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Comportamento

Campo Grande é chata demais, ou você anda achando graça onde não deve?

Por Adriano Fernandes | 18/11/2015 06:23
Pedro Henrique Teixeira, de 21 anos, interpreta a personagem Pedrita nas manhãs da rádio Blink 102. (Foto: Marcos Ermínio)
Pedro Henrique Teixeira, de 21 anos, interpreta a personagem Pedrita nas manhãs da rádio Blink 102. (Foto: Marcos Ermínio)

Na semana que passou, um episódio envolvendo amigos em Campo Grande ganhou um tamanho que para muitos foi algo desproporcional, mas para outros serviu de lição de civilidade. A foto de 3 caras, em uma banheira de espumas, virou motivo de piadinhas e revoltou um dos envolvidos, que é gay. O caso nem vai ser muito detalhado aqui, porque as partes não querem dar mais pano pra manga, mas fez a gente pensar no seguinte: As pessoas estão mais chatas a cada dia, ou nós estamos rindo do que deveria ser levado a sério?

Então, imediatamente, pensamos em outra polêmica criada a partir de personagem que faz sucesso nas manhãs da cidade: a travesti Pedrita, do programa Café com Blink. Tem gente que ama, mas as pessoas que inspiraram o criador acham que já não cabe nos dias de hoje fazer chacota com transexuais.

Em tempos de politicamente correto, a patrulha por comportamentos que extrapolem os limites do aceitável, esbarra em uma das premissas do humor: a caricatura. Do gordo a “loira burra” , os estereótipos são diversos, mas os ligados ao segmento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis) são os mais exagerados.

Na última semana, o jornalista Paulo Victor, de 26 anos, enfrentou o constrangimento de ter uma foto divulgada via WhatsApp no Facebook. Com os dizeres “Banheira do Gugu – Antes da Crise e Depois da Crise”, o resultado, é óbvio, foi a enxurrada de gracinhas sobre homossexuais. 

Assumidamente gay e em uma relação estável, para ele cada piadinha serviu de agressão, como desde que se entende por gente. Paulo acredita que este tipo de “brincadeira” é na verdade reflexo de um preconceito velado. “As pessoas não se colocam no lugar das outras, sejam elas gays, gordos, negros... Antes de incentivar esse tipo de preconceito em forma de brincadeira”, argumenta.

Para Paulo, quando a exposição é virtual, as consequências são ainda piores. “As pessoas acham que a internet é terra de ninguém, sem saber a proporção que isso pode tomar. Mas existe quem ainda tire a própria vida devido a esta exposição. Além de ser um desrespeito”, desabafa.

Como é mesmo difícil entender o sentimento do outro, o que não faltou foi gente menosprezando a revolta de Paulo diante da repercussão e transformando a reação indignada dele em novas piadinhas.

Pedro deixa a cargo dos ouvintes, a definição de gênero da Pedrita. (Foto: Marcos Ermínio)
Pedro deixa a cargo dos ouvintes, a definição de gênero da Pedrita. (Foto: Marcos Ermínio)

Para quem ganha dinheiro com isso, tais brincadeiras são um artifício certeiro na hora de fazer rir, que em nome da liberdade não leva em consideração o desconforto das partes retratadas.

Sucesso nas manhãs da programação da rádio Blink 102, Pedrita é um talento no ar. A personagem de fala grossa e trocadilhos afeminados é interpretada pelo radialista Pedro Henrique Teixeira, de 21 anos, que tem tiradas muito boas na interação com o público.

No ar desde julho deste ano, Pedro conta que a inspiração foi o público gay, mas deixa a cargo do ouvinte o conceito sobre quem é a Pedrita. “As pessoas que definem. Muitos a consideram uma mulher, uma diva. Outros um gay, uma travesti engraçada e eu não nego. Cabe ao ouvinte interpretar da forma que quiser” ele disse.

Para ele, personagens que retratem o cenário LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis) têm mérito, quando a visibilidade é positiva. “A Pedrita usa das gírias, da extravagância para retratar o bom humor da cultura LGBT. Isso não é ofensivo, agrada e familiariza o público com um personagem alto astral” , avalia.

Para o comediante e ator Alex Figueiredo, cercear a liberdade de expressão de certa forma limita a criação. Mas o controle é necessário. “Alguns artistas não têm o cuidado de representar personagens travestidos, sem um estereótipo agressivo. Contanto que haja respeito e responsabilidade, sou a favor dos comediantes fazerem certas brincadeiras” afirmou.

Alex é ator de stand up, e criador das personagens Edmunda Claire, do programa Tamo Junto da FM 104 e a doutora Jxchanaína, do Fora da Casinha na rádio Jota FM.

Alex é ator de stand up e defende que os humoristas tem que ter um cuidado na hora de retratar determinados esterótipos.(Foto: Reprodução Facebook)
Alex é ator de stand up e defende que os humoristas tem que ter um cuidado na hora de retratar determinados esterótipos.(Foto: Reprodução Facebook)

Tudo isso pode parecer uma grande besteira, mas você acha graça quando falam da "nega do cabelo duro", "do boiola", "da sapata", "da baleia"? Então vale a pena ler o que movimentos sociais acham sobre os estereótipos, principalmente, do segmento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis), mas que servem para negros, gordos, gagos, cadeirantes, vesgos...

No caso específico dos homossexuais ou transgêneros, as entidades avaliam que esse tipo de arte limita muito a percepção sobre pessoas que querem trabalhar, se relacionar e produzir como qualquer outra. Só serve para reforçar a cultura homofóbica, que sempre retrata o LGBT como hiperssexualizado, exagerado, efeminado ou masculinizado demais, diz a educadora social da ATMS (Associação das Travestis e Transexuais de Mato Grosso do Sul), Carla Lopes Catelan.

“No humor, qualquer tipo de abordagem, seja em relação ao gay, ao travesti ou pessoa trans, é sempre estereotipada. Senão, não tem graça, não faz rir e isso já é ofensivo. O personagem é sempre o mesmo: a prostituta, a briguenta ou ignorante” afirmou.

Ainda segundo Carla, que é transexual, esse tipo de visão contribui para o preconceito que ainda existe na sociedade. “A população reproduz o que ela vê retratada na mídia. Nem todo homossexual é afeminado. Nem toda travesti é prostituta”, concluiu.

Perguntamos a Cris Stefanny, coordenadora de Políticas Públicas LGBT no município, se existiria uma maneira bacana de fazer comédia com personagens trans. "Não tem como, a começar que quem faz esses personagens não é trans, só finge ser de um jeito caricato". Ela aproveita para fazer um desafio: "Quero ver se essas rádios convidam uma travesti para fazer participações falando de assuntos sérios, como emprego, sexualidade..."

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O vídeo do canal Põe na Roda, retrata com bom humor, uma série de esteriótipos que não são unanimidade entre os gays. Assista: