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Campo Grande, Domingo, 23 de Setembro de 2018

21/07/2017 07:23

Nem a doação de rim aproximou Jorge do primo, que deixou lição de vida ao partir

Em 1991, Jorge doou um rim para o primo que viveu por mais 24 anos

Thailla Torres
À época, em 1991, o procedimento era mais arriscado, mas Jorge teve certeza que estava no caminho certo.(Foto: João Paulo Gonçalves)À época, em 1991, o procedimento era mais arriscado, mas Jorge teve certeza que estava no caminho certo.(Foto: João Paulo Gonçalves)

Quando o diagnóstico de cirrose nos dois rins do seu primo foi confirmado e o Jorge Miguel da Silva Garcia, 49 anos, foi comunicado pela família, o jornalista não pensou duas vezes em se colocar à disposição para um transplante caso fosse compatível. À época, em 1991, o procedimento era mais arriscado, porém Jorge não teve dúvidas que estava no caminho certo.

Nascido em Campo Grande, Jorge relata que tinha pouco contato com o primo José Mario Dionísio que partiu no último dia 18 de julho. Isso porque a história da família que antecede o renascimento é delicada, marcada pela distância e o tristeza por conta do abandono.

A mãe de Jorge, que era de São Paulo, foi deixada em Campo Grande quando era criança. Cresceu longe da família biológica, assim como seus filhos considerados distantes dos parentes paulistanos. "Antigamente os pais davam os filhos e a minha avó mandou a minha mãe sozinha para Mato Grosso dos sul. Foi criada por uma família daqui, sofreu com a ausência da minha vó e precisou lutar muito. Por isso eu tinha pouco contato com esse primo, sempre fomos os afastados da família", narra.

Esse era José Mario Dionísio. (Foto: Arquivo Pessoal)Esse era José Mario Dionísio. (Foto: Arquivo Pessoal)

Mas nenhuma separação foi capaz de impedir Jorge de tomar uma decisão naquele ano quando soube o estado de saúde do primo. José estava hospitalizado depois que a primeira tentativa de transplante deu errado, e restava poucos dias, para que um novo procedimento fosse capaz de o manter vivo.

"Ele já estava sofrendo muito porque seu irmão doou o rim, mas houve um erro na cirurgia e o órgão não funcionou. Quando eles entraram em contato comigo, tinham apenas 10 dias, para um novo procedimento", detalha.

A família passou a tentar todas as possibilidades para encontrar um doador. Por telefone, Jorge diz que foi fácil confirmar a decisão, mas admite que não esperava um resultado positivo. "Eu achava que era muito raro. Quando veio o resultado fiquei muito surpreso. Naquele tempo era impossível não sentir medo, as doações ainda estavam crescendo no País", recorda.

Apesar do receio, autorizar a doação, trouxe um alento. "O medo de morrer sempre falava mais alto, mas eu não podia perder tempo com isso. Sabia do significado daquilo e iria tirar uma pessoa do sofrimento, talvez consertar uma dor que estava prestes a ser definitiva".

A cirurgia de substituição de um órgão é complexa e exige um trabalho ágil da equipe, por isso, assim que saiu o resultado de compatibilidade, Jorge viajou para o Instituto do Rim, em Londrina, para o procedimento que durou cerca de 6 horas.

"Foi praticamente uma sensação de vida nova, principalmente quando acordei e vi que deu certo. Me senti bem naquele momento".

15 dias após o procedimento, Jorge voltou para casa, com a lembrança de um encontro rápido e silencioso com o primo. "Não éramos tão ligados, e depois disso, ele nunca mais conversou comigo. Também não sofri por isso, pelo contrário, sei que fiz totalmente de coração".

Mas a notícia do falecimento do primo na última semana trouxe um impacto na vida de Jorge. "É uma lição de vida, simplesmente. No final do ano passado, José entrou em contato comigo, dizendo que era agradecido porque viveu 24 anos com o meu rim. Conversamos por telefone e naquele momento eu sabia que havia feito a coisa certa".

Apesar da tristeza, o sentimento é de missão de cumprida. "É fazer o bem sem olhar a quem. Com essa situação eu aprendi que a ganância nunca vale mais que a generosidade. Também não precisamos de provas para demonstrar solidariedade a ninguém. Doar é um ato de amor que salva e faz renascer no outro o bem".

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