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Campo Grande, Domingo, 17 de Dezembro de 2017

21/06/2017 07:45

Construída em 1997, casa colorida é harmonia projetada por Jurandir Nogueira

Em 2001 ele morreu, mas a casa continua firme, chamando atenção pela imponência e o colorido

Thailla Torres
Residência projetada pelo arquiteto Jurandir Nogueira que faleceu em 2001.Residência projetada pelo arquiteto Jurandir Nogueira que faleceu em 2001.

Na Rua da Paz, a casa inteira é uma mescla de estilos, com uma decoração que passeia entre o tradicional e o moderno. O lugar foi concebido pelo arquiteto Jurandir Santana Nogueira, há mais de 20 anos, para ser o endereço da família.

Em 2001 ele morreu, mas a casa continua firme, chamando atenção pela imponência e o colorido, a mostra de quanto Jurandir Nogueira estava disposto a inovar. É mais um detalhe no trabalho de personalidade, fincado na cidade desde que ele chegou em Campo Grande.

No lugar, quem nos recebe com toda simpatia é a esposa, Aparecida Bueno Nogueira, de 70 anos. Ela não poupa elogios na recordação do talento artístico do marido que partiu depois de lutar 5 anos contra um câncer. "Foi uma pessoa muito amável e humana. Amava obras de arte e cada canto dessa casa é um pedacinho dele", descreve.

Luz natural foi um dos quesitos pensados na casa. (Foto: André Bittar)Luz natural foi um dos quesitos pensados na casa. (Foto: André Bittar)
Projetos de Jurandir ainda estão na sala de casa. (Foto: André Bittar)Projetos de Jurandir ainda estão na sala de casa. (Foto: André Bittar)
Colorido deixou a casa moderna e descolada desde 1997. (Foto: André Bittar)Colorido deixou a casa moderna e descolada desde 1997. (Foto: André Bittar)

Jurandir nasceu em Coxim em 1940 e formou-se no Paraná. Foi um dos primeiros a montar escritório de arquitetura em Campo Grande. Presidiu o CREA-MS, a Associação de Engenheiros e Arquitetos, foi secretário municipal de Transportes e Trânsito e, professor do curso de Engenharia da UFMS, desde a sua criação, em 1971.

É autor dos projetos do Hospital São Julião, Assembléia Legislativa e do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, além de desenhar várias residências pela cidade, muitas delas, no bairro Jardim dos Estados.

Na casa da Rua da Paz, esquina com a Espírito Santo, Jurandir viveu desde 1972, quando casou com Aparecida. Os dois se conheceram quando ela fazia faculdade de Letras e participava de uma obra social no Bairro Santa Fé. Foi o arquiteto também que projetou a obra original da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, na Avenida Mato Grosso.

"Ele fez o projeto e a igreja foi construída com base em doações. Ele dizia que o projeto lembrava uma nave, por isso ela tinha um formato diferente. Mas depois de alguns anos os Salesianos resolveram reformar a igreja e não o chamaram, então ela acabou recebendo outros detalhes", descreve.

Na casa onde vive com o neto, Aparecida lembra de detalhes que levaram ao projeto da família. "Tinha outra residência aqui feita de tijolinhos à vista e na época ele queria um projeto mais consciente. Explicava que uma casa comum levava muita madeira e concreto. Por isso, escolhemos algo rápido e econômico", explica.

O imóvel tem cerca de 400m² erguido com estrutura metálica. "Em 15 dias uma empresa ergueu a estrutura. Depois foi feita alvenaria nos intervalos de cada viga. Por isso, a casa lembra bastante um galpão".

Aparecida lembra com amor toda arte do marido. (Foto: André Bittar)Aparecida lembra com amor toda arte do marido. (Foto: André Bittar)

A entrada de luz natural foi um dos primeiros aspectos estudados pelo arquiteto. Tem relação com economia e, claro, conforto. Pela transparência dos vidros, abriu mão da maior parte de alvenaria, que exigia mais de obra e excesso de materiais.

Cheio de originalidade, depois de encarar o desafio de erguer a estrutura metálica, Jurandir tomou partido da decoração, exceto das cores que foram decididas pela esposa. “Ele estava em dúvida entre o verde e o azul. Eu escolhi as duas cores, ele acatou e viu que é uma combinação perfeita”, lembra.

No interior, os tons se destacam ainda mais. Sem paredes que dividem os cômodos, os ambientes são delimitados pela disposição dos móveis. 

