Entre uma faxina e outra, Gilsa aprendeu a pintar e virou uma artista
Aos 51 anos, mesmo ouvindo que não vai dar certo, ela segue desenhando e acreditando que será reconhecida
Nos fundos da oficina da família, Gilsa Neto, de 51 anos, transformou a varanda de casa em um pequeno ateliê. É ali que a auxiliar de serviços gerais, que aprendeu a desenhar e pintar sozinha, alimenta um sonho antigo: ver a arte que produz desde a infância ser reconhecida. Há nove anos, ela trabalha em uma escola estadual e, antes disso, foi empregada doméstica. Entre uma faxina e outra, nunca desistiu dos pincéis.
RESUMO
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Gilsa Neto, de 51 anos, trabalha há 9 anos como agente de limpeza em uma escola estadual de Campo Grande e transformou a garagem de casa em ateliê, onde pinta retratos, animais e paisagens. Autodidata, ela concilia o trabalho com a arte nas horas vagas e sonha em realizar uma exposição própria. Apesar das críticas, a artista afirma acreditar no próprio talento e incentiva outras pessoas a não desistirem dos seus sonhos.
“Eu comecei a desenhar ainda na infância, na escola. Comecei a esboçar desenhos durante as atividades e logo me animei. De uns 10 anos pra cá, de fato comecei a me interessar porque senti que algo estava fluindo dentro de mim, algo diferente. Quis me aprofundar e fazer curso técnico. Acho que tenho um dom pra isso.”
Segundo ela, a escola em que trabalha é um grande incentivo para continuar desenhando e pintando. Inclusive, alguns professores ajudam a dar mais gás à vontade da artista.
“A escola em que trabalho me inspira, eu posso dar força para os alunos, dar o exemplo de que eles podem sonhar também. Ali tem todos os tipos de sonhos. Lá participo dos eventos dos alunos, apresento, já tive essa oportunidade.”
Na garagem dela, alguns rostos, quadros de famílias fictícias, da própria família e um especial do cantor David Bowie. Na parede, um tucano e uma arara-canindé. “Amei o resultado. Tem coisa que não terminei por causa do tempo, mas pretendo.”
Do outro lado da varanda, um quadro de um homem no rio, um grande sol alaranjado e o entardecer em algum rio do Estado. “Ele com a liberdade indo ao encontro dos seus sonhos em um momento reflexivo dele. O que ele quer fazer em um lugar desse é ser livre e com aquilo que ele mais ama, a natureza.”
Dentro da casa simples, um lince feito com a ajuda do filho, que é tatuador. “Projetei e quero acabar logo em breve, tenho o sonho de fazer ele em uma tela.” Do outro lado do cômodo, duas mulheres.
“É uma indígena diferente, um pouco moderna, envolta das flores por ter o sonho de acreditar que a natureza ainda tem a chance de sobreviver. Fiz uma moça mais autoral, uma ruiva, mas também tenho trabalhos relacionados a mulheres negras, uma coisa linda”, completa.
Ela explica que muita gente ainda desacredita do sonho dela e fala que não vai dar certo. O objetivo de Gilsa é fazer uma exposição só dela com os quadros autorais.
“Eu trabalho na escola como serviços gerais e voltei a fazer. O professor do curso me incentivou. Disse que meu sonho não pode morrer e eu tenho que acreditar em mim. Tudo o que eu sei aprendi sozinha e melhorei no curso. Quero expandir meus trabalhos, fazer o que mais amo.”
Além dos retratos, Gilsa gosta de pintar a natureza, algumas pessoas conhecidas na cidade e animais.
“Eu falei que iria pôr fé naquilo que estou fazendo, acreditar em mim. As pessoas falam, existem críticas, mas tem que absorver, é natural acontecer. Eu sou de Aquidauana, vim morar aqui em Campo Grande, comecei a trabalhar de empregada doméstica. Depois comecei a fazer concurso e agora estou em uma escola estadual como agente de limpeza. Eu consigo conciliar o trabalho da escola e o desenho aqui na minha casa. Nas horas vagas faço minhas artes, vêm minhas inspirações.”
Ela conta que não leva o passado de um jeito ruim ou pesado. Pelo contrário, acredita que foi o caminho que possibilitou que ela estivesse onde está. “Tenho que valorizar o que Deus me deu. Se tenho isso para trabalhar para o meu sustento, a arte também é. A diferença é essa, mas a espontaneidade e a boa vontade são as mesmas.”
Se pudesse dar um recado para quem ainda acha que sonhos não se realizam, Gilsa diria para não desistir. “Tem que ter perseverança, porque se você acredita em você não tem como errar. Continue sonhando porque, em algum momento, o seu sonho vai ser realizado. Não desista.”
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