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Campo Grande, Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018

21/09/2008 10:42

Yamandu Costa e Dominguinhos em show instrumental único

Redação

O medo de voar fez com que Dominguinhos viesse de São Paulo a Campo Grande de carro para sua apresentação ao lado de Yamandu, no Centro de Convenções Arquiteto Rubens Gil de Camilo.

Há dezenove anos, Dominguinhos, que já fugiu de fila de check-in, usa as estradas para chegar aos shows que faz pelo Brasil e a alguns países vizinhos, como a Argentina.

Talvez esse seja o maior impedimento para que o show "Yamandu+Dominguinhos" ganhe os palcos dos festivais internacionais de música instrumental. Mas nem de longe é o único.

Apesar do CD que deu origem ao show já ter recebido prêmios e a turnê ter sido elogiada como um encontro feliz de dois grandes talentos da música brasileira, o trabalho se encontra no difícil segmento da música instrumental de ponta no País, que por atingir um público restrito, não desperta o interesse das grandes gravadoras. 

"Embora tenha se tornado mais fácil gravar e a tecnologia tenha democratizado o processo de produção, isso também produziu uma enorme quantidade de material e as grandes gravadoras já não fazem mais esse trabalho de pinçar uma ou outra coisa pela qualidade e criar uma estratégia de distribuição. Isso limita muito o alcance de trabalhos que talvez pudessem gerar mais repercussão", diz Yamandu.

Para Dominguinhos a "aposta em qualidade" feita por algumas gravadoras menores, que têm se especializado em produzir conteúdos mais refinados para nichos de mercado, tem seus efeitos colaterais. "O preço é inviável para a maior parte das pessoas. Um CD como o nosso por trinta reais ou mais é muito caro, pouca gente tem dinheiro. E junto disso toda essa questão da pirataria, da reprodução pela internet, que deixa a situação cada vez mais difícil", diz.

Coisinhas brasileiras - Em homenagem ao dia do gaúcho, que levou até bandeira do Grêmio ao teatro, Yamandu tocou a primeira música da noite, Negrinho do Pastoreio, que revelou na turnê do show os recursos de voz que até então violonista ocultara.

De saída é possível perceber que, ao lado de Dominguinhos, Yamandu colocou o virtuosismo sob a batuta de uma elegante economia de recursos, coisa de quem já sabe o que pode.

A composição de Barbosa Lessa, fundador do 'Movimento Tradicionalista Gaúcho', é apresentada como uma "canção de ninar" por Yamandu, que deu início à viagem pela cultura do País e pelos inúmeros caminhos que música trilhou até aqui.

Os avanços da música erudita de Stravinsky e Schoenberg, a influência do jazz, a Bossa Nova, se mesclam com baião, choro, valsa, bolero, xaxado, chamamé, em um show que ora lembra um arrasta-pé, pela energia, ora recital ou festival de jazz, e também uma serenata, ou o encontro de dois amigos se divertem fazendo música.

O repertório foi surgindo da memória, "a gente foi tocando assim desse jeito que vocês viram agora", havia dito Yamandu após a passagem de som, onde ele e Dominguinhos usavam o pouco tempo que têm juntos para ensaiar trechos complexos de uma valsa do acordeonista, "Noites Sergipanas", que os dois querem tocar nos próximos shows.

"Fomos reunindo essas canções que achávamos bonitas, tocando as coisas que vamos lembrando sempre que nos encontramos, uma aqui, outra ali, essas coisinhas brasileiras", diz Dominguinhos.  

Passeio pela música - Ao lado de nomes como Chico Buarque, Luiz Gonzaga, Tom Jobim, Sivuca, o repertório tem composições de gente como Jayme Tomás Florence, o Meira, que tocou junto com o lendário Canhoto, Custódio Mesquita, homem do rádio dos anos trinta, parceiro de Mário Lago, Abel Ferreira, herdeiro de Pixinguinha, que criou o que ficou conhecido como "escola brasileira de sopro" e Pedro Raimundo, o "gaúcho alegre do rádio", que se vestia com trajes regionais e influenciou Luiz Gonzaga a fazer o mesmo.

Tem também Waldir Azevedo, que vendia passarinhos para comprar sua primeira flauta, abandonou o sonho de ser aviador por problemas no coração, e compôs "Pedacinho do Céu", após tornar-se funcionário da "Light".

O show manteve a atenção do público mesmo durante as improvisações mais prolongadas, o que nem sempre acontece em apresentações instrumentais para os não aficcionados.

Mesmo assim, a dupla intercalou os trechos que exigiam mais dos ouvidos com momentos de descontração, nos quais Dominguinhos fazia humor tocando em temas espinhosos, como a apatia dos políticos em relação à música e a cultura.

Em "De Volta pro Aconchego", um de seus maiores sucessos, e única música que Dominguinhos cantou no show, o público fez um coral à meia voz, conduzido com gentileza pelo discípulo de Luiz Gonzaga, que parece estar exercendo uma influência apaziguadora e benéfica sobre o gênio de Yamandu.

Na última música da noite, o segundo bis, o violonista voltou abraçado a Dominguinhos para tocar uma versão de "Mercedita".

A música, que provavelmente foi ensaiada no camarim, no único tempo em que os músicos tiveram juntos fora do show e da passagem do som, mostrou a capacidade dos dois de sintetizar as influências que constróem a música brasileira, e de fazer isso como se fosse pouca coisa.

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