“É um elogio ao diálogo”, diz Odilon Wagner antes de trazer Freud a Campo Grande
Espetáculo terá debate com o público após a estreia
Faltando um mês para a estreia de A Última Sessão de Freud em Campo Grande, o ator Odilon Wagner concedeu uma entrevista ao Lado B. Ao antecipar um pouco do que o público encontrará no palco, respondeu à pergunta que acompanha o espetáculo há mais de 420 apresentações e 180 mil espectadores: o que faz duas pessoas conversando prender a atenção de tanta gente?
"Se eu pudesse descrever o que é o espetáculo, eu diria: é um elogio ao diálogo", resume o ator, que estará em Campo Grande nos dias 7, 8 e 9 de agosto, no Teatro Glauce Rocha.
No palco, Sigmund Freud (Odilon Wagner) e o escritor britânico C.S. Lewis (Marcello Airoldi), autor de As Crônicas de Nárnia, discutem Deus, ciência, morte, sexualidade e o sentido da vida. Os dois defendem posições diferentes durante toda a peça, mas nunca deixam o respeito de lado.
"Eles têm momentos de enfrentamento de ideias, outras vezes muito irônicas, muito engraçadas, muito bem-humoradas. Mas eles jamais fazem do outro um inimigo. Eles discutem ideias e não pessoas."
Segundo Odilon, esse talvez seja o aspecto que mais toca o público.
"Dá para conviver com pessoas que são diferentes. Não só dá, como a gente precisa cada vez mais aprender as diferenças."

Uma peça que não toma partido
Embora coloque frente a frente um dos maiores defensores da psicanálise e um dos principais intelectuais cristãos do século passado, Odilon afirma que o espetáculo não tenta convencer ninguém.
"Ela é super respeitosa. Ela não tem lado, nem para o lado do senhor Freud e nem do lado do crente Lewis."
Essa neutralidade faz com que cada espectador viva a experiência de uma forma diferente.
O ator lembra de um episódio que aconteceu em São Paulo, quando um estudante de teologia o procurou depois da sessão.
"Ele falou assim: 'Você me causou problemas'. Eu perguntei: 'Por quê?'. Ele respondeu: 'Porque eu estou me formando para ser pastor e saí da peça gostando mais do Freud do que do Lewis'. Depois ele disse que a dúvida é necessária até para reafirmar a nossa fé."
Para Odilon, é exatamente esse tipo de reflexão que a peça provoca.

Freud também mudou o ator
Interpretar Freud durante quatro anos também transformou quem o representa no palco.
Espírita e catequista há cerca de 50 anos, Odilon conta que mergulhou na obra do psicanalista para construir o personagem e acabou revendo a própria maneira de pensar.
"Mudou muita coisa. Freud me fez raciocinar mais sobre a fé."
Segundo ele, o que mais o impressionou foi perceber que Freud nunca aceitava respostas prontas.
"Ele era um grande argumentador. Ele não se contentava com apenas uma resposta. Ele estudava o Velho Testamento, o Novo Testamento, a Torá, livros orientais... Ele estudava para poder entender."
Na visão do ator, essa busca permanente pelo conhecimento aproxima Freud e Lewis muito mais do que costuma parecer.
"O Lewis também era um defensor da fé raciocinada. Não aceitava a fé cega."

Cenário - Embora o espetáculo seja construído apenas a partir da conversa entre Freud e C.S. Lewis, Odilon faz questão de destacar que a montagem surpreende pela estrutura. Segundo ele, o público encontra um cenário totalmente realista, que reproduz o consultório onde Freud viveu seus últimos dias na Inglaterra.
"É um gabinete gigante. Tem lareira acesa, livros, objetos de arte... É tudo muito realista. O cenário é muito grande, não cabe em qualquer teatro. Em Campo Grande, por exemplo, só o Glauce Rocha comporta essa estrutura", explica.
Campo Grande terá debate depois da estreia
Além do espetáculo, o público da primeira sessão terá uma atividade extra.
Logo após a apresentação do dia 7 de agosto, elenco e convidados permanecerão no palco para uma conversa aberta com a plateia.
"Nós fazemos um debate toda semana no teatro, após a peça. É o nosso pós-crédito do teatro."
Em Campo Grande, um dos convidados será o psicanalista Thiago Ravanello. A proposta é ampliar as discussões levantadas pelo espetáculo e permitir que o público participe da conversa.
"Uma cidade desse tamanho precisava receber mais espetáculos"
Durante a entrevista, Odilon também falou sobre a importância de cidades como Campo Grande estarem na rota de grandes montagens nacionais.
Para ele, a Capital tem público, estrutura e interesse suficientes para receber produções desse porte com mais frequência.
"Uma cidade desse tamanho precisava ter pelo menos um grande espetáculo por mês. Isso forma público, fortalece os artistas locais e estimula os grupos também. Uma coisa sempre empurra a outra."
Segundo o ator, além das apresentações, a companhia faz questão de visitar universidades em todas as cidades por onde passa. O objetivo é aproximar os jovens do teatro e da arte.
"Os jovens hoje não consomem arte e cultura. A gente vai às universidades justamente para aproximar a cultura deles. Para mim, isso é formação de plateia."
Depois de passar por mais de 50 cidades, Odilon acredita que o teatro continua cumprindo um papel que vai além do entretenimento.
"A arte tem o mesmo sentido: levar uma reflexão, trazer um pensamento", finaliza.
Para quem quiser assistir ao espetáculo: as sessões serão nos dias 7 e 8 de agosto, às 20h, e 9 de agosto, às 17h, no Teatro Glauce Rocha, da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). Classificação: 14 anos. Duração: 90 minutos. Os ingressos variam entre R$ 25 e R$ 180 e estão à venda pela internet (acesse aqui).

Acompanhe o Lado B no Instagram @ladobcgoficial, Facebook e X. Tem pauta para sugerir? Mande nas redes sociais ou no Direto das Ruas através do WhatsApp (67) 99669-9563 (chame aqui).
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para entrar na lista VIP do Campo Grande News.


