Baleados lotam emergência e expõem avanço da violência armada em MS
Santa Casa tem alta de 76% nos atendimentos; vítimas estão mais jovens e aumenta o número de armas adulteradas

Antes de virar estatística, a vítima passa pela emergência, mobiliza equipes médicas e deixa para trás uma família atingida pela violência. Entre janeiro e junho de 2026, 79 pessoas baleadas foram atendidas pela Santa Casa de Campo Grande, contra 45 no mesmo período do ano passado, aumento de 76%.
RESUMO
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A Santa Casa de Campo Grande atendeu 79 pessoas baleadas entre janeiro e junho de 2026, alta de 76% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram registrados 45 casos. A média de idade das vítimas caiu de 30 para 28 anos. Em Mato Grosso do Sul, 303 pessoas morreram por homicídio doloso até julho deste ano. As forças de segurança apreenderam 1.086 armas no período, sendo 572 com numeração raspada.
O volume registrado em seis meses equivale a 73,8% dos 107 atendimentos contabilizados durante todo o ano de 2025. As vítimas também estão mais jovens: a média de idade caiu de 30 para 28 anos na comparação entre os dois períodos.
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O cenário acende um alerta para a violência armada em Mato Grosso do Sul, embora os dados disponíveis ainda não permitam apontar uma causa única para o crescimento.
Segundo Marcelo Júnior Nunes de Menezes, coordenador do curso de Direito da Faculdade Anhanguera, diferentes fatores podem estar ocorrendo ao mesmo tempo.
“Os dados públicos disponíveis não permitem atribuir o aumento deste ano a uma causa única. O que as ocorrências oficiais mostram é a coexistência de pelo menos três dinâmicas: armas empregadas por grupos ligados ao tráfico e às organizações criminosas, utilização reiterada da mesma arma em diferentes crimes e conflitos interpessoais ou domésticos que se tornam potencialmente letais pela presença do armamento”, afirma.
Dados da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) mostram que Mato Grosso do Sul registrou 303 vítimas de homicídio doloso em 269 ocorrências entre janeiro e 29 de julho de 2026.
Desse total, 161 vítimas eram adultas, 104 jovens, 22 idosas, nove adolescentes, quatro crianças e três não tiveram a idade informada.
Em todo o ano de 2025, foram contabilizadas 445 vítimas em 401 ocorrências. Entre elas, havia 250 adultos, 126 jovens, 41 idosos, 12 adolescentes, sete crianças e nove pessoas sem idade informada.
As tentativas de homicídio também permanecem em patamar elevado. Até 29 de julho deste ano, foram registradas 424 vítimas em 346 ocorrências. O grupo era formado por 201 adultos, 174 jovens, 17 adolescentes, 17 idosos, quatro crianças e 11 pessoas sem informação de idade.
Durante todo o ano passado, o Estado teve 635 vítimas de tentativa de homicídio em 532 ocorrências. Foram 306 adultos, 241 jovens, 40 adolescentes, 24 idosos, cinco crianças e 19 vítimas sem idade informada.
A Sejusp ressalta, porém, que o termo “baleado” não corresponde a uma tipificação prevista no Código Penal Brasileiro. Esses casos podem ser registrados, por exemplo, como lesão corporal, categoria que também inclui vítimas de arma branca, agressões físicas e outros meios de ofensa à integridade física.
Para Menezes, a presença recorrente de jovens e adultos entre as vítimas não deve ser interpretada de forma simplista.
“É importante evitar associar automaticamente juventude à criminalidade. Jovens aparecem, sobretudo, como vítimas de uma violência que se concentra em determinados territórios e contextos”, afirma.
Segundo ele, uma análise mais precisa exigiria dados separados por idade, sexo, município, taxa populacional, motivação e circunstância dos crimes. “Não basta observar que há mais adultos em números absolutos, pois essa categoria abrange uma parcela muito maior da população”, explica.
Mais de mil armas apreendidas - Entre janeiro e 29 de julho de 2026, as forças de segurança apreenderam 1.086 armas de fogo em Mato Grosso do Sul. As apreensões ocorreram em 792 ocorrências.
Do total, 572 armas estavam adulteradas ou com a numeração raspada. Também foram retirados de circulação 226 revólveres, 187 pistolas, 60 espingardas, 20 fuzis, 12 carabinas e cinco rifles.
Maio foi o mês com o maior número de apreensões, com 183 armas. Em março foram 180, seguido por janeiro, com 163, fevereiro, com 159, julho, até o dia 29, com 142, abril, com 139, e junho, com 120.

Em todo o ano de 2025, foram apreendidas 1.795 armas em 1.310 ocorrências. Entre elas, 1.029 estavam adulteradas ou com a identificação raspada.
O balanço também inclui 346 revólveres, 290 pistolas, 77 espingardas, 19 carabinas, 14 fuzis e 13 rifles.
Segundo o especialista, a grande quantidade de armas com a identificação suprimida revela uma tentativa deliberada de dificultar o trabalho das forças de segurança.
“A supressão da numeração indica uma tentativa consciente de romper a rastreabilidade da arma. Procura-se dificultar a identificação do fabricante, do primeiro comprador, das transferências realizadas e do momento em que ela saiu do circuito regular”, explica.
Ele ressalta, porém, que uma arma com a numeração raspada não pode ser automaticamente associada ao tráfico internacional ou a uma organização criminosa específica.
“A numeração raspada sugere ocultação consciente e maior dificuldade investigativa, mas não permite, sozinha, afirmar que a arma veio do exterior ou que pertence a determinado grupo. A perícia ainda pode recuperar sinais identificadores e reconstruir parte da trajetória”, afirma.

Fronteira amplia exposição - A posição geográfica de Mato Grosso do Sul é apontada como um dos fatores que facilitam a circulação ilegal de armas.
Segundo Menezes, o Estado funciona tanto como área de entrada quanto como corredor de redistribuição para outras regiões do país. “Isso não significa que toda arma ilegal apreendida no Estado tenha vindo do Paraguai ou da Bolívia. Significa que a extensão da fronteira, as rotas rodoviárias e a estrutura já utilizada para drogas e contrabando criam uma exposição logística específica”, afirma.
Entre os fatores que alimentam o mercado clandestino, ele cita o tráfico internacional, o transporte para outros estados, furtos, roubos ou extravios de armas inicialmente regulares e fraudes ou desvios nos processos legais de compra e registro.
O aumento no número de armas retiradas de circulação pode indicar maior atuação policial, mas também pode ser um sinal de que o mercado ilegal está mais abastecido.
“O número de apreensões é, antes de tudo, um resultado operacional. Ele pode crescer porque houve mais fiscalizações, operações direcionadas, mandados judiciais, atuação de inteligência e integração entre as forças. Também pode crescer porque o mercado clandestino está mais abastecido”, explica.
Para ele, apreender armas é importante, mas o dado não deve ser analisado isoladamente. “Mais apreensões representam a retirada de armas de circulação, o que é positivo, mas não constituem prova automática de que a quantidade total de armas ilegais diminuiu ou aumentou”, afirma.
As ocorrências registradas em 2026 mostram armas relacionadas a homicídios, tentativas de homicídio, disputas territoriais, tráfico de drogas, roubos, preparação para crimes patrimoniais, associações criminosas, violência doméstica e ameaças.
Arma pode ligar diferentes crimes - O trabalho de inteligência e perícia pode transformar uma apreensão isolada em informação sobre redes criminosas, rotas e autores recorrentes.
Em dois anos, a Polícia Científica de Mato Grosso do Sul realizou 1.691 inserções no Banco Nacional de Perfis Balísticos e confirmou 102 coincidências.
Essas coincidências, conhecidas como “hits”, podem demonstrar que a mesma arma foi usada em diferentes ocorrências.
Em Campo Grande, vestígios encontrados em bairros distintos permitiram ligar uma tentativa de homicídio a um homicídio consumado. Também houve conexão entre uma arma apreendida no interior de Mato Grosso do Sul e um crime praticado em Mato Grosso.
“A inteligência transforma uma apreensão isolada em informação sobre uma rede. A numeração permite tentar reconstruir a cadeia comercial. A perícia balística compara projéteis e estojos de diferentes locais. Dados telefônicos, financeiros, rodoviários e de vínculos entre investigados ajudam a identificar fornecedores, rotas e destinatários”, explica Menezes.
Segundo ele, a investigação não deve terminar com a prisão de quem estava carregando a arma. “A arma pode ser o elo entre vários crimes, cidades e grupos”, afirma.
Para reduzir a violência armada, o especialista defende ações concentradas nos locais de maior risco, investigação qualificada de homicídios, identificação de autores recorrentes, rastreamento balístico, integração entre instituições e repressão a fornecedores e financiadores.
Ele também aponta a necessidade de prevenção social voltada a crianças e jovens e de respostas rápidas em situações de violência doméstica.
Nas investigações, o foco deve ir além da pessoa encontrada com o armamento.
“É preciso avançar sobre toda a cadeia: fornecedor, intermediário, transportador, financiador, destinatário, local de armazenamento e eventual desvio do mercado regular”, afirma.
Cada apreensão, segundo ele, deveria resultar em análise da numeração, exame balístico, consulta a registros, verificação de celulares e movimentações financeiras, além da investigação de furtos, roubos, extravios ou fraudes.
“Apreender a arma resolve o risco imediato. Desarticular a fonte de reposição impede que outra arma ocupe o lugar dela”, conclui.
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