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Comportamento

Ele escreveu pedindo visitas no Natal, mas a carta voltou e agora fica no bolso

Por Paula Maciulevicius | 18/12/2013 06:14
No bolso, cada palavra escrita reflete a saudade de um pai que só queria de presente de Natal, ter a família por um dia. (Fotos: Marcos Ermínio)
No bolso, cada palavra escrita reflete a saudade de um pai que só queria de presente de Natal, ter a família por um dia. (Fotos: Marcos Ermínio)

“É pra vocês duas que eu pego minha caneta para dar a notícia que vocês já sabem: Claudemir José das Neves veio até aqui e viu minha situação. Vai fazer três ou quatro anos que eu me encontro num asilo de idosos. O asilo é grande e quem toma conta é o São João Bosco. Minhas notícias são pequenas, desejo a todos vocês um Feliz Natal e um próspero Ano Novo. Espero que venham me visitar”. José das Neves.

A carta tem a data do dia 12 de novembro de 2013, endereçada a Margarida Lourenço das Neves e Claudete Laura das Neves, respectivamente ex-mulher e filha do ‘seo’ José. Aos 75 anos, ele teve um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e há quatro ou cinco anos, como descreve na carta, mora no asilo que leva o nome do ‘cuidador’, São João Bosco.

De Campo Grande a correspondência foi até a rua América Central, no Parque das Américas, em Mauá, São Paulo, mas voltou há 20 dias para o asilo com a observação dos Correios, de que não existe o endereço indicado. Desde então, a saudade expressa em palavras está no peito de José, guardada no bolso da camisa.

“Queria que elas viessem ou mandassem carta, eu sei que ela já casou e eu fiquei, mas não interessa isso. O que fica faz crescer, o que foi, vai”, poetiza.

José está na cadeira de rodas, fala devagar, porque as palavras já não obedecem a rapidez do pensamento, que permanece lúcido. Junto aos outros velhinhos, ele toma um ar num dos corredores do asilo, recordando os anos que ficaram para trás, levando para um passado a família que ele espera reencontrar.

José está na cadeira de rodas, fala devagar, porque as palavras já não obedecem a rapidez do pensamento, que permanece lúcido.
José está na cadeira de rodas, fala devagar, porque as palavras já não obedecem a rapidez do pensamento, que permanece lúcido.

Analfabeto, do próprio punho saiu apenas a assinatura do nome: José das Neves. O restante foi escrito pelo cuidador, a pedido dele, que se lembrou de mandar uma carta quando recebeu uma. “Um menino, que me viu uma vez, me escreveu esses dias, dizendo que não tinha nada para me dar, mas me mandava uma carta. Eu lembrei, quem sabe a minha filha não escreve alguma coisa? Uma coisa mínima de bom Natal e Feliz Ano Novo...”

Cada palavra, cada saudade, cada sentimento que vem à tona não faz lhe caírem lágrimas. Ele não mostra emoção em falar do assunto, talvez, por não acreditar que no Natal o bom velhinho lhe dê este presente, traga num passe de mágica, a família de volta. “A carta voltou, não encontrou ninguém”, diz, como se a título de consolo.

O último abraço foi dado no filho, Claudemir José das Neves, logo que ele teve o derrame. “Ele ficou uma semana aqui e foi embora. Os outros tinham que me levantar para eu abraçar ele”.

Ao ir embora, ele diz que o filho deixou apenas a carta de desquite. “De recompensa, por ter me achado”, considera.

José e a carta que guarda no bolso estão na avenida José Nogueira Vieira, 1.900, no asilo São João Bosco, esperando, quem sabe, o maior presente de Natal: entregar em mãos a carta à família.

“Eu estou aqui, não posso dizer que estou na minha casa, mas é o hospital São João Bosco”.

A carta tem a data do dia 12 de novembro de 2013, endereçada a Margarida Lourenço das Neves e Claudete Laura das Neves, respectivamente ex-mulher e filha do ‘seo’ José.
A carta tem a data do dia 12 de novembro de 2013, endereçada a Margarida Lourenço das Neves e Claudete Laura das Neves, respectivamente ex-mulher e filha do ‘seo’ José.
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