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Comportamento

Fofo partiu de repente, mas deixou 43 anos de amor e legião de amigos

José morreu aos 73 anos, e a esposa e as filhas ficaram com a saudade de quem fez do cuidado seu jeito de amar

Por Thailla Torres | 31/08/2026 06:43
Fofo partiu de repente, mas deixou 43 anos de amor e legião de amigos
José ao lado das filhas, Joseli e Josélia, e de Joselina, o grande amor de sua vida. (Foto: Arquivo Pessoal)

Quando José Pereira morreu, há pouco mais de um mês, as filhas Joseli e Josélia descobriram que conheciam muito do pai, mas não conheciam todas as vidas que ele havia tocado. No velório, entre familiares e amigos próximos, começaram a aparecer rostos que elas nunca tinham visto. Gente da igreja, da academia, antigos inquilinos, vizinhos, comerciantes e pessoas que, de algum jeito, haviam cruzado o caminho daquele homem de 73 anos que conversava com todo mundo.

Alguns chegavam chorando. E, em meio à própria dor, a família se pegava perguntando quem eram aquelas pessoas.

“Até inquilino chorou no velório dele”, conta Joseli, entre o riso provocado pela lembrança e a saudade que ainda interrompe a conversa. “Tinha gente que a gente nem conhecia.”

Talvez aquela multidão explicasse um pouco quem foi José Pereira, embora quase ninguém o chamasse assim. Para muita gente, ele era simplesmente Fofo.

O apelido nasceu por tabela e virou definitivo. Joselina, a esposa, era chamada de “Fofa”, uma brincadeira que veio de “fofoqueira”. Se ela era a Fofa, alguém concluiu que o marido só poderia ser o Fofo. O nome pegou. E combinou tanto com José que acabou parecendo ter sido inventado para ele.

Fofo era daqueles que sabiam das notícias do condomínio, conheciam porteiros, vizinhos e funcionários e sempre voltavam para casa com alguma história. “Era o jornalista do bairro”, brincam as filhas.

Mas, antes de ser o Fofo de tanta gente, José foi o grande amor da Fofa.

Os dois se conheceram ainda jovens, em Rio Verde (MS). José tinha por volta de 18 anos e servia ao Exército. Houve baile, dança e uma paquera, mas Joselina não queria casamento naquele momento. Ela estudava, trabalhava e tinha outros planos. José, ao contrário, já queria casar.

A vida tratou de separá-los por cerca de uma década. Quando se reencontraram em Campo Grande, Joselina estava com 29 anos. Dessa vez, ficaram juntos. Vieram o casamento, as duas filhas e 43 anos de uma vida compartilhada.

“Ele saía, ele me levava. Não saía sem eu”, lembra Joselina. Se ela dizia que tinha algo para fazer em casa, ele insistia: “Não, vamos. Depois você faz isso aí”.

Fofo partiu de repente, mas deixou 43 anos de amor e legião de amigos
José curtindo a praia com Joselina em uma de suas viagens (Foto: Arquivo pessoal)

Não houve separação nem grandes rompimentos em mais de quatro décadas. Havia rotina, trabalho e um companheirismo que, agora, aparece nas pequenas coisas que fazem falta. José cozinhava, servia a comida da esposa, descascava laranja, resolvia o celular dela, consertava o que quebrasse e estava sempre por perto.

“Ele fazia tudo para minha mãe. Absolutamente tudo”, resume Joseli.

As filhas até brincavam com o excesso de zelo. “Mãe, para de mandar meu pai fazer tudo para a senhora. Depois ele morre, você vai fazer o quê?”, Joseli dizia. Mas não era exatamente Joselina quem mandava. Fofo gostava de servir o grande amor da vida dele. Agora, parte desse cuidado passou para as filhas.

Antes da vida no comércio, José também viveu a música. Tocava baixo, guitarra, cantava e integrou grupos, entre eles Os Matuchos, projeto do qual participou desde os primeiros anos da vida em família. Mais tarde, também tocou no Fandango de Fronteira. A música nunca desapareceu completamente. Quando passou a frequentar a igreja evangélica, em 2012, levou para lá também o instrumento e o gosto de tocar.

