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Campo Grande, Sábado, 15 de Dezembro de 2018

11/10/2018 08:07

Há 47 anos, loja de tintas no Centro se mantém aberta pela disposição de Nelson

Com uma garagem para carros ao lado do prédio, a loja vende de acessórios para carro até materiais de pintura de todos os tipos.

Kimberly Teodoro
Há 47 anos na Rua Aquidauana, loja de tintas já foi a maior da cidade (Foto:Kísie Ainoã)Há 47 anos na Rua Aquidauana, loja de tintas já foi a maior da cidade (Foto:Kísie Ainoã)

A movimentação na Rua Aquidauana é tímida se comparada ao resto do Centro da cidade. E assim como a rua, o prédio que, segundo o proprietário Nelson Chaia, de 74 anos, já abrigou a maior loja de tintas da cidade também é discreto.

Construído em 1971, o único elemento a chamar atenção é o número 240 na fachada marrom e amarela, feita também com tijolos aparentes.

Nelson Chaia trabalha no comércio de Campo Grande desde os 9 anos (Foto: Kísie Ainoã)Nelson Chaia trabalha no comércio de Campo Grande desde os 9 anos (Foto: Kísie Ainoã)

Antiga Arco-íris tintas, a atual NN Automóveis já foi a única a trocar para-brisas em Campo Grande. Com uma garagem para carros ao lado do prédio, a loja vende de acessórios aos materiais de pintura de todos os tipos. Até os anos 90, o sucesso era tão grande que o proprietário chegou a abrir outras 3 franquias. Saudoso, ele ainda se lembra da época em que a rua era movimentada por caminhões lotados, que reabasteciam o estoque 5 vezes por semana.

Com um copo de café na mão, Nelson relembra que há 30 anos teria sido impossível parar e “jogar conversa fora”, porque os clientes entravam e saíam o tempo todo. Na loja que já teve, literalmente um time de futebol formado só por funcionários, os troféus ainda estão no alto das prateleiras de tinta, que costumavam ocupar todo o espaço na parede até os fundos do prédio, muito semelhante ao de um galpão.

A fachada marrom com amarelo é discreta e hoje quase passa despercebida (Foto:Kísie Ainoã)A fachada marrom com amarelo é discreta e hoje quase passa despercebida (Foto:Kísie Ainoã)
Na parede os troféus do antigo time de futebol da loja lembram tempo em que o movimento era tanto que exigia um número maior de funcionários (Foto:Kísie Ainoã)Na parede os troféus do antigo time de futebol da loja lembram tempo em que o movimento era tanto que exigia um número maior de funcionários (Foto:Kísie Ainoã)

Nelson começou a trabalhar aos 9 anos no Mercadão Municipal, na época em que “ainda era uma feira”. Lá teve o próprio box de pão caseiro. Foi acordando cedo e trabalhando até mais tarde que ele conta ter conseguido juntar dinheiro para construção do prédio onde trabalha até hoje.

Na tentativa de mudar de vida, Nelson deixou a loja nas mãos do irmão e estudou 6 meses para prestar vestibular, chegou a fazer faculdade de Direito em Uberaba, já que “naquele tempo não havia um advogado em cada esquina como hoje. Fazer carreira era muito mais fácil”.

A rotina durante a faculdade era corrida, o irmão cuidava da loja e ele ia para Uberaba mais ou menos a cada 15 dias e, dependendo de como as coisas estavam por aqui, ficava cerca de uma semana para concluir as provas. “Eu tinha os livros e dava para fazer o curso à distância, o fim de semana que eu chegava lá ficava trancado no hotel estudando até virar a noite”, lembra com orgulho.

Na tentativa de mudar de vida, Nelson chegou a cursar direito em Uberaba (Foto:Kísie Ainoã)Na tentativa de mudar de vida, Nelson chegou a cursar direito em Uberaba (Foto:Kísie Ainoã)

Depois de formado, apesar de todo o sacrifício para estudar, Nelson descobriu que havia de fato sido feito para a vida de lojista. Se ele tem algum arrependimento de ter deixado de lado a carreira de advogado? "De jeito nenhum".

Foi com a renda da loja que Nelson cuidou da esposa e dos 5 filhos, dos quais 2 são adotados. Antigamente o assunto costumava ser um tabu, mas isso não influenciou em nada a decisão que para o casal foi natural.

Mesmo com tantos filhos, Nelson continua sendo o único a se dedicar à loja. “Todos eles estudaram e seguiram outras carreiras, tenho filho advogado, uma filha engenheira e a mais nova cursa Medicina na Argentina”, conta ao garantir não se sentir chateado com as escolhas de nenhum deles, Nelson entende que o comércio é uma vocação bem particular.

 

Nenhum dos 5 filhos quis tocar o negócio do pai, mas Nelson entende que o comércio é uma vocação dele (Foto:Kísie Ainoã)Nenhum dos 5 filhos quis tocar o negócio do pai, mas Nelson entende que o comércio é uma vocação dele (Foto:Kísie Ainoã)
Com o tempo as prateleiras repletadas deram lugar ao espaço vazio nos fundos da loja (Foto:Kísie Ainoã)Com o tempo as prateleiras repletadas deram lugar ao espaço vazio nos fundos da loja (Foto:Kísie Ainoã)

Com o movimento reduzido, sobra espaço nos fundos da loja que hoje rende o suficiente para se manter, mas que não vai fechar as portas enquanto Nelson tiver condições para trabalhar. garante o empresário.

Apesar da idade e de já ser aposentado, ele nem pensa em vender o prédio e aproveitar os frutos do trabalho em casa. Diz que pode, no máximo, tirar uma semana de folga no fim do ano para viajar com a esposa. “Abro a loja todos os dias às 7h da manhã e fecho às 17h, até eu morrer vai continuar sendo assim”.

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Aos 74 anos é a disposição de Nelson que mantém a loja aberta  (Foto:Kísie Ainoã)Aos 74 anos é a disposição de Nelson que mantém a loja aberta (Foto:Kísie Ainoã)
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