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Campo Grande, Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

29/07/2017 07:15

Gabriel vendeu carro e fez de tudo pra realizar sonho de viver no exterior

Apaixonado por idiomas, desde criança sonhava em conhecer diferentes culturas e lugares, e não mediu esforços para conseguir

Eduardo Fregatto
Gabriel, feliz da vida, em Santiago, mas sem esquecer do Brasil. (Fotos: Acervo Pessoal)Gabriel, feliz da vida, em Santiago, mas sem esquecer do Brasil. (Fotos: Acervo Pessoal)

O jornalista Gabriel de Brito Ibrahim tem apenas 22 anos, mas já realizou o grande sonho de sua vida: morar no exterior. Ele não comprou um intercâmbio daqueles que facilitam a vida dos estudantes e nem vem de uma família que pudesse arcar sozinha com todos os custos de uma mudança grande como essa. Pelo contrário. Ele correu atrás do sonho, batalhou, se esforçou e, com muita perseverança, conseguiu se fixar em Santiago, capital do Chile. No Voz da Experiência, ele conta como foi todo o processo de mudança e dá dicas para quem deseja seguir o exemplo ou conhecer o país da América Latina.

Eu sempre tive vontade de sair do Brasil, sempre quis ter experiência fora daqui, porque sou apaixonado por língua estrangeira. Desde criança, ficava imitando as pessoas falando nos filmes, tentando entender. Sabia o quanto é enriquecedor ir para fora do País e não me via vivendo no mesmo lugar para o resto da vida.

O jornalista conta que conhecer a neve foi um dos momentos mais emocionantes.O jornalista conta que conhecer a neve foi um dos momentos mais emocionantes.

Tentei muitas vezes, dentro da universidade, bolsas para estudar no Canadá, Austrália, Irlanda. Fui rejeitado, e o governo cortou as bolsas para cursos de humanas. Fiquei desiludido. Até que um dia, eu estava pesquisando lugares baratos que eu poderia viajar. Vi um banner do Chile, com a Cordilheira dos Andes e a cidade de Santiago ao pé dela. Me deu um baque, fiquei encantado.

Eu decidi que eu queria ir para aquele lugar. Não sabia como e nem quando, só sabia que queria. Juntei dinheiro. Peguei férias de dez dias e fui, em janeiro de 2016. Foi amor à primeira vista. Foram dez dias que mudaram a minha vida. Voltei para o Brasil e no dia seguinte comprei a passagem de volta o Chile, para setembro de 2016. Decidi que eu iria me mudar para lá de maneira permanente e me dei esse prazo para me organizar.

Informei família e amigos, todo mundo ficou doido, diziam que eu era louco, perguntavam o que eu iria fazer lá. Mas é algo que você sente, é meio irracional, eu só sabia que tinha que fazer isso. A família ficou com receio, na época era filho único, mas não tinham como me impedir. No final, me ajudaram.

Nessa época, eu abracei o mundo para conseguir juntar grana. Fazia estágio, dava aulas de inglês, fazia trabalhos freelancer de assessoria, de fotografia e economizava muito, até no almoço da faculdade. Vendi meu carro, com dor no coração. O carro não foi dado por pai e mãe, eu ralei muito pra conseguir comprar.

Essa foi a primeira foto que ele tirou no Chile.Essa foi a primeira foto que ele tirou no Chile.

O Chile está tendo um boom de imigração. Você escuta várias línguas, vários sotaques na rua. É uma cidade global e o país incentiva a vinda de imigrantes. Não é difícil conseguir visto. Eu demorei para entender como funcionava, pensava em desistir. Precisava de endereço fixo e trabalho, e eu estava indo sem nada. Mas hoje eu estou com minha residência temporária e logo vou renovar para a permanente.

Eu contratei uma agência pra encontrar um estagio de Jornalismo, para justificar meu visto. Consegui num jornal chamado El Mostrador. Não me pagavam nada, era voluntário, mas me orientavam e me ensinavam muito. Eu paguei para trabalhar, praticamente. Foram 6 meses trabalhando de graça. Pago 200 dólares alugando um quarto e passava o dia com 10 dólares. Era punk, mas consegui.

Agora tenho um emprego, sou tradutor de inglês, português e espanhol. Faço tradução de filmes e desenhos. É um emprego sensacional. Como sou recém-formado, não ganho muito. Ainda recebo ajuda da família, todo mês, porque aqui as coisas são bem caras.

Mas o gasto aqui ainda não é grande comparado a outros países. Um quarto no Canadá vale mais mil dólares, por exemplo. Chegar aqui é difícil, em comparação ao Brasil, é tudo muito caro. A comida é muito cara. Mas depois que você se fixa, é tranquilo. É como viver numa capital brasileira, como São Paulo. Só precisa chegar bem preparado financeiramente.

Foram as paisagens naturais que primeiro encantaram Gabriel e o atraíram para o país.Foram as paisagens naturais que primeiro encantaram Gabriel e o atraíram para o país.

O chileno é um pouco complicado. Eles não são muito amigáveis. São muito desconfiados e frios também, mas acho que é questão de clima. As pessoas são acostumadas a ficar dentro de casa. Aqui tem um sistema de organização, as pessoas fazem tudo dentro do bairro. Não tem muita interação. Mas, se você ganha a confiança deles, pode apostar que serão seus amigos para sempre. Eles levam muito a sério a coisa da amizade.

Como o Brasil é maior economia da América Latina, eles nos enxergam no mesmo patamar. Nos recebem bem. Mas já presenciei muita xenofobia e racismo com haitianos, venezuelanos, colombianos e pessoas de países mais pobres. O Chile nunca teve um processo de imigração intensa. Mas os preconceituosos são uma minoria conservadora. Isso está mudando. Está muito bonito ver essa geração de estrangeiros se misturando com chilenos, criando novas cores, novas feições.

Quem tem vontade de conhecer o Chile, é bom em qualquer estação. No inverno, dá pra conhecer neve. A passagem não é tão cara. Você consegue promoções boas, já vi por 190 dólares saindo de São Paulo. Mas chegando aqui, os passeios são caros, venha bem preparado. É preço de Europa.

Em Santiago, tem muita coisa ao redor para conhecer. Parques naturais, a Cordilheira, o Valle Nevado para quem quer esquiar, tem uma represa de água de degelo muito legal. No verão, tem cidades litorâneas lindas, como Vinha del mar e Valparaíso, cidades que são patrimônio histórico da humanidade. Além do Deserto de Atacama.

A saudade da família e amigos é difícil. No começo, é difícil e depois fica mais pior ainda. Saudade é uma coisa só aumenta. Mas, por onde você vai passando, vai conhecendo outras pessoas. Não substituem, mas é algo que conforta. Agora sinto que tenho duas casas. Tenho minha casa em Campo Grande, tenho meus amigos aí, e tenho também aqui no Chile. É difícil, mas quando é por um objetivo importante, você vai aprendendo a lidar.

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