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Campo Grande, Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

01/08/2017 06:20

Ermínio disse adeus a laboratório após 40 anos de trabalho sem nunca ter faltado

Ele entrou com 18 anos e saiu semana passada, aos 57, com lição sobre responsabilidade

Eduardo Fregatto
Ermínio sempre foi um funcionário exemplar, pois pensava na necessidade dos que aguardavam os exames. (Foto: Marcos Ermínio)Ermínio sempre foi um funcionário exemplar, pois pensava na necessidade dos que aguardavam os exames. (Foto: Marcos Ermínio)

Ermínio tinha 18 anos quando terminou o curso de Patologia Clínica, no Dom Bosco, e foi aprovado para trabalhar no Laboratório Central Municipal, em seu primeiro emprego com carteira assinada. O ano era 1979. Ele lembra até hoje quando a médica responsável, hoje já falecida, juntou seus documentos e falou: "Pronto, agora é só trabalhar!".

Passados 37 anos, Ermínio Cáceres, hoje aos 57 e pai de dois filhos, ainda estava trabalhando. O emprego era o mesmo, apesar de o laboratório ter mudado de sede algumas vezes. Na semana passada, após quase quatro décadas, o técnico em laboratório de análises clínicas se aposentou, para a tristeza dos colegas.

"É um filme que passa na sua cabeça. A gente se emociona mesmo", diz Ermínio, sobre as lágrimas que escaparam durante a festinha de despedida. "Lembrei de todas as pessoas com quem trabalhei, que já até se foram. Meu pensamento foi lá para o comecinho. Pensei, 'puxa vida, faz 37 anos, mas parece que foi ontem'".

Ermínio, há muitos anos, trabalhando no Laboratório. (Foto: Acervo Pessoal)Ermínio, há muitos anos, trabalhando no Laboratório. (Foto: Acervo Pessoal)

Ermínio sempre foi um funcionário exemplar. Era para eles que os funcionários mais novos sempre recorriam, pedindo ajuda, conselho e orientações. "Recebi muitas mensagens de pessoas agradecendo por eu sempre ter ajudado", conta.

Ele vivia para o trabalho. "Nunca tive uma falta! Só tive duas licenças, de dois dias cada, por problemas de saúde. Eu sabia que tinha que estar ali. Já precisei muito da saúde, de hospital, de médico. Então sempre pensei naquela pessoa que vai receber os exames, no posto, que está precisando", reflete.

A rotina de trabalho era tão intensa que ele chegava a fazer 14 plantões por mês. Quando não fazia, acabava acordando no meio da madrugada, de tão acostumado que estava. "Até meu aniversário eu passei trabalhando. Sei que minha família precisou de mim, mas eu dizia para eles, é uma causa justa, o meu trabalho, eu vou porque tem gente precisando", analisa.

Nos longos anos que passou no laboratório, ele recorda de períodos como o aparecimento da Aids. "Não podia nem encostar no paciente soropositivo. Mas eu lidei naturalmente, sempre tratei com naturalidade. Afinal, o laboratório sempre foi um espaço de risco para contaminação de várias doenças, como hepatites. Sempre tivemos que nos proteger, era a mesma coisa". Também recorda de quando a vacinação era feita por mutirão, nas ruas, com os técnicos caminhando a pé, de casa em casa.

Ermínio viu toda a evolução dos equipamentos e procedimentos. Lembra da época em que os exames eram feitos de maneira manual. "A gente misturava um reagente aqui e outro ali, para chegar ao resultado. Hoje é tudo com equipamentos de última geração, você faz até 700 exames em 5 horas".

A festinha de despedida feita para Ermínio, que vai deixar saudades. (Foto: Acervo Pessoal)A festinha de despedida feita para Ermínio, que vai deixar saudades. (Foto: Acervo Pessoal)

Quando começou a trabalhar, o Laboratório ficava no local onde hoje existe a Orla Morena, perto do monumento Cabeça de Boi. Eram outros tempos, ele diz, com mais tranquilidade, antes da cidade e da população crescerem tanto.

O que mais sensibilizava o técnico eram as crianças, que chegavam muitas vezes em situação de desnutrição, anêmicas, muito doentes. "Sempre me deixava refletindo, as crianças", pontua. "Atualmente era mais difícil ver crianças desse jeito, felizmente".

Ermínio também realizava coletas de sangue. Nem tem ideia de quantas pessoas já tirou sangue nesses anos todos, mas conta que o medo da agulha é algo que nunca mudou. "É impressionante", ele conta. "As vezes chegava uma criança e você colhia o sangue numa boa. Depois, vinha um cara forte, grande, você botava fé, mas ele desmaiava. Esse pavor pela agulha é impressionante".

Agora, aposentado, Ermínio quer aproveitar para curtir um pouco a família. Ainda está se acostumando com a sensação de poder dormir sem precisar acordar para o plantão. "Acho que a ficha ainda não caiu", avalia. "Mas sinto que eu cumpri minha missão".

Ele vai ficar uns meses em casa, ter um merecido descanso e momentos mais perto de quem ama, mas promete que ainda volta para algum laboratório. "Tenho muita lenha para queimar". Por fim, ele agradece a todas as pessoas com quem conviveu no trabalho, que ele chama de segunda família. "A gente discute, brinca, faz parte de uma família mesmo. Só posso agradecer porque aprendi com essas pessoas o caminho da responsabilidade e levo isso na minha vida até hoje".

E deixa um conselho para os mais jovens: "Quando uma pessoa falar que a vida passa rápido, acredite, realmente passa", finaliza.

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