Fofo partiu de repente, mas deixou 43 anos de amor e legião de amigos
José quando tocava com o grupo Os Matuchos (Foto: Arquivo Pessoal)

Mas foi atrás do balcão que muita gente em Campo Grande conheceu Fofo. Por mais de 30 anos, ele manteve comércio na Rua Presidente Dutra, no Monte Castelo. A pequena mercearia cresceu, virou mercado e, depois, conveniência.

O balcão também funcionava como ponto de conversa. Havia quem entrasse para comprar alguma coisa e ficasse por causa de José.

“Todo mundo falava do atendimento do meu pai. Às vezes, as pessoas iam lá mais para conversar com ele”, lembra Joseli.

José havia estudado somente até a quarta série, mas fez questão de que as duas filhas fossem muito além. Trabalhou cedo, dormiu tarde, acordou muitas vezes de madrugada e construiu, ao lado de Joselina, as condições para que elas estudassem. Uma se tornou juíza. A outra, psicóloga, estudou na Universidade Federal, aprendeu outros idiomas e foi morar fora do Brasil.

“Uma pessoa não precisa ter dinheiro. Precisa ser honesta, ser correta e ter força de vontade. Nós copiamos dele essa garra”, diz Josélia.

Honestidade, aliás, era uma regra simples dentro de casa. Se alguém recebesse um centavo a mais, deveria devolver. “Se não for de vocês, devolvam”, ensinava.

Fofo partiu de repente, mas deixou 43 anos de amor e legião de amigos
Joseli, José e Joselina durante viagem aos Estados Unidos.

Depois da morte, ao lidar com imóveis e outros negócios deixados pelo pai, as filhas voltaram a ouvir a mesma frase de diferentes pessoas: “O Zé era um homem de palavra”.

Mas talvez o traço que mais impressione as duas seja outro: José parecia ter espaço para todo mundo. Ele entrou para uma igreja evangélica, mas as filhas o descrevem como alguém distante de julgamentos e preconceitos. Conseguia discordar sem deixar de ouvir e amar sem exigir que o outro fosse parecido com ele.

“Meu pai conseguia amar. Nós somos opostas, minha irmã e eu, e ele conseguia amar as duas na mesma intensidade e respeitar as duas da mesma forma”, diz Josélia.

Com a outra filha, que é vegana, o cuidado aparecia até quando ela não estava presente. Se José ia a uma churrascaria, perguntava se havia opção vegana. Explicava que tinha outra filha e queria saber se, quando voltasse com ela, haveria algo que pudesse comer.

“Ele conseguia estar comigo, me amar naquele momento, mas não deixava de pensar nela e na necessidade dela. Era genuíno.”

Fofo partiu de repente, mas deixou 43 anos de amor e legião de amigos
Joselina, Josélia e José em momento carinhoso durante ensaio. (Foto. Arquivo Pessoal)

Também era assim nas amizades. Josélia se lembra de uma época em que dava aulas na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), em Aquidauana. Para que a filha não precisasse voltar sozinha dirigindo à noite, José ia de ônibus até a cidade e retornava ao volante com ela. Às vezes, passava horas sentado no campus esperando a aula terminar. A preocupação da filha era outra: o pai fazia amizade com qualquer pessoa.

“Eu falava: ‘Pai, o senhor não fica dando muita conversa, não, que é perigoso’.”

Não adiantava. Certa vez, Josélia chegou à casa dos pais e encontrou um homem que reconheceu das proximidades da universidade. José já havia feito amizade com ele. O novo conhecido tinha ido até sua casa levar carvão. “Não tinha como”, ela ri.

Com Joseli, a conversa era diária. Muitas vezes, duas ligações por dia, uma na ida e outra na volta do trabalho. Falavam de tudo: trabalho, futebol, relacionamento, problemas e decisões. “Eu perdi meu melhor amigo. Conversava com ele absolutamente tudo.”

A última ligação durou cerca de 30 minutos. Naquele dia, nada indicava que a família estava prestes a se despedir.

Fofo partiu de repente, mas deixou 43 anos de amor e legião de amigos
Uma das últimas mensagens de José no grupo da família foram momentos com a esposa. (Foto: Arquivo Pessoal)

José passou a tarde ajudando uma irmã a fazer sabão. Voltou para casa por volta das 17h30, tomou banho, resolveu pequenas coisas e preparou o jantar. Serviu a Joselina uma torta de atum que havia feito pela manhã, acompanhada de salada. Depois, descascou uma laranja para ela, como fazia todos os dias. Mais tarde, preparou chá de erva-doce para os dois.

