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Comportamento

Acervo de flyers preserva quatro décadas da história do rock em MS

Enrique guarda centenas de panfletos de festas e criou perfil para compartilhar e manter memória

Por Clayton Neves | 26/01/2026 07:26

Guardados em caixas, pastas e sacolas, o músico e empresário Enrique Gonçalves de Souza, o Enrique DxDxOx, preserva flyers e panfletos  que atravessaram décadas e são fragmentos de histórias que ajudaram a moldar a cena do rock em Mato Grosso do Sul.

RESUMO

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O músico e empresário Enrique Gonçalves de Souza mantém um acervo histórico da cena do rock em Mato Grosso do Sul, com flyers e panfletos que datam de mais de 40 anos. Os materiais documentam eventos em locais já extintos de Campo Grande, como o Stones Blues Bar e o Clube Surian, além de shows históricos como o da banda Alta Tensão em 1987.Em 2021, Enrique criou a página "Memórias do Rock" no Instagram para preservar esse patrimônio cultural. O projeto, iniciado após a descoberta de uma sacola com centenas de panfletos antigos, tornou-se um ponto de encontro virtual onde frequentadores compartilham histórias e revivem momentos marcantes da cena musical sul-mato-grossense.

Alguns têm mais de 40 anos e carregam marcas de bares, clubes e casas de show que já nem existem mais em Campo Grande, como o Stones Blues Bar, Café Moinho, Bar Fly e o antigo Clube Surian.

Enrique tem 45 anos e é quem guarda centenas desses materiais. Muitos foram feitos à mão, outros da época em que xerox era só preto e branco e carregam a estética crua e urgente do movimento underground nos anos 1980, 1990 e início dos anos 2000.

Acervo de flyers preserva quatro décadas da história do rock em MS
São centenas de flyers desde a década de 1980. (Foto: Arquivo Pessoal)

Entre os que mais o marcaram estão flyers de eventos históricos, como o show da banda Alta Tensão, em 1987, considerada uma das precursoras do heavy metal brasileiro e formada em Campo Grande. Também, o tributo a Raul Seixas, realizado em 1993 na Concha Acústica do Parque das Nações Indígenas.

O material ainda reúne apresentações no Clube Surian que reuniam diferentes vertentes do rock, além de noites que trouxeram nomes nacionais como Ratos de Porão, Cólera, Doctor Sin e bandas internacionais, como a japonesa Guitar Wolf, que veio ao Brasil exclusivamente para tocar na Capital em 2001. “É muita coisa. Tanta que ainda nem consegui separar tudo”, detalha.

Antes de virar memória, tudo isso foi trabalho braçal. Enrique começou a guardar os flyers porque ele mesmo ajudava a produzi-los. Ainda jovem, ele fazia artes no Corel, imprimia centenas de panfletos em gráficas e saía pelas ruas distribuindo. “Eu fazia a arte, imprimia, cortava e entregava. Ia de bar em bar, falava com todo mundo. Era outra época, hoje isso é impossível”, lembra.

Confira a galeria de imagens:

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A relação com o rock começou cedo. Enrique chegou a Mato Grosso do Sul aos 12 anos, vindo de São Paulo, e logo se conectou com a cena em uma época em que as músicas eram compartilhadas em fitas cassete, gravadas em casas de amigos e parentes.

No fim dos anos 1990, Enrique passou a tocar em bandas, como a Dor de Ouvido, e logo entendeu que, para tocar, era preciso criar os próprios espaços. A partir daí, começou a organizar eventos, produzir festas, trocar shows com bandas de fora e movimentar a cena local.

Nesse contexto, vieram festivais, noites underground, eventos de blues, hardcore, punk, thrash e metal. Foi nesse processo que os flyers começaram a se acumular. Alguns deles o músico guardava por apego, outros simplesmente porque sobravam. Com o tempo, o material virou arquivo. E quase foi perdido.

Acervo de flyers preserva quatro décadas da história do rock em MS
Enrique é apaixonado por rock desde a adolescência e hoje tem loja dedicada ao estilo. (Foto: Arquivo Pessoal)

Para preservar a memória, em 2021 Enrique e um amigo, Alan, criaram a página Memórias do Rock, no Instagram. “O Alan foi meu parceiro de panfletagem e divulgação nos anos 2000. A mãe de Alan encontrou uma sacola cheia de panfletos antigos e pensou em jogar tudo fora. Ele me ligou e disse que aquilo era nossa história, que se nada fosse feito, iria acabar no lixo’”, conta.

A sacola tinha centenas de flyers guardados desde o início dos anos 2000, muitos deles da época em que Alan trabalhava na divulgação de eventos. Enrique assumiu a curadoria, organizou parte do material e decidiu começar a publicar. A página nasceu com esse acervo e logo ganhou novas camadas.

“Com o tempo, outras pessoas começaram a enviar material e contar histórias e lembranças”, destaca. Segundo ele, chegaram registros raros, como flyers de shows dos anos 1980, eventos históricos da cidade e apresentações de bandas que dariam origem a nomes consagrados do rock sul-mato-grossense.“Tem coisa que se não fosse isso, ninguém mais saberia que existiu”, afirma.

Acervo de flyers preserva quatro décadas da história do rock em MS
Um dos flyers mais antigos é de dezembro de 1985. (Foto: Arquivo Pessoal)

A página virou um ponto de encontro virtual. Nos comentários, antigos frequentadores relembram noites, contam bastidores, reconhecem amigos e revivem momentos que marcaram gerações. “A galera comenta, se emociona, lembra. É memória viva”, define.

Para Enrique, preservar o acervo é também preservar sua própria trajetória. “Era uma época em que tudo era feito no improviso, na amizade e na paixão pelo rock. Hoje tudo é memória e se a gente não cuidar, isso some”, finaliza.

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