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Campo Grande, Sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2020

19/01/2020 09:11

Fiscalização no corpo alheio começa ainda na infância, com o desfralde forçado

Uma das primeiras regras que a sociedade impõe ao outro vem com a pergunta: "mas ele ainda usa fralda?"

Paula Maciulevicius Brasil
Fiscalização no corpo alheio começa ainda na infância, com o desfralde forçado

A fiscalização sobre o que o outro faz com o próprio corpo vem desde cedo. Muito antes das preocupações alheias a respeito do que vestir, do peso, ou mesmo de com quem a pessoa dorme. Ouso dizer que existe uma classe específica de palpiteiros: os fiscais que pregam o desfralde a todo e qualquer custo. Não sei de onde veio a ideia de que criança tem que deixar de usar fralda com tal idade. Desde que a tal "norma" foi ditada, é só ladeira abaixo. Escola que tenta impor e até "chá de desfralde" estão no hall de absurdos que a gente ouve.

Quem está lendo aqui pela primeira vez, reforço: esta coluna se trata meramente da opinião da autora. Não é uma recomendação, mas um convite à reflexão que uma jornalista mãe de dois vem propor.

O tema já está me rondando porque começo a entrar na "idade" de desfraldar. Isso só porque meu filho mais velho caminha para os 2 anos. Navegando pelas redes sociais, me aparece no feed uma postagem de uma mãe. Na verdade era um desabafo de quem, ao trocar o filho no banheiro de um supermercado, ouviu de uma total desconhecida a indagação - cheia de julgamentos - "deste tamanho e ele ainda usa fralda?"

Érika Martins tem 30 anos, é enfermeira e mãe de João Pedro e Gabriel Davi. Quando Gabriel tinha 2 anos e 3 meses ela começou a perceber sinais de que ele já conseguia controlar a vontade de fazer xixi. "Colocava ele no vaso, ele fazia, aí comecei a deixar ele mais tempo sem a fralda". No entanto, na hora do coco, o menino travava. "Ele não queria fazer, chorava, e como ele tem intestino ressecado, então é pior ainda ficar sem fazer. Eu não me importo dele fazer coco na fralda", diz.

No dia da intromissão dentro do banheiro do supermercado, a mãe narra que já estava fragilizada porque o filho estava doente, com infecção intestinal. "Aí vem uma pessoa desconhecida e fala que seu filho é grande demais para usar fralda? Acho que eu nunca tinha passado por uma situação assim, de uma pessoa desconhecida se meter e aquilo me incomodou bastante", conta Érika. 

Gabriel é grande, "gordinho" - como a mãe o descreve - e aparenta ter mais idade. Mas, mesmo que fosse o contrário, não dava a ninguém o direito de interferir. "Por isso a resposta que eu dei foi: 'deste tamanho, mas ele ainda tem 2 anos e 9 meses'", reproduz.

Quando quero escrever alguma polêmica recorro à psicóloga que muito me apoia (particularmente e profissionalmente), Keyth Gimenes de Barros, da Matre Espaço Terapêutico. E ela é quem afirma categoricamente que não existe uma idade certa para iniciar o processo de desfralde. 

"É um marco do desenvolvimento da criança, da independência, que causa medo na criança e também na família. A gente não trabalha com uma idade. O que precisamos saber é que cada criança tem seu tempo e precisa passar por essa fase de uma maneira", explica Keyth.

A psicóloga exemplifica que existem crianças com 1 ano e meio ou 2 anos que já faz xixi e coco e avisa, dando indícios de que está percebendo o processo. Por outro lado, há também os pequenos que só o reconhecem com 2 ou 3 anos. 

Temos que levar algumas coisas em consideração quando se fala do desfralde: a criança tem que saber o que está acontecendo, tem que reconhecer que ela está produzindo aquilo. Ela, geralmente, começa a avisar que fez e podemos interpretar esse sinal como a possibilidade de iniciar o processo. O que não quer dizer que a fralda saia de cena e imediatamente entre a calcinha ou a cueca. Porque pode ser que a criança vá regredir e, se você perceber que sistematicamente esta criança está fazendo xixi e coco nas roupas, coloque a fralda de volta e relaxe. 

"Muitas vezes se força um desfralde, uma etapa, e a gente vai ter outras consequências bem mais graves, porque essa criança vai começar a reter. Eu entendo que muitas vezes as famílias são cobradas, mas a gente tem que entender o tempo da criança também", ressalta a psicóloga. 

Quando a criança passar a avisar que já fez ou vai fazer, ainda que não dê tempo de chegar ao banheiro, este pode ser o momento da família ecolher usar o penico ou redutor, comprar e já colocar no lugar do banheiro e mostrar como se usa. O pai mostra como ele faz xixi, a mãe também. "É importante que o adulto mostre para a criança como fazer. Se a família optar por redutores é sempre legal ter um banquinho ou escadinha para que a criança consiga acessar de maneira independente e também ter uma base no chão para firmar os pezinhos. Isso dá segurança", recomenda Keyth.

Os pequenos também precisam se sentir familiarizados com os novos objetos, mas, principalmente, receber acolhimento dos pais, quando houver escapes. "A família precisa cuidar para não pegar pressão e responsabilidade de outras pessoas. É muito importante estar atento e veja se o pequeno tem condições de iniciar", frisa.

Pode até ser que na pressão a criança desfralde, no entanto, fazer isso por medo pode gerar reflexos futuros indesejáveis para o seu desenvolvimento. O ideal é que se compre calcinhas e cuequinhas e, acima de tudo, que se encare o processo da maneira mais leve possível, respeitando o ritmo dela. Não compare seu filho com o primo ou filho da vizinha. Cada criança tem seu tempo

"E uma dica que dou é para que se comemore com a criança cada conquista. É tão importante que os comportamentos bons sejam reforçados. Porque a gente fica tanto no "não", "não pode", "está errado", destaca.

Para cada coco ou xixi no vaso, bata palmas, comemore, abrace e diga como você ficou feliz com aquela conquista dos seus filhos. Curta o Lado B no Facebook e no Instagram. Tem uma pauta bacana para sugerir? Mande pelas redes sociais, e-mail: ladob@news.com.br ou no Direto das Ruas através do WhatsApp do Campo Grande News (67) 99669-9563.

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