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Campo Grande, Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2018

02/03/2017 08:17

Casinha que ninguém quer é resistência de Denir na avenida mais rica da cidade

Thailla Torres
Moradora há 12 anos na avenida Afonso Pena, (Foto: André Bittar)Moradora há 12 anos na avenida Afonso Pena, (Foto: André Bittar)

Quando Denir colocou os pés pela primeira vez na casa onde mora, sabia que o lugar daria novo sentido à vida. Ela diz ser a única pessoa disposta a viver no prédio que por mais de 60 anos está em pé na Avenida Afonso Pena. Denir aceitou morar sob um teto cheio de defeitos e paredes marcadas pelos cupins.

Do lado de fora, é nítida a necessidade do restauro. Se não fosse pela cor verde ainda aparente, tem gente que passa por ali e nem percebe a existência da casa. Sorridente e surpresa com a visita, Denir Mônaco Santos, de 48 anos, não se intimida em abrir o portão para um conversa.

O que chama atenção, logo de cara, é a quantidade de santos e imagens de Nossa Senhora espalhadas pelo espaço pequeno da varanda, que com o tempo deu lugar a um mini salão. 

Denir deixa clara a devoção e a felicidade em frequentar todos os dias a Paróquia Perpétuo Socorro, que fica bem ali ao lado. A presença das imagens tem sentido nas conquistas, inclusive, pela chegada na casa velha. 

 

Denir mostra parte das imagens que ela encontrou na Igreja. (Foto: André Bittar)Denir mostra parte das imagens que ela encontrou na Igreja. (Foto: André Bittar)

Foi há 12 anos que Denir chegou ali. Antes disso, morava na Rua Paissandu, ali mesmo no bairro Amambaí, com o ex marido. No processo de separação, precisou sair da casa. "Eu estava sem emprego, não tinha condições de alugar um casa pagando aluguéis antecipados e nem um fiador, " recorda. 

Ela diz que um dia, em uma conversa com Deus, foi atendida. "Eu lembro que eu estava assim, pensando em como mudaria. Estava ainda na porta da casa que eu precisava deixar, quando uma mulher passou com a filha grávida. Pediu água e falou sobre essa casa. Eu falo que naquele momento foi Deus, porque ela apareceu de repente", garante. 

Denir jura que a mulher comentou que não queria morar na casa que já era muito antiga. "Olha, parece até história qualquer, mas é verdade, ela deu a chave na minha mão e disse que eu poderia morar". 

Vivendo na casa com quatro filhos e um neto, em 2010 diz ter sentido que algo mudaria a vida dela para sempre. "Eu sonhei com a morte do meu filho", conta. 

(Foto: André Bittar)(Foto: André Bittar)

No dia 1 de julho de 2010, a tragédia se confirmou.  "Eu estava em casa quando senti uma dor muito forte no peito. Meu filho Cássio Mônaco Vilanova tinha ido para Ponta Porã. Estava de carro e bateu de frente com um carreta na estrada. Ele tinha 23 anos e quando eu vi a notícia, parece que meu coração já sabia que aquilo ia acontecer, só não estava preparado". 

Apesar da fé, Denir descreve que o coração de mãe foi aos pedaços e, depois do enterro, a casa virou cenário para pesadelos. "Eu me pegava lembrando dele, pensando em momento ele iria passar por esse portão. Mas ele nunca chegava. Comecei a sonhar o tempo todo, viver aqui passou a ser um sofrimento. Eu resolvi mudar por um tempo". 

Denir foi para Ponta Porã viver com a filha, depois de um ano de luto, ela diz que novamente foi Deus que colocou a casa em seu caminho. "O proprietário que sempre alugou a residência me ligou, disse que sabia que eu tinha voltado para Campo Grande e ofereceu a casa para alugar. Eu estava me sentindo bem e muito próxima de Deus. Pensei que era o momento certo para voltar", conta. 

Desde então, Denir passou a viver na residência. A casa acabou sofrendo ação de vândalos e assaltantes. Janelas quebradas e objetos foram levados. Há poucos dias a residência foi assaltada às 9h30 da manhã. Mesmo assim, nada tira da cabeça que o lugar é abençoado para a moradora. "Eu acho que se Deus colocou essa casa no meu caminho e é porque eu tenho que ficar aqui. Depois que mudei, recebi ajuda de muitas pessoas e ajudei tantas também". 

Ela que fez curso de cabeleireira, não abre a casa para atendimentos, mas sempre que pode, ajuda quem precisa. "Atendo amigos e às vezes não cobro por isso, não é o que eu quero. Acho que a fé da gente fala sempre mais alto", acredita. 

Com religiosidade inabalável, ela lamenta as dores que a impedem de ajoelhar durante as orações. Mesmo assim, para se entregar a Deus, ela faz questão de deitar todos os dias no chão da igreja. "Deito de bruços e as vezes as pessoas acham estranho. A verdade é que eu acredito que tenho que me entregar naquele momento de alguma forma. Até o meu netinho, quando vai comigo, age da mesma forma", sorri.

Sem planos para mudar de casa, ela teme que um dia novos projetos ameassem a arquitetura do lugar. "Não sei quais os planos do dono, se vai demolir ou deixar aqui. Se eu pudesse e tivesse dinheiro, iria dar uma boa restaurada. Essa casa tem história", lamenta. 

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Os fundos da casa. (Foto: André Bittar)Os fundos da casa. (Foto: André Bittar)
Fachada com aparência velha, chama atenção pelo tempo e os santos no salão. (Foto: André Bittar)Fachada com aparência velha, chama atenção pelo tempo e os santos no salão. (Foto: André Bittar)


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