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Comportamento

Mário guarda “tesouro” do cinema que Miranda teve na década de 40

Família de seu Mário administrava cinema nas décadas de 40 e 50, com exibições de vários filmes para a cidade

Por Bárbara Cavalcanti | 22/09/2021 06:39
Seu Mário com os equipamentos do antigo Cine Marabá, em Miranda. (Foto: Paulo Francis)
Seu Mário com os equipamentos do antigo Cine Marabá, em Miranda. (Foto: Paulo Francis)

O município de Miranda, a 211 quilômetros de Campo Grande, já teve um cinema. Era o Cine Marabá, que por volta da década de 40 e 50, exibiu vários filmes de “bang bang” italiano, tramas policiais e produções nacionais famosas da época.

Quem operava o maquinário era Mário Bruno, de 90 anos, que ainda tem os aparelhos em casa, em Campo Grande. “Esse cinema deixou muita saudade”, expressou ao relembrar da história.

O cinema ficava em volta da única praça de Miranda, a Praça Agenor Carrilho. O irmão mais velho de seu Mário, Pascoal Bruno, juntou “forças” com José Pedrossian, irmão do falecido ex-governador de Mato Grosso do Sul Pedro Pedrossian, para desenvolver e remodelar toda estrutura do prédio.

Seu Mário mesmo era fascinado por mecânica, assim, logo foi parar na operação das máquinas de exibição, que eram usadas e portáteis. “Ninguém via como funcionava lá atrás. Eu quem cuidava de toda exibição, trocava os filmes. E sempre quis a melhor exibição possível”, detalha.

Aparelhos portáteis, os primeiros utilizados nas sessões do cinema em Miranda. (Foto: Paulo Francis)
Aparelhos portáteis, os primeiros utilizados nas sessões do cinema em Miranda. (Foto: Paulo Francis)

Mas era também ele quem andava pela cidade em um carro de som anunciando os lançamentos. Filmes do cineasta brasileiro Amácio Mazzaropi chegaram no interior de Mato Grosso do Sul, graças ao Cine Marabá, assim como títulos clássicos do cinema como as primeiras versões de Godzilla e o Exorcista.

A família de seu Mário se estabilizou em Miranda, quando o pai dele, que era italiano, veio para o Brasil depois de ter servido na Primeira Guerra Mundial. “Depois da guerra, meu pai ficou uma época nos Estados Unidos, depois voltou para a Itália e, por fim, veio com a minha mãe para o Brasil e ficou em Miranda”, explica.

Família Bruno reunida em Miranda, por volta da década de 60. (Foto: Arquivo Pessoal)
Família Bruno reunida em Miranda, por volta da década de 60. (Foto: Arquivo Pessoal)

Naquela mesma época em Miranda, seu Mário conta que missionários estadunidenses redentoristas também moravam na cidade. Como pai dele falava inglês, logo os padres viraram amigos próximos da família e do cinema. Foi graças a um desses padres, que o Cine Marabá conseguiu outros dois equipamentos de vídeo.

“Eu sempre busquei a exibição perfeita. Com muito custo, nós fomos atrás de outros aparelhos. Mas foi quando um dos padres pediu para a sede da igreja deles, que fossem compradas máquinas para ficarem no cinema, que ganhamos essas duas que estão aqui”, explica.

Seu Mário com os aparelhos que foram presentados pelos missionários ao cinema. (Foto: Paulo Francis)
Seu Mário com os aparelhos que foram presentados pelos missionários ao cinema. (Foto: Paulo Francis)

Os aparelhos são importados de Nova York. A tecnologia de filmagem e projeção era o Cinema Scope, feita pela Fox Filmes e novidade no início da década de 50, que projetava basicamente em tela cheia, não apenas um pequeno quadrado.

As duas exibições de filmes aconteciam três dias na semana, às quartas, sábados e domingos. Quem ficava na bilheteria era ainda outro irmão de seu Mário, Romeu Bruno. Seu Mário se casou com dona Helena de Lima Bruno, hoje, com 80 anos, que também trabalhou muito no cinema. Os filhos do casal todos se criaram ali.

“Quando um filme arrebentava e tinha uma interrupção, todo mundo gritava e xingava o Romeu pela falha”, ri dona Helena ao lembrar. Ainda outra lembrança é da época de Ditadura Militar, quando era necessário exibir uma propaganda do governo antes de cada sessão. Dona Helena lembra, inclusive, de um episódio em que os militares entraram no cinema para prender um conhecido da cidade.

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“A gente chamava de “seu João Dentista”, porque ele era dentista mesmo. Quando vieram o prender, ele estava dentro do cinema. Entraram lá, pediram pra parar o filme e ligar as luzes. Levaram seu João. Na frente do cinema, estavam um monte de militares. Lembro que ele olhou e disse: “Nem eu sabia que eu era tão perigoso assim””, relembra dona Helena entre mais risadas.

A chegada da televisão foi o que trouxe fim ao Cine Marabá. As portas fecharam e os aparelhos estão à venda. O que fica na memória, são as lembranças dos filmes, das músicas que eram tocadas antes de cada sessão, enquanto as pessoas esperavam e das amizades.

Hoje, dona Helena é adepta aos filmes nas plataformas de streaming, enquanto seu Mário prefere a leitura. “Realmente, esse cinema deixou muita saudade”, suspira seu Mário.

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