A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017

07/12/2017 08:10

A história por trás das madeixas de Cristiane fez dela um sucesso nas Moreninhas

O talento que começou com um cadarço de sapato, já conquistou pessoas de muitos lugares

Thailla Torres
Cristiane fez seu nome na Moreninhas, mas já conquistou gente de vários lugares do País. (Foto: Thailla Torres)Cristiane fez seu nome na Moreninhas, mas já conquistou gente de vários lugares do País. (Foto: Thailla Torres)

Aos 13 anos, Cristiane Almeida Marques descobriu o talento para os penteados afro. Aos 35, na região das Moreninhas, ela é uma das pessoas essenciais à comunidade, desde que resolveu fazer da sua dificuldade em arrumar o cabelo uma arte. O trabalho surgiu como forma de mostrar às mulheres que é possível ser feliz longe do cabelo liso.

Nascida em Dourados, Cristiane sentiu o racismo ainda na infância. No caminho da escola, ouvia os piores comentários por conta do cabelo crespo. O que fez ela buscar mudanças no penteado.

"Nossa mãe tinha dificuldade de arrumar o cabelo, era do jeito que podia. E eu ficava pensando em uma maneira de deixar o cabelo mais bonito, sem alisar, porque eu sempre tive o maior orgulho do meu cabelo", conta.

Cristiane se dedica as tranças por acreditar na felicidade longe da química. (Foto: Thailla Torres)Cristiane se dedica as tranças por acreditar na felicidade longe da química. (Foto: Thailla Torres)

Ela pediu à mãe que lhe ensinasse a fazer tranças, um primeiro passo para transformar o estilo. "Aprendi a fazer trança usando cadarço de sapato. Depois, a cada dia, pegava uma mecha de cabelo e trançava, foram quase 15 dias para terminar a cabeça toda".

Na escola, todo mundo perguntava como ela conseguia deixar o cabelo daquele jeito. Até que uma dia, voltando da escola, ouviu de uma tia a sugestão de alisar o cabelo para facilitar no trançado, o que foi traumatizante. "Era muito nova e fui para o salão de beleza. Saí de lá careca, porque meu cabelo caiu todo com a química".

Apesar do trauma, Cristiane esperou o cabelo crescer e decidiu tomar uma atitude. "Passei 15 dias na casa da minha tia que me ensinou o rastafári. Até que depois passei a fazer no cabelo de algumas pessoas cobrando só R$ 25,00. Na primeira cliente demorei tanto que tive que dormir na casa dela", conta.

Mas a guinada na profissão foi aos 15 anos, em um concurso de beleza da escola para eleger a garota mais bonita. "Minhas amigas diziam que eu não tinha chance porque seria a filha da diretora que ganharia o concurso, como sempre. Mas no dia em que o organizador do concurso entrou na sala para escolher as meninas, se apaixonou pelo meu cabelo".

Dono de uma agência e um salão em Dourados, o homem convidou Cristiane para ser modelo e cabeleireira em um estabelecimento da cidade. "Ele confiou em mim e, desde aquele dia, me fez enxergar o trabalho que eu era capaz de fazer. Me ensinou muitas técnicas e ali comecei minha

Fez seu nome nas Moreninhas quando mudou-se para Campo Grande. Com rastafári, dreadlocks, miojinho trançado, boxhands, trança nagô e penteados mais tradicionais, Cristiane passa de 5 a 12 horas fazendo um cabelo. As tranças que ficaram famosas são feitas com fibra sintética, orgânica ou natural, lã ou palha. E dependendo da técnica o tempo de duração é de 3 a 6 meses. "Para durar é recomendado lavar o cabelo pelo menos 3 vezes na semana, somente com shampoo. Também evitar de dormir com ele molhado e deixe secar ao natural, durante o dia".

Salão é simples e todo feito por ela. (Foto: Thailla Torres)Salão é simples e todo feito por ela. (Foto: Thailla Torres)

Por isso já teve cliente que veio de outro Estado para fazer o cabelo com Cristiane. Ela acredita que o sucesso está a oportunidade de resgatar a autoestima de mulheres que dizem não ao cabelo liso. "Porque além de práticas e estilosas, as tranças afros ajudam muito na transição capilar e hoje a mulherada está se permitindo voltar o cabelo natural. Faço de tudo para incentivar isso, tanto que, sou bem rígida no salão quando percebo que a cliente está querendo acabar com o cabelo investindo na química".

Mas se para alguns o trançado afro é usado apenas pensando no poder estético, para outros é símbolo de resistência, o que para Cristiane não tem diferença quando surge polêmica se branco pode ou não usar penteados que são símbolo da cultura de matrizes africanas. "Se a pessoa se sente bem, qual o problema de ser branco ou negro para fazer um cabelo como esse? Isso depende do estilo de cada um. E o respeito não vem do cabelo, vem do coração e da boa educação que é direito de todos desde a infância, mas infelizmente um privilégio de poucos", lamenta.

Hoje, como acadêmica Estética e Cosmetologia da Uniderp, ela ainda luta contra preconceito. "Há um mês, mais ou menos, uma professora disse em sala, que pessoas com número maior de melanócidos, células produtoras de melanina, tem a pele doente".

Como única negra da sala, imediatamente, ela deu uma chacoalhada pública na professora. "Falei pra ela que se eu tenho essa doença, estava feliz, porque ninguém me dá quase 40 anos nas costas e tenho muito o que viver graças a minha luta de vida e a minha cor. Não deixei o preconceito dela passar batido naquele momento e ela acabou ficando muito envergonhada. Mas é lamentável uma situação como essa partir de uma professora".

Quem quiser conhecer, o salão Etynias fica na Rua Barueri, 599, Moreninha II. O telefone para Contato é: 99133-5045.

Veja alguns trabalhos de Cristiane:

O trabalho dura de 5 a 12 horas para ficar pronto.
(Foto: Thailla Torres)O trabalho dura de 5 a 12 horas para ficar pronto. (Foto: Thailla Torres)



imagem transparente

Classificados


Copyright © 2017 - Campo Grande News - Todos os direitos reservados.