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Campo Grande, Sábado, 22 de Setembro de 2018

31/08/2018 08:12

Black Mirror vira disciplina em escola e ensina sobre os 2 lados da tecnologia

Nova disciplina têm ensinado sobre os impactos da tecnologia dentro e fora da escola

Thailla Torres
Da série para a realidade, alunos refletem sobre os impactos da tecnologia no dia a dia com amigos e familiares. (Foto: Thailla Torres)Da série para a realidade, alunos refletem sobre os impactos da tecnologia no dia a dia com amigos e familiares. (Foto: Thailla Torres)

Não é novidade uso de filmes e séries em sala de aula. Mas em Campo Grande, uma disciplina que ganhou o nome "Black Mirror e a Modernidade Líquida" vem fazendo sucesso entre os alunos da Escola Estadual Amélio de Carvalho Baís, no Coophatrabalho. Pensada para exercitar a escolha e pensamento crítico dos estudantes, o projeto faz parte das disciplinas eletivas, criadas para trabalhar com temas atuais e fortalecer a discussão dentro da escola.

Engajar estudantes e facilitar o estudo através do prazer também faz parte dos objetivos desse tipo de disciplina. Por isso, o sucesso e aceitação do seriado produzido pela Netflix, que aborda os mais complexos e bizarros assuntos da sociedade, foi inspiração para professora Nágila Sana usar esse recurso dentro de sala de aula. "Tudo surgiu com a vontade de trazer a Modernidade Líquida, conceito construído pelo sociólogo Zygmunt Bauman, para a escola. E selecionando alguns episódios, vi o quanto a série traduz isso, como a modernidade tem afetado as relações humanas", explica a professora.

Roberta está assistindo novamente, dessa vez, para ter outra perspectiva. (Foto: Thailla Torres)Roberta está assistindo novamente, dessa vez, para ter outra perspectiva. (Foto: Thailla Torres)

A disciplina foi lançada entre outras 15 eletivas que abordam os mais variados temas como teatro, dança, artes visuais, horta e jornalismo, por exemplo. Apresentada aos alunos de forma objetiva e clara, a escolha é do estudante sobre qual matéria fazer em sala. “Os professores montam os projetos e após serem aprovados pela escola, de forma criteriosa, eles apresentam os temas aos alunos. O bacana é que além de incentivar, eles sentem autônomos para buscar outras formas de conhecimento”, explica a diretora adjunta.

Até agora, só duas aulas de “Black Mirror” foram dadas em sala O primeiro episódio assistido foi Queda Livre, que chamou atenção pela comparação entre realidade e mundo virtual que estamos vivendo. As abordagens foram suficientes para fazer a meninada voltar para casa se questionando sobre o uso e os impactos da tecnologia no dia a dia.

Surpreendida com o seriado, Vitória Rodrigues, de 17 anos, aluna do 3º ano do Ensino Médio, conseguiu fazer relação com a casa e vida social dos amigos na escola. “Sei que tem episódios que são assustadores, mas esse primeiro foi o melhor, porque mostra realmente como as relações são frágeis e superficiais”.

Vitória faz relações da disciplina com a vida cotidiana. (Foto: Thailla Torres)Vitória faz relações da disciplina com a vida cotidiana. (Foto: Thailla Torres)

No episódio em questão, as cenas retratam sobre a falsa felicidade e a necessidade de ser avaliado pelo outro, o que deixou a estudante refletindo sobre aplicativos que no dia a dia fazem, exatamente, a mesma coisa. “Na série sei que eles exageram um pouquinho, mas é para ver ser a gente cai realidade. E no dia a dia, existe o Tinder em que você aceita ou não uma pessoa, existe o Uber em que a gente dá nota para as pessoas e às vezes pode não ser aceito por isso. Ou seja, a gente já avalia as pessoas de outras maneiras já vivemos essas situações”.

Outra preocupação de Vitória é com a consistência das relações dentro e fora de casa, tendo em vista que muita gente tem vivido por curtidas e reconhecimento nas redes sociais. “Trazendo um pouco para a nossa realidade da escola, por exemplo, vejo que muita gente acredita em coisas que divulgam sobre você nas redes e nem é verdade. Daí você começa a fazer tudo para não ser julgada e mal interpretada. Outra questão é o impacto disso com os laços familiares, eu mesma já me peguei ao lado da minha mãe, conversando com ela pelo celular. Isso assusta muito”.

Aos 16 anos, Roberta Rossi, aluna do 2º ano do Ensino Médio, havia assistido todos os episódios da série quando soube da disciplina, resolveu dar uma nova chance aos episódios com objetivo de se aprofundar nas reflexões que a série traz. “Principalmente sobre o uso da tecnologia, cada episódio mostra como ela ajuda ou pode atrapalhar a vida de uma pessoa, às vezes são até cruéis”, diz Roberta.

Na foto, professora Nágila e Eliane, duas das professoras responsáveis por disciplinas alternativas na escola. (Foto: Thailla Torres)Na foto, professora Nágila e Eliane, duas das professoras responsáveis por disciplinas alternativas na escola. (Foto: Thailla Torres)

Apesar de ainda não ter sido exibido em sala, Roberta lembra de outro episódio, em que o casal revive diariamente os crimes que cometeu, e ela faz relação com os dias atuais em que ninguém está livre dos julgamentos das redes sociais. “Isso é muito presente, porque na escola ou fora dela, se você faz algo de errado ou julgado como fora do padrão, você está sujeito a parar na internet mesmo sem permitir. E isso vai gerando um monte de conflitos entre as pessoas e dentro da gente. Então apesar da ficção, a gente consegue ver muito da nossa realidade na série”.

Embora haja cenas fortes no seriado, a professora Nágila reforça que houve uma seleção de episódios para serem exibidos em sala. “Não vamos assistir a série inteira, tudo que foi escolhido aborda, especialmente, a tecnologia. Depois de assistir o episódio, os alunos se dedicam a produção de produtos como vídeos, resenhas e apresentações em sala”.

Sem dúvidas, a proposta incentiva o aluno a buscar conhecimento de forma mais prazerosa, avalia a diretora. “Faz com que ele busque conhecimento através de pesquisa, de projetos e vivências. Normalmente, essa eletiva é vinculada as disciplinas comuns, que ajuda na construção do pensamento crítico e argumentativo. Além de contribuir para uma nova perspectiva de vida, a arte faz pensar”.

Para Vitória, a oportunidade de escolher as disciplinas eletivas faz com que todo o processo de estudo seja mais atrativo. “A gente fica mais curiosidade, reflete mais, isso tem me ajudado no poder de argumentação das minhas redações”, diz a estudante que vai prestar o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e sonha em cursar Direito.

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