Hospital Universitário para doar leite ao Centro de Processamento Celular. A pesquisadora também informa que grávidas que quiserem doar o cordão umbilical para a pesquisa podem fazer o procedimento no hospital, caso o parto seja realizado na unidade.
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