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Campo Grande, Sábado, 17 de Agosto de 2019

21/06/2019 07:02

Depois dos 65, Aparecida concilia netos, EJA, inglês e sonha chegar à faculdade

Com ânimo, a aposentada conta de onde vem a disposição e porque não se deve desistir jamais.

Danielle Valentim
Minha força vem de Deus, garante Aparecida. (Foto: Kísie Ainoã)"Minha força vem de Deus", garante Aparecida. (Foto: Kísie Ainoã)

O dia de Aparecida Braga da Costa, de 65 anos, começa às 4h e quase sempre se encerra às 23h. A rotina recheada de tarefas exige um pique que muito jovem não consegue acompanhar. Depois de perder uma das filhas para o câncer de mama, a aposentada cuida de dois netos, retomou os estudos após 49 anos, participa de oficina de inglês, faz exercícios físicos e mantém alimentação saudável. O objetivo? Não desistir e cursar Serviço Social.

Neste mês, Aparecida foi convidada por professores a compartilhar seu dia a dia com os colegas. A garotada ficou de queixo caído e o Lado B foi saber o segredo.

“Tem dia que chega à tarde e eu penso: será que aguento até amanhã? Mas Deus renova minhas forças e eu começo de novo. Acordo às 4h, sou adventista do sétimo dia e meu dia só começa depois da minha comunhão. Às 5h, as crianças vão tomar banho e depois tomar café da manhã, enquanto me arrumo. Entramos no ônibus às 6h. Deixo eles na escola e sigo para minha aula”, conta.

Os netos de Aparecida na formatura do Ensino Fundamental. (Foto: Kísie Ainoã)Os netos de Aparecida na formatura do Ensino Fundamental. (Foto: Kísie Ainoã)

Os dois netos de 5 e 7 anos estudam na Escola Municipal Professor Arassuay Gomes de Castro e Aparecida faz o Ensino Médio no Ceeja (Centro De Educação de Jovens e Adultos Profª Ignes De Lamonica Guimaraes).

Aparecida é diabética, hipertensa e possui um quadro de anemia. Aposentada por hérnia na coluna, ela ressalta que a alimentação saudável que mantém ajuda para uma vida com mais ânimo.

Às terças e quintas, a filha caçula - de um total de quatro mulheres - fica com as crianças e Aparecida vai ao Centro de Convivência do Idoso “Vovó Ziza” para oficinas de inglês e memória. A aposentada fazia a hidroginástica, mas teve de suspender após o cloro infeccionar os dedos do pé. Para substituir a atividade na água, ela se exercita na academia ao ar livre.

Aparecida mostra orgulhosa as diversas notas dez em provas e seu lindo álbum de formatura do Ensino Fundamental.  (Foto: Kísie Ainoã)Aparecida mostra orgulhosa as diversas notas dez em provas e seu lindo álbum de formatura do Ensino Fundamental. (Foto: Kísie Ainoã)

Perda – Mas nem sempre foi tão corrido. As tarefas dobraram quando uma das filha morreu em novembro de 2018, vítima de câncer de mama. Cristiane Maria Braga da Costa, de 44 anos, deixou os dois filhos que hoje moram com Aparecida.

A descoberta da doença aconteceu em junho e em agosto Cristiane passou por uma cirurgia. Antes do início da quimioterapia, ela precisou de uma transfusão de sangue, pois suas plaquetas estavam muito baixas.

“Ela fez a primeira transfusão e foi tudo bem. Era uma quinta-feira eu estava lá para visitar. Naquele dia ela estava bem e chegou a comentou que o médico havia dito que se a segunda transfusão corresse bem ela já começaria a quimioterapia. Mas nesse intervalo, a visita acabou e eu tive que ir embora. No outro dia fiquei sabendo por uma colega de quarto da minha filha, que o sangue mal bateu na veia e ela já começou a passar mal. Depois disso ela não falou e nem andou mais. No domingo ela faleceu. Foi bem agressivo. Ela estava bem. Eu tive que aceitar. Se Deus permitiu era a hora”, conta Aparecida, bastante emocionada.

Depois de perder uma das filhas para o câncer, a aposentada cuida de dois netos e retomou os estudos após 49 anos.Depois de perder uma das filhas para o câncer, a aposentada cuida de dois netos e retomou os estudos após 49 anos.

Sempre foi um sonho – Aparecida sempre sonhou em terminar os estudos, mas teve de adiar os planos, aos 16 anos. Sua mãe era viúva e o irmão mais velho quem ajudava nas despesas. O familiar morava em uma fazenda e as chamou para morar com ele.

“Naquele tempo, minha mãe sistemática não me deixou ficar na cidade. Eu já trabalhava e minha patroa não queria que eu fosse embora porque eu cuidava do filho dela desde o nascimento. Ela prometeu me colocar na rede particular e chegou a pedir para minha mãe me deixar sob responsabilidade dela, mas não teve jeito, tive que ir. Quando voltei já tinha filho, já estava casada e não consegui mais retomar os estudos”, lembra.

A aposentada ressalta que sempre que visitava a filha Cristiane no Bairro Nova Lima passava em frente ao Ceeja e sonhava retomar os estudos naquela unidade. Foi dito e feito. “E estou aí, estudando. Vamos ver até onde eu consigo ir. Mas digo a todos, que não devemos desistir”, finaliza.

A aposentada mora na mesma residência há 20 anos, desde que o marido faleceu. Mãe de quatro mulheres, Aparecida também tem oito netos e um bisneto.

“Hoje mora minha filha caçula, que graças a Deus e ao seu esforço se formou em Direito, os dois netos e eu. Minha terceira filha chegou a passar dois anos morando aqui também, quando meu genro adoeceu. Tem quatro anos que ela se mudou”, conta.

Aparecida conta que os cuidados com as crianças ajudam ela e a filha caçula a não pensarem na perda da familiar. “Na frente deles eu tenho que me mostrar forte. Eles já ficam tristes, não posso mostrar minha tristeza. Fica dentro de mim”, diz.

Estudante exemplar, Aparecida mostra orgulhosa as diversas notas dez em provas e seu lindo álbum de formatura do Ensino Fundamental. Cristiane havia acabado de falecer, mas a aposentada somou forças para estar presente. “Só Deus sabe como eu estava”, finalizou.

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Aparecida e a filha Elen, a caçula. (Foto: Kísie Ainoã)Aparecida e a filha Elen, a caçula. (Foto: Kísie Ainoã)
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