Assistiram ao Jornal Nacional e ao Jornal da Cultura. José ficou no sofá olhando vídeos sobre instalações e consertos de casa no celular, outra paixão de quem sabia mexer em praticamente tudo.

Quando Joselina avisou que iria dormir, perguntou se ele não iria também. “Não, agora não. Estou acabando de olhar isso daqui”, respondeu.

Ela foi ao banheiro. Quando voltou, viu José fazer um movimento com o braço e imaginou que estivesse se espreguiçando. “Zé, o que foi?” Ele já não respondeu.

Tudo aconteceu em poucos minutos. Vizinhos apareceram, entre eles profissionais de saúde. O Samu chegou e houve tentativa de reanimação, mas José morreu ali, dentro de casa, após um dia absolutamente comum.

A suspeita foi de um infarto fulminante. A surpresa foi ainda maior porque, meses antes, ele havia passado por exames cardíacos, inclusive cateterismo.

Josélia estava no interior da Bahia. Joseli, fora do Brasil. Amigos das duas correram para amparar Joselina enquanto as filhas tentavam voltar para Campo Grande. O velório foi adiado para que a família pudesse estar reunida.

Foi então que começaram a chegar todas aquelas pessoas. A professora da academia. Gente da igreja. Vizinhos. Antigos conhecidos. Inquilinos e ex-inquilinos. Pessoas que José havia ajudado ou simplesmente parado para ouvir em algum momento dos seus 73 anos.

O tanto de gente na despedida parecia confirmar aquilo que as filhas já sabiam dentro de casa: Fofo não precisava que alguém fosse igual a ele para gostar dele.

Fofo partiu de repente, mas deixou 43 anos de amor e legião de amigos
José com a família no casamento de uma das filhas (Foto: Arquivo pessoal)

A morte interrompeu também planos que já estavam prontos. José tinha passagem comprada para viajar aos Estados Unidos. A ideia era passar uma temporada com a filha e fazer uma viagem de carro até a Flórida e a cidade de Memphis (TN), marcada pela história de Elvis Presley, uma escolha que tinha tudo a ver com aquele homem apaixonado por música.

Duas horas antes de morrer, às 19h41, José ainda enviou fotos no grupo da família. Eram lembranças de viagens. Em uma, aparecia com Joselina na praia, na Califórnia. Em outra, revisitou uma viagem pela Chapada Diamantina. Pouco depois das 21h, ele se foi.

Para as três mulheres que ficaram, existe uma dor enorme, mas não há a sensação de uma vida adiada.

“Nós três não temos nenhum tipo de arrependimento. Ninguém deita no travesseiro com o sentimento de que alguma coisa faltou fazer. O que a gente está vivendo é saudade mesmo”, diz Josélia.

Elas viajaram juntas, comemoraram aniversários, passaram Natais, fizeram trilhas e disseram o que precisava ser dito. José conheceu lugares, esteve com as filhas e viveu o casamento que desejava desde jovem.

Por isso, quando perguntam a Joselina o que ficou depois de 43 anos ao lado dele, a resposta não precisa de explicação. “A falta dele. Muito, muito mesmo.”

E quando perguntam se José foi o amor de sua vida, ela responde com a simplicidade de quem não precisa pensar: “Foi. O amor da minha vida.”

Joseli escolhe outra palavra para resumir o pai: honestidade.

Josélia escolhe saudade.

Talvez as três respostas contem a mesma história. Fofo passou a vida cuidando, conversando, trabalhando, consertando coisas, fazendo amigos e servindo quem amava. Partiu sem aviso e deixou uma viagem por fazer, uma cadeira vazia, tarefas que agora alguém precisará aprender a resolver e a estranha sensação de que, a qualquer momento, a porta ainda pode abrir.

Mas deixou também algo que a família considera um privilégio: nenhuma dívida de afeto.

“Eu acho que ele merece”, diz Joseli sobre contar a história do pai. “A gente fez tudo que pôde em vida para ele. E acho que fica uma lição para as pessoas também: fazer as coisas em vida. Depois que vai embora, ninguém mais tem tempo para fazer nada”, finaliza a filha.

No caso de Fofo, o amor nunca ficou para depois.

Fofo partiu de repente, mas deixou 43 anos de amor e legião de amigos
José com as filhas em frente ao comércio que teve na região do Monte Castelo (Foto: Arquivo Pessoal)


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