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Campo Grande, Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017

16/08/2017 06:05

Na confusão do quati, descobrimos história de força e batalha de Dona Ilda

Aos 85 anos, ela tem a cabeça "boa", melhor que de muita gente na flor da idade, e conta com orgulho sua história de força e superação

Eduardo Fregatto
Dona Ilda batalhou muito e nem acredita na cabeça boa que tem hoje em dia. (Foto: Marcos Ermínio)Dona Ilda batalhou muito e nem acredita na cabeça boa que tem hoje em dia. (Foto: Marcos Ermínio)

Em meio à toda confusão envolvendo a família "ilhada" dentro de casa por causa de um quati no quintal, o Lado B encontrou o jeito batalhador e surpreendentemente lúcido de Dona llda Neres de Oliveira, de 85 anos.

Com a ajuda do seu andador, ela vai de pra lá pra cá, conversa com a imprensa, explica a situação, faz reclamações e apelos, sempre muito articulada. "Ainda não fizeram nada pra retirar o quati. Eu fico presa dentro de casa, o cachorro precisa sair pro quintal", disse, na tarde de ontem, muito chateada com a demora do Poder Público para resolver o impasse.

Nós fomos até a casa de Dona Ilda para conversar um pouquinho sobre sua história de vida, já que ela mora naquela mesma casa há 50 anos. Foi uma surpresa saber que o quati ainda não foi retirado do local, nem por Bombeiros, nem pela Polícia Ambiental ou qualquer outro órgão.

Dona Ilda na adolescência, em retrato que fica pregado na parede da sala. (Foto: Marcos Ermínio)Dona Ilda na adolescência, em retrato que fica pregado na parede da sala. (Foto: Marcos Ermínio)

Mas, após as reclamações iniciais, a Dona Ilda topou compartilhar suas memórias e explicar o segredo da sua incrível lucidez, após quase nove décadas de vida. "Geralmente, eu lembro de mais coisas que as minhas filhas. Minha cabeça é boa", ela afirma. Uma das filhas, a professora Arlete Neres, de 54 anos, confirma o bom estado da mãe. "As pessoas até comentam, ela tem uma memória melhor que a nossa".

Pergunto para Dona Ilda qual o segredo para chegar à essa idade com tanta disposição e clareza de ideias. A resposta é um mistério até para ela própria. "Só por Deus mesmo", resume. "Era pra eu estar acabada. Se o serviço matasse, eu não tava viva mais", brinca.

O serviço foi a roça, em que trabalhou desde os 6 ou 7 anos de idade. Vivia com a mãe e os nove irmãos. O pai sumiu pelo mundo. "Quando o galo cantava três vezes, minha mãe dizia que era 3h da manhã e tínhamos que acordar pra trabalhar", lembra. "Mas as vezes o galo errava. Às 22h a gente já estava de pé. Amanhecíamos já com a rapadura pronta, sem dormir", conta, com certa indignação. "Minha mãe era muito brava. Ela era o homem e a mulher, né?".

Junto com os irmãos, cuidava dos bois, das plantações, fazia rapaduras dos mais variados sabores. As mãos ficavam congeladas por trabalhar na madrugada fria. Na adolescência, quando conheceu um trabalhador de São Paulo, Ilda viu a oportunidade de ir embora da roça e ter uma vida melhor. "A gente se iludia achando que ia se libertar", diz, como quem hoje acha graça da própria ingenuidade.

O crochê é uma das formas que encontra pra se distrair. (Foto: Marcos Ermínio)O crochê é uma das formas que encontra pra se distrair. (Foto: Marcos Ermínio)

Casada, aos 17 anos, veio para Campo Grande no início dos anos 60. Porém ainda trabalhava muito, como lavadora, passadeira, fazia salgadinhos e doces pra vender. "As madame não tinham máquina de lavar naquela época, então tinha muito trabalho", relata. Foi assim que criou os sete filhos e comprou, com muito custo, o terreno onde o quati se instalou atualmente. "Pagamos 150 réis por esse lote. Era muito dinheiro. Naquela época, ninguém dava pra gente. Nem uniforme de escola das crianças, lápis, caderno, material. A gente trabalhou pra conseguir tudo", afirma, orgulhosa.

Apesar do ótimo estado mental, ela lida hoje com uma osteoporose, que primeiro debilitou as mãos. "Olha meus dedos, ficaram tortinhos", mostra. E, recentemente, afetou o quadril e pernas. Por isso agora a necessidade do andador, que mesmo assim não a impede de se locomover normalmente. "Levanto, faço meu café, venho cuidar das plantas".

O marido de Dona Ilda está acamado, com uma série de problemas. "A cabeça dele não está boa". O casamento dos dois, que já fez mais de 65 anos, não rendeu uma grande história de amor. Teve muitas dificuldades e brigas. "Ele bebia", explica. Mas, mesmo assim, separação nunca foi cogitada por ela. "Eu pensava nos filhos. Não foi por amor, foi pelas crianças. No final, ele ficou evangélico, parou de beber", conta.

Com o andador, ela vai até o seu jardim, cuidar as plantinhas. (Foto: Marcos Ermínio)Com o andador, ela vai até o seu jardim, cuidar as plantinhas. (Foto: Marcos Ermínio)

Falando em filhos, outro orgulho de Dona Ilda foi ter dado à luz para dois filhos sozinha, sem ajuda de médico ou parteira. "Meu marido foi buscar a parteira e, enquanto isso, eu tive as crianças. Nas duas vezes. Eu mexia na barriga com a mão, pra ajeitar. E tive. E hoje ainda existe mulher reclamando, que faz drama pra ter filho, acredita?", questiona, quase que revoltada com a vida fácil que as pessoas levam hoje e nem valorizam.

Só parou de trabalhar aos 70 anos, por pedido dos filhos, que já podiam ajudar na renda familiar. Antes disso, foi uma vida de trabalho e muita batalha.

Sobre o quati, se fossem outros tempos, ela mesma já teria resolvido o problema. "Eu matava muito bicho na fazenda. Muita cobra e até quati", garante. Mas hoje, já um pouco debilitada do corpo, apesar da cabeça intacta, ela prefere aguardar as ações do Poder Público, ainda que pareçam nunca chegar.

Enquanto isso, passa os dias cuidando do marido, fazendo seu crochê e lendo jornais trazidos pelos filhos. "Eu sei ler e escrever, do meu jeito", pontua, com o seu jeito lúcido e batalhador de encarar a vida.

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