Os quadros coloridos espalhados pela casa são, na maioria, obras que o arquiteto pintava. No primeiro pavimento, a cortina que divide uma das salas foi feita com arames. Os canudos pintados a mão que preservam os projetos de Jurandir ainda estão todos na sala, assim como os livros, fotografias, obras de arte e presentes de amigos.

Escada também é diferente. (Foto: André Bittar)Escada também é diferente. (Foto: André Bittar)
Porta-retratos e documentos também decoram ambientes. (Foto: André Bittar)Porta-retratos e documentos também decoram ambientes. (Foto: André Bittar)
Cortina de arame também foi invenção dele. (Foto: André Bittar)Cortina de arame também foi invenção dele. (Foto: André Bittar)

"Tenho uma dificuldade muito grande de mexer com a decoração, porque é tudo muito pessoal e ele escolheu cada detalhe com carinho. Admiro as invenções e tem muita coisa que ele ganhou", descreve.

A escada é outro detalhe que Jurandir quis fazer diferente. Não tem pilar sustentando e o único reforço são duas chapas no interior de cada degrau, tanto que, se pisar forte, a escada balança, mas não há perigo de queda, garante Aparecida. "Essa é a alma da estrutura da escada. Tanto que muitas pessoas chegavam aqui perguntando se ninguém nunca caiu, porque ela toda aberta dos dois lados, mas graças a Deus nunca aconteceu nada", sorri. 

Desde que foi construída, a casa nunca recebeu uma repaginada em grandes proporções, o que também parece não ser necessário, já que o design todo é atemporal.

No interior, só o piso do primeiro andar foi substituído. "Era um piso de madeira, não me recordo exatamente o nome, mas como eu passava muitas horas fora de casa, era difícil conter a umidade quando outras pessoas limpavam o chão. Então acabei precisando trocar”, justifica.

Do lado de fora, recentemente as vigas metálicas receberam uma nova camada de tinta. E agora Aparecida pretende dar mais vida a pintura de dentro. "Quero reforçar as cores, mas não vou mudar nada, apenas organizar".

Um dos cantinhos especiais da casa. (Foto: André Bittar)Um dos cantinhos especiais da casa. (Foto: André Bittar)
Vigas de metal receberam hastes para manter a estrutura. (Foto: André Bittar) Vigas de metal receberam hastes para manter a estrutura. (Foto: André Bittar)
Estrutura para rede foi projetada por Jurandir há anos. (Foto: André Bittar) Estrutura para rede foi projetada por Jurandir há anos. (Foto: André Bittar)
Vista  da area de lazer. (Foto: André Bittar)Vista da area de lazer. (Foto: André Bittar)

Na área de lazer, os móveis e o redário também foram obras de Jurandir. "Ele ganhava algumas coisas e ia criando. Esse redário foi ele que fez quando construiu a casa, até pretendia patentear, mas acabou falecendo e a gente não mexeu mais com isso", diz.

O arquiteto lutou contra o câncer, mas faleceu há 16 anos. Um dos maiores sonhos, ele não realizou. "Ele não conheceu os netos, infelizmente, porque faleceu em março de 2001 e, a primeira neta nasceu em 2002. Mas lembro bem que ele recomendou aos filhos todo amor do mundo. Disse que sentia muito de estar falecendo naquele momento porque queria conhecê-los", recorda.

Em Aparecida, além da saudade, Jurandir marcou com a lição de vida. "Ele me deixou uma lição muito grande sobre aceitação das coisas. Quando ele adoeceu, nunca reclamou ou se quer deu trabalho. Posso afirmar que ele levou a vida até o último minuto com um sorriso no rosto, mesmo quando não tinha mais forças para trabalhar". 

Além da família, a residência recebe muitos alunos do curso de Arquitetura da UFMS e Aparecida diz que a casa está sempre de portas abertas para o que ficou de Jurandir depois que ele partiu. "Tenho muito orgulho, porque ele atuou fortemente nos projetos e no desenvolvimento da profissão. E isso é muito claro em todas as obras dele", declara.

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Jurandir e os filhos. (Foto: Arquivo Pessoal)Jurandir e os filhos. (Foto: Arquivo Pessoal)
Lateral da casa vista para Rua da Paz. (Foto: André Bittar)Lateral da casa vista para Rua da Paz. (Foto: André Bittar)
Construída em 1997, casa colorida é harmonia projetada por Jurandir Nogueira


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