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Comportamento

Expulso de seminário, Geraldo debate negritude por onde passa

Morando em Fátima do Sul, ex-seminarista negro expulso de congregação na década de 80 agora debate negritude na religião

Por Lucas Mamédio | 12/07/2020 07:11
Geraldo era um dos únicos negros no seminário no Rio Grande do Sul (Foto: Arquivo Pessoal)
Geraldo era um dos únicos negros no seminário no Rio Grande do Sul (Foto: Arquivo Pessoal)

A Igreja Católica é a maior igreja cristã do mundo. De tradição milenar, dotada de uma série de vertentes teológicas dentro de sua organização interna, lida com conflitos de pensamentos que, às vezes, levam ao rompimento com essa tradição.

No último dia de 7 de julho, um dos maiores jornais do país, a Folha de São Paulo, publicou uma matéria especial sobre a prática recorrente de racismo dentro da Igreja Católica no Brasil.

Geraldo mora hoje em Fátima do Sul, onde entrou para a política (Foto: Arquivo Pessoal)
Geraldo mora hoje em Fátima do Sul, onde entrou para a política (Foto: Arquivo Pessoal)

Um dos exemplos principais da reportagem é do ex-seminarista, teólogo e professor universitário José Geraldo Rocha, morador de Fátima do Sul, próximo a Dourados, no sul do Estado. O Lado B conversou com Geraldo, que contou como sofreu na pele e por causa da pele as consequências do racismo praticado por alguns membros da igreja.

Nascido no interior de Minas Gerais, de família religiosa, como é muito comum no estado mineiro, Geraldo se mudou para Palotina no Paraná, aos quatros anos de idade junto dos pais, que faziam serviços rurais em roças. Uma família simples.

Nos anos 70 ingressou no seminário da cidade paranaense por vontade do pai. “O padre responsável queria, na verdade, levar um irmão meu mais velho, mas meu pai insistiu para que eu fosse, pois era muito fraco para trabalhar na roça, vivia adoentado, pouco ajudava (risos)”.

No final desta mesma década foi para o Rio Grande do Sul fazer o ensino médio no distrito de Vale Vêneto numa também numa escola de estudos teológicos. “Depois fui para o colégio Máximo em Santa Maria (também RS) estudar filosofia e teologia. Nesse período fui para Buenos Aires e fiquei lá até completar meus estudos, em 1986”.

Geraldo na época de seminário, na década de 80, com dois amigos (Foto: Arquivo Pessoal)
Geraldo na época de seminário, na década de 80, com dois amigos (Foto: Arquivo Pessoal)

E também foi nesse período que tudo “desandou”, segundo Geraldo. “Éramos apenas três negros no meio de 90 alunos, eu ingressei então nos grupos de estudo da negritude, nas comunidades eclesiásticas de base e me filiei ao Partido dos Trabalhadores. Esses espaços deram impulso para participar de algumas lutas, que começaram a causar desgaste com os coordenadores do seminário”.

Toda a teoria que embasava e ainda embasa as ideias progressistas dentro Igreja Católica, advêm da teologia da libertação, corrente teológica cuja tradição vê como dever primordial do cristianismo, e da fé como um todo, a promoção da igualdade social.

“A teologia da libertação era muito mal vista pela equipe de formação do seminário. Chegou um ponto que era inviável minha ordenação. E em 86 terminei meus estudos e fui “convidado” a me retirar.  A gota d'água foram os nossos questionamentos acerca”.

Geraldo relata vários episódios de discriminação que sofreu dentro do seminário. “Quando comecei a mudar de comportamento, me chamavam de “revoltado”, desdenhavam das minhas ideias”.

Geraldo iniciou os estudos sobre negritude durante o seminário (Foto: Arquivo Pessoal)
Geraldo iniciou os estudos sobre negritude durante o seminário (Foto: Arquivo Pessoal)

Geraldo diz que o modo como exercem o processo de formação da teologia católica é uma teologia eminentemente embranquecida. “Várias congregações enviaram sacerdotes negros para irem à África, mas com os mesmos vícios e erros cometidos aqui no Brasil colonial, de tentar evangelizar os povos africanos lá, sem respeitarem suas crenças locais. Eu já fui à África e vi horrores cometidos por padres e sacerdotes”.

Após a decepção da não ordenação, o professor Geraldo foi para o Rio de Janeiro e, por meio de um amigo, conheceu um dos maiores teólogos da teologia da libertação, Leonardo Boff.

“No Rio, logo no começo, eu descobri em contato com outros colegas seminaristas negros que se houvesse a tentativa de discussão da negritude em outros seminários, eles também eram descriminados pelos colegas e padres”.

Professor se formou, deu aula em universidade e ficou na cidade carioca até 2019 por uma dessas coincidências do destino, veio parar em Fátima do Sul. “A escolha por Fátima foi interessante. Escolhi por conta do meu tempo de seminário no RS. Fazíamos encontros de amigos da época, e um encontro foi aqui (em Fátima) gostei da cidade e a coloquei no meu rol de opções depois que saísse do Rio. Bom, aqui estou com minha esposa e filhos”.

Quase com 62 anos, professor Geraldo é pré-candidato a prefeitura de Fátima pelo PT. Ele alega que apesar de católico, hoje pratica sua fé de forma diferente.

“Tenho estado bastante distante dessa prática cotidiana tradicional na Igreja Católica. Ela tem uma pluralidade de ideias, não faz sentido praticar uma fé que não tenha compromisso com os mais necessitados”.

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