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Comportamento

Camila cuidou milhares de crianças e hoje luta para vencer o câncer

Em cuidados paliativos, odontopediatra viu rede de apoio se formar em vaquinha para tratamento experimental

Por Clayton Neves | 24/06/2026 07:36

Durante mais de duas décadas, a odontopediatra Camila Bicharelli acolheu mães aflitas, acompanhou o crescimento de centenas de crianças e construiu vínculos que ultrapassaram os limites do consultório. Acostumada a orientar famílias em momentos delicados, ela se tornou referência para uma geração de pacientes em Mato Grosso do Sul. Agora, aos 48 anos, é ela quem recebe o apoio de pessoas que ajudou ao longo da vida.

A corrente de solidariedade surgiu após uma amiga criar uma vaquinha virtual para auxiliar Camila na busca por novas possibilidades de tratamento contra um câncer raro e agressivo, diagnosticado em estágio avançado. A mobilização revelou algo que ela própria não imaginava e mostrou o tamanho da marca deixada em tantas famílias.

"Eu não imaginava de verdade a transformação que eu tinha feito na vida de tantas pessoas. Recebi tantas mensagens que realmente me comoveram", conta.

Camila conta que o diagnóstico veio em 2023, depois de episódios frequentes de sangramento. Durante um procedimento médico, uma profissional percebeu que havia algo diferente e decidiu realizar exames mais detalhados.

Camila cuidou milhares de crianças e hoje luta para vencer o câncer
Camila mora há 17 anos em Mato Grosso do Sul e já atendeu gerações de mães. (Foto: Arquivo Pessoal)

O resultado revelou um sarcoma uterino, um tipo raro de câncer que representa uma pequena parcela dos tumores que atingem o útero e que já estava em estágio avançado. A descoberta trouxe também uma reflexão. "Eu fazia tudo para as pessoas e fui me deixando de lado", resume.

Formada há 26 anos e morando em Mato Grosso do Sul há 17, Camila construiu uma carreira de cuidado com crianças e acolhimento às mães. Após enfrentar dificuldades durante a amamentação do filho mais velho, decidiu aprofundar os estudos sobre amamentação materna e alterações nos freios orais dos bebês. O tema se transformou em especialidade e missão de vida.

Quando chegou ao Estado, ela se tornou uma das pioneiras no trabalho voltado a essa área. "A maternidade é muito solitária. Todo mundo olha para o bebê, mas aquela mãe também precisa ser cuidada e acolhida", explica.

Ao longo de quase duas décadas, ela criou laços que extrapolaram o atendimento profissional. Muitas das crianças que passaram por suas mãos hoje já são adolescentes e jovens adultos. Talvez por isso a repercussão da vaquinha tenha sido tão grande.

Camila cuidou milhares de crianças e hoje luta para vencer o câncer
Odontopediatra virou referência em amamentação materna e alterações nos freios orais dos bebês. (Foto: Arquivo Pessoal)

No entanto, antes de receber esse apoio, Camila enfrentou boa parte da doença praticamente sozinha. Ela optou por contar o diagnóstico apenas para um grupo muito restrito de pessoas. Uma decisão tomada para proteger os filhos e evitar que a doença dominasse a rotina da família.

 "Decidi que não ia adoecer minha família. Quando um paciente fica doente, a família adoece junto. Eu fazia as sessões de quimioterapia e imunoterapia e ia para o consultório para que meus filhos não me vissem passando mal. Eu nunca chegava em casa ruim. Foi um período em que me senti bastante solitária", pontua.

Nem mesmo familiares próximos sabiam da dimensão da luta que travava. Enquanto cuidava dos pacientes, enfrentava os efeitos de 11 sessões de quimioterapia, um ano de imunoterapia e o avanço da doença.

Apesar dos tratamentos, o câncer continuou evoluindo. Hoje, Camila está em cuidados paliativos, termo que, segundo ela, costuma ser mal interpretado. "As pessoas acham que paliativo significa desistir, mas não é isso. É um tratamento para eu ter qualidade de vida enquanto continuo buscando alternativas", destaca.

Camila cuidou milhares de crianças e hoje luta para vencer o câncer
Apesar de cuidar de tantan gente, Camila adiou cuidados consigo mesma. (Foto: Arquivo Pessoal)

Recentemente, surgiu uma nova possibilidade. Após descobrir características específicas das células tumorais, ela passou a buscar acesso a pesquisas experimentais voltadas para tumores sólidos. Para isso, precisa passar por uma série de exames e avaliações médicas.

Foi nesse momento que uma amiga decidiu agir. "Minha vontade era continuar quietinha, colocar a doença numa caixinha e seguir a vida. Mas ela disse que eu precisava tentar", explica.

A exposição trouxe não apenas solidariedade, mas também críticas e comentários cruéis de pessoas que chegaram a questionar sua condição. Ainda assim, Camila prefere guardar outra imagem dessa fase, a das mensagens de carinho recebidas de mães, pais e pacientes que cruzaram seu caminho ao longo dos anos. "Percebi que todo bem que a gente faz volta de alguma forma", relata.

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