Agenda cheia: quando a rotina das crianças vira uma maratona
Excesso de atividades e pressão por desempenho podem gerar ansiedade e prejuízos no aprendizado

A mochila mal encosta no chão e o relógio já cobra pressa. Sai da escola, corre para o inglês. Do inglês, vai para o esporte. Depois vem a tarefa, o banho apressado, o jantar no meio do caminho. Quando a casa finalmente silencia, o dia já acabou e descansar vira quase um luxo. Em muitas famílias, a infância tem sido vivida nesse ritmo acelerado, encaixada em uma agenda que não cabe mais no dia e que, pouco a pouco, transforma o que deveria ser leve em uma maratona diária.
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A sobrecarga de atividades na rotina infantil tem se tornado uma preocupação crescente entre especialistas. O excesso de compromissos, guiado principalmente pelas expectativas dos adultos, pode prejudicar o desenvolvimento emocional e cognitivo das crianças, alerta Maísa Colombo, coordenadora do curso de Psicologia da Estácio. Sinais como irritabilidade, ansiedade, problemas de sono e dificuldade de concentração podem indicar sobrecarga. Especialistas recomendam equilibrar atividades extracurriculares com tempo livre, fundamental para criatividade e autorregulação emocional. O brincar espontâneo e o descanso são essenciais para um desenvolvimento saudável.
Na maioria das vezes, a rotina cheia nasce de um desejo legítimo: pais e responsáveis querem estimular, oferecer oportunidades e preparar os filhos para o futuro. Mas a linha entre incentivar e sobrecarregar é mais fina do que parece. A coordenadora do curso de Psicologia da Estácio, Maísa Colombo, explica que, embora a estimulação seja importante, tanto a falta quanto o excesso podem ser prejudiciais. “O equilíbrio é fundamental”, afirma a psicóloga e pedagoga.
Segundo ela, a infância contemporânea tem sido atravessada por múltiplas atividades extracurriculares, cobranças por desempenho e uma lógica de produtividade cada vez mais precoce. Esse modelo, porém, cobra um preço emocional. Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), ambientes excessivamente exigentes favorecem a construção de crenças disfuncionais desde cedo, como a ideia de que a criança só é valorizada quando “vai bem” ou de que errar não é permitido. Para a especialista, autores como Daniel Siegel reforçam que o cérebro infantil precisa de equilíbrio entre estrutura, vínculo, brincar e tempo livre para desenvolver autorregulação e consolidar aprendizagens.
Quando ligar o alerta
O sinal de atenção aparece quando a rotina passa a ser guiada mais pelas expectativas dos adultos do que pelas necessidades da criança. Quando não sobra espaço para descanso, ócio e brincadeiras espontâneas, o corpo e o comportamento começam a falar. “O brincar espontâneo é fundamental para a construção da personalidade. Quando a criança vive apenas em função de demandas externas, pode haver prejuízo na autonomia emocional e na expressão de si mesma”, explica Maísa.
Nem sempre a sobrecarga é óbvia. Muitas vezes, ela se disfarça de “fase”, “birra” ou cansaço comum. Irritabilidade constante, ansiedade excessiva, choro frequente, dificuldade de concentração e problemas de sono estão entre os sinais mais comuns. Também podem surgir queixas físicas, como dor de barriga e dor de cabeça, além de medo de errar, perfeccionismo precoce, desmotivação e agressividade. Na TCC, essas reações são entendidas como respostas emocionais e comportamentais a contextos de pressão contínua e demandas acima da capacidade de regulação emocional da criança.
Com o passar do tempo, os impactos se espalham por diferentes áreas do desenvolvimento. No campo cognitivo, o excesso de estímulos pode prejudicar a atenção e a consolidação da aprendizagem e da memória. No aspecto emocional, aumenta o risco de ansiedade infantil, baixa tolerância à frustração e dependência de validação externa. Já no cotidiano escolar e no comportamento, podem surgir queda no rendimento, desinteresse, atitudes opositoras e até resistência em frequentar a escola, quando o dia a dia passa a ser associado apenas a cobrança e exaustão.
O valor do tempo livre
Por isso, o tempo livre precisa deixar de ser visto como “tempo perdido”. Ele é parte essencial do desenvolvimento infantil. Maísa explica que é nesse espaço que a criança fortalece a criatividade, a autonomia, a capacidade de resolver problemas e a regulação emocional. Até o chamado “tédio saudável” tem função: estimula imaginação, iniciativa própria e organização interna, permitindo que a criança crie, explore e se conheça.
Para encontrar equilíbrio entre rotina e bem-estar, a orientação é clara: priorizar a saúde emocional, e não apenas o desempenho. Isso passa por limitar atividades extracurriculares, garantir tempo livre diário, respeitar o ritmo individual da criança, escutá-la com atenção e evitar comparações. Pequenos ajustes podem reduzir a pressão e fortalecer vínculos.
Quando sinais como ansiedade intensa, regressões comportamentais, medos excessivos, distúrbios do sono prolongados, queixas psicossomáticas frequentes, mudanças bruscas de comportamento, isolamento social ou sofrimento emocional visível se tornam persistentes, a recomendação é buscar orientação profissional. Esses sinais indicam que a criança já não está conseguindo se autorregular emocionalmente e precisa de apoio para retomar o equilíbrio.
Na avaliação da psicóloga, o maior desafio é não transformar a infância em um percurso guiado apenas por metas e desempenho. Ela lembra que, além de atividades e compromissos, a criança precisa de tempo, afeto, segurança e liberdade para brincar — ingredientes que, junto com o descanso, ajudam a construir equilíbrio emocional ao longo do crescimento.
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