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Campo Grande, Quarta-feira, 26 de Junho de 2019

03/06/2019 08:08

Filho partiu aos 19 anos e ensinou à mãe que ninguém é super-herói nessa vida

Flaviani conta como foi se reconstruir, após perder o filho que ela acreditava ter uma vida inteira pela frente

Thailla Torres
Melhores amigos, mãe e filho viveram muitas histórias e isso faz Flaviani se reerguer todos os dias. (Foto: Kísie Ainoã)Melhores amigos, mãe e filho viveram muitas histórias e isso faz Flaviani se reerguer todos os dias. (Foto: Kísie Ainoã)

Na manhã de uma terça-feira de 2017, Felipe saiu da faculdade combinando um almoço junto com a mãe e depois pretendia seguir para entrevista de emprego. O estudante saiu de moto da universidade e o desfecho foi um acidente gravíssimo. Passados 2 anos, a mãe apresenta o filho usando fotografias. A tragédia o levou cedo demais, acabando com os sonhos de uma vida inteira pela frente. Voltar a fazer planos depois disso, não é desafio fácil, mas os passos são compartilhados pela mãe hoje no Voz da Experiência, aqui no Lado B.

“Eu penso que o Felipe veio e cumpriu o tempo certo dele. Foi meu primeiro filho, sonhado, desejado, de uma gravidez tranquila, e parece que quando ele partiu sem deixar nada para trás, isso é o que me conforta”, descreve Flaviani Barbosa Araujo, de 45 anos, hoje, acadêmica de Psicologia.

“O jovem acha que é super-herói. E nós (pais) achamos que tudo pode acontecer com o outro, mas nunca conosco”. (Foto: Arquivo Pessoal)“O jovem acha que é super-herói. E nós (pais) achamos que tudo pode acontecer com o outro, mas nunca conosco”. (Foto: Arquivo Pessoal)

No entanto, é ela quem conduz a narrativa que traz à tona a dor que se instaura no peito de uma mãe ao lembrar que perdeu um filho para um acidente de trânsito, depois de tantos avisos e pedidos para ele ir devagar. Como parte da superação que Flaviani constrói dia após dia, ela acredita que a morte de Felipe precisa ser um alerta para outros jovens e também famílias.

“O jovem acha que é super-herói. E nós (pais) achamos que tudo pode acontecer com o outro, mas nunca conosco. Uma das últimas conversas com ele foi sobre isso. Mas ele tinha mesmo sentimento de ser super-herói, sei disso porque também fui jovem e só com a maturidade a gente enxerga isso”, explica.

Felipe nasceu, se criou e foi sepultado em Campo Grande, fazia a faculdade que gostava, “Fisioterapia”, e não tinha medo de aventuras. Também era apaixonado por Beatles e mantinha o quarto sempre de porta aberta para as melhores conversas.

“Domingo era muito legal, ele estava em casa e a namorada dele vinha para cá. Eu esperava algum movimento no quarto para bater na porta e a gente deitar todo mundo na cama para ficar dando risada. Eu e o Felipe conversávamos sobre absolutamente tudo, política, atualidades e até extraterrestres”, lembra.

Felipe também amava andar de bicicletas. (Foto: Arquivo Pessoal)Felipe também amava andar de bicicletas. (Foto: Arquivo Pessoal)

Um filho amoroso que nunca deixou de dar um abraço, dizer eu te amo e falar o que sentia. Talvez, por isso, lembrar que o filho partiu seja menos doloroso hoje em dia. “Há dias que eu percebo que eu estou bem, mas há momentos que eu não quero nem abrir o olho. Na semana passada fez 2 anos que ele morreu, hoje, falar da morte ficou mais fácil”.

Flaviani é cheia de vida, não só pela saúde, mas pelo jeitinho rápido de falar e o sorriso que nunca sai do rosto. Parecem raros os minutos de lágrimas e essa alegria constante é que a inspira todos os dias a seguir em frente. 

“Eu era uma mulher que planejava tudo, nos mínimos detalhes, e ficava doida quando as coisas saíam fora dos planos. Eu achava que tinha controle de tudo. E o acidente, por mais triste que ele seja, me ensinou que que eu não tenho o controle das coisas. Parece que o Felipe me ensinou muito isso, que a grande sacada, ao invés de só querer planejar, é dar valor a tudo e a todos que estão ao meu lado”, descreve.

Felipe partiu aos 19 anos deixando lição de amor para mãe. (Foto: Arquivo Pessoal)Felipe partiu aos 19 anos deixando lição de amor para mãe. (Foto: Arquivo Pessoal)

O dia triste - Felipe morreu no dia 30 de maio de 2017, depois de sair da Universidade Católica Dom Bosco, perder o controle e ficar preso embaixo de um ônibus. Flaviani arrumava a mesa do almoço quando percebeu o atraso. “Às 11h30 decidi pegar o celular para mandar uma mensagem para ele. O “oi” chegou, mas ele não leu. Logo em seguida, entrei em um grupo do WhatsApp e estavam falando que havia um acidente feio na Tamandaré. Abri a foto e vi o capacete dele”, lembra.

Flaviani, o pai de Felipe e alguns amigos da faculdade foram para Santa Casa. Quando a ambulância chegou, o olhar da mãe cruzou com o do filho, que ainda estava consciente. “Eu não tinha nada de informação do acidente, mas vi que ele estava muito pálido, os braços estavam quebrados e quando ele entrou foi a última vez o que vi acordado”.

A mãe lembra de um sentimento estranho no peito. “Era de que não teria futuro. Naquele momento, eu não me via mais pertencente ao mundo do Felipe e, às 15h20, mandaram nos chamar. Havia um paredão de funcionários e médicos que começaram a falar da gravidade do acidente e terminaram dizendo que ele não tinha resistido”.

Recomeço - Daquele dia em diante Flaviani decidiu que precisava ficar bem. “Queria que essa dor passasse, mas foi um engano. A saudade nunca passa”.

Dois anos após a morte do filho, Flaviani finalmente encontrou um jeitinho de reconstruir a vida. “A saudade é um sentimento e dor é física. Mas o amor que eu tenho pelo Felipe são proporcionais a essas duas coisas, então quando eu entendi isso, parece que tudo ficou mais leve e me fez agradecer pelos 19 anos que ele viveu comigo”.

O que ficou de quem partiu para a mãe foi o amor e lição de que ninguém é super-herói nessa vida. “Durante muito tempo fiquei pensando que, se fosse dada a oportunidade de ele ficar comigo novamente e falecer aos 19 anos, sem dúvidas, eu faria tudo de novo, pelo amor que nós tivemos e pelo amor que soubemos dar um para o outro. Só tenho a agradecer ao meu filho”.

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