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Campo Grande, Quinta-feira, 25 de Abril de 2019

20/03/2019 08:04

Na vida e na poesia, Marcella encara batalhas de versos carregados de verdade

Jovem vai representar Mato Grosso do Sul na primeira batalha nacional de Slam para mulheres em SP

Guilherme Henri
Jovem poeta vai representar o Estado na primeira batalha nacional de Slam só para mulheres em SP (Foto: Paulo Francis)Jovem poeta vai representar o Estado na primeira batalha nacional de Slam só para mulheres em SP (Foto: Paulo Francis)

Todos enfrentamos batalhas diárias. Marcella Ventorim, de 20 anos, por exemplo, vende doces de noite para tentar sobreviver. Mas, ela também gosta de encarar outro tipo de batalha: a de quem fala a verdade com versos autorais recitados no Slam Camélias, grupo que se reúne em espaços públicos para fazer poesia com críticas sociais.

A paixão por este tipo de encontro rendeu a jovem passagem para São Paulo, onde no dia 24 deste mês vai representar Mato Grosso do Sul na primeira batalha nacional de Slam só de mulheres, transmasculinos e genêneros dissidentes.

Marcella diz que desde de pequena sempre gostou de escrever. Mas, a família parecia já ter traçado outros planos para a garota. “Era aquela pressão de você vai para a faculdade e depois arrumar um emprego. Porém, eu não me encaixava neste plano e foi quando decidi sair de casa”, diz a jovem, que abriu mão do conforto dos pais aos 18 anos, passou pela casa de amigos e hoje divide um apartamento com a namorada e mais uma amiga.

O começo foi duro, Marcella ainda dependia um pouco dos pais, mas depois encontrou nos doces e também em sua poesia - impressa - uma maneira de ganhar dinheiro. “Nesta época fazia faculdade de Medicina Veterinária, mas larguei. Tinha certeza de que estava no lugar errado”, conta. 

Marcella durante batalha de Slam em Campo Grande (Foto: Acervo Pessoal)Marcella durante batalha de Slam em Campo Grande (Foto: Acervo Pessoal)

Muito ligada à poesia, pela internet ela conheceu o Slam. “Fiquei apaixonada por aquilo e foi quando minha namorada disse que havia aqui em Campo Grande. Eu quase não acreditei e ela me levou onde estava ocorrendo uma batalha”, lembra.

Em 2017, Marcella se deparou com o Slam misto – batalhas poéticas de todos os gêneros – e já no primeiro contato, escreveu algo rápido e recitou. “Acabei deixando este tipo de Slam devido ao machismo que sofri e foi quando me apresentaram o Camélias, só para mulheres”.

Tecnicamente, a batalha começa com um poeta, que recita seus versos e em seguida outro rebate a crítica com outra ou mesmo da sequência ao tema colocado em questão. Em geral cada um recita três poesias até que os jurados - escolhidos no momento entre público - decida quem é o vencedor.

No lugar certo, Marcella deslanchou. “Comecei a participar pelo Camélias de diversos eventos no Estado e com isso ganhando reconhecimento. Em casa, as vezes eu pensava ‘meu Deus eu sou realmente uma poeta? É isso?’”, diz.

A resposta para esta pergunta veio nas várias batalhas ganhas de 2017, até agora com as mais de 30 poesias autorais que falam sobre política, violência doméstica, feminismo, minorias, preconceito, sociedade e seus problemas.

Marcella revela que para escrever suas poesias gosta de se isolar em casa, técnica que já rendeu cerca de 30 poemas a garota.

Questionada, a jovem diz que mesmo dentro do Slam existe preconceito tanto pelo gênero quanto pela etnia, porém são velados por olhares de "será que ela é capaz mesmo?".

“Nunca foi escrachado, mas já senti muita desconfiança ou mesmo desdém e depois que me apresentava estas mesmas pessoas vinham até mim e quebravam essa impressão”, afirma.

Essa com certeza é uma das coisas que mais a motiva a continuar, provando que mulheres podem se ajudar por meio da poesia e com certeza alcançar um lugar onde muito poeta sonhou em chegar: nos ouvidos das pessoas.

Veja uma das poesias de Marcella:

A consciência humana anda adormecida
E a definição de vida distorcida
Não sei se são drogas ou se é a bebida
Mas dia após dia nossa mente é destruida
Arte é cultura desvalorizada
Artistas fadados a viver com pouco ou quase nada
Me diz quem anda contigo nessa estrada
Que é muito bonita e pouco movimentada
O topo quer uma base alienada
Que vive o pesadelo pra eles viverem o conto de fada
Nossa revolução não é televisionada
É feita dia a dia nos gritos das calçadas
O ser humano é um animal em plena caçada
Às armas apresento uma alma blindada
Maldita herança machista herdada
Homem de calça aberta, mulher de perna fechada
Oitenta e cinco reais por mês pra mulher estuprada
É isso ou aborto na base da pancada
Estado laico com bancada evangélica montada
Policia exterminando a quebrada
Infância pelo crime roubada
Esperança de futuro quase apagada
Não serei a parte que aplaude sentada
Serei a que grita revoltada
Sua mordaça não cala minha língua afiada

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Entre as batalhas que enfrenta, Marcella vende doces e poesia para sobreviver (Foto: Paulo Francis)Entre as batalhas que enfrenta, Marcella vende doces e poesia para sobreviver (Foto: Paulo Francis)


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