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Comportamento

Já tive missa todo dia, sexta de centro espírita e domingo de escola evangélica

Por Lenilde Ramos | 02/04/2017 07:25
A primeira comunhão.
A primeira comunhão.

Minha educação religiosa era uma miscelânea, mas não reclamo, porque foi útil para temperar a pluralidade, romper com o preconceito e apurar o respeito pela busca da espiritualidade.

Meus pais frequentavam o centro espírita de Dona Severiana, a gaúcha mãe da amiga Nedir Pereira Freire. Lembro de flamboyant, santos, flores, velas, fitas, do cheiro de incenso, defumadores, da fumaça, das vestes brancas, da música e da dança quando as entidades baixavam.

A função do meu pai era convencer os espíritos sofredores a aceitarem a luz e minha mãe recebia exus e almas penadas que davam trabalho. Eu convivia com tudo na maior naturalidade, mesmo quando minha mãe, incorporada, acertava um ponto riscado lá na porta com um punhal. No alvo! Levei um susto quando ela se mudou para a Igreja Batista da 13 de Maio.

Que diferença! Tudo clarinho, asséptico, sem estátuas nem velas. A Bíblia era divertida: Moisés, José, Egito, Babilônia. Pra quem já gostava de ouvir histórias, um prato cheio! Depois fui estudar em colégio católico e encontrei ali elementos familiares: incenso, músicas e estátuas e me apaixonei pelo Espírito Santo com seus mistérios e línguas de fogo.

Por um tempo as coisas foram assim: missa todo dia, sextas-feiras no centro espírita e domingos na escolinha evangélica. Com 10 anos, já entendendo a linguagem dos "cabôco", eu sentava num toco do lado deles e servia de secretária bilíngue, entregando a receita já traduzida: pemba, marafo, etc. Um dia faleceu uma funcionária do colégio e fizeram um belo funeral.

À noite, no centro, fiquei curiosa e perguntei ao "cabôco" onde ela estava. Ele ficou sério, tomou um gole na cuia de coco, soltou uma baforada e disse: "Está nas trevas... está sofrendo". Bem assim. No outro dia a assistente disse: "Vamos rezar pela senhora que faleceu. Ela está na glória". Mas, uma vozinha dissonante disse: "Não... ela está nas trevas..." O quêêê? Quem te falou isso?" E eu, bocuda que só, ainda emendei: "Foi o cabôco Tranca Rua lá no centro da dona Severiana!"

A casa caiu. Expulsão! Chamaram meu pai, que conversou, pediu e prometeu que nunca mais aquilo iria acontecer. Anos depois, saí moça feita do internato e, por minha conta, continuei misturando tudo. Hoje sinto que tenho uma fé temperada e saborosa, tentando conviver com o melhor que aprendi em cada lugar que passei. Agora é que tá ficando bom!