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Campo Grande, Terça-feira, 25 de Setembro de 2018

08/05/2018 07:45

No Cabreúva, casa de 60 anos e Chevrolet Brasil são história da família Miralles

Depois que donos da casa morreram, nada mais foi tocado no lugar, até oficina do pai, falecido em 1989, continua intacta

Thaís Pimenta
Fachada da casa da família Miralles continua intocada, assim como as memórias que carrega. (Foto: Fernando Antunes)Fachada da casa da família Miralles continua intocada, assim como as memórias que carrega. (Foto: Fernando Antunes)

Passar pela rua Laguna é se encantar com as constuções que remetem ao passado da cidade. Dentre as imagens, uma chama atenção em especial. Construída em madeira, pintada com um tom de verde bem clarinho, a casinha guarda a história da família dos Miralles, que já não vive ali há pelo menos quatro anos. A matriarca morreu há onze e quem cuidava do lugar, a filha Marilda, também faleceu lutando contra um câncer.

Se só a casa, em si, já não fosse motivo suficiente pra despertar a curiosidade da nossa equipe, uma Chevrolet Brasil dos anos 1960, no mesmo tom de verde, ainda estacionado na garagem dia após dia, que reforça na fachada o cenário de filme antigo.

Tudo ali ficou parado no tempo, quando a mãe e a filha eram vivas e a saudade ainda não tinha lembranças tão difíceis. Quem conta é Tereza, a filha do meio de dona Maria dos Santos Miralles, conhecida como Nair. "Se você soubesse como era antes, era uma graça mesmo. Mamãe era exigente e fazia questão de reformar todo ano, pintar a casa toda. Hoje tenho até vergonha de mostrar ali, tá abandonado", explica.

Ninguém na casa era palmeirense, como pode-se supor pela cor. O verde sempre esteve ali simplesmente porque era a tonalidade preferida de dona Nair e, como uma mãezona respeitada, ninguém nunca ousou fazer o contrário do que a matriarca mandava ou queria, nem mesmo depois de sua morte. "Não me lembro dessa casa ter sido de outra cor antes", completa.

Coincidência do destino, a raridade estacionada na garagem foi comprada pelo cunhado, esposo de Marilda, seo Mauri, que hoje também não mora na casinha na frente pois perdeu a visão e precisou dos cuidados da filha. Conhecido por ser mais reservado, ele não quis papo com a gente.

"Faz uns trinta anos que essa Chevrolet está na família deles. Parece que o Mauri comprou de um patrão dele. Aquilo ali andava muito melhor que os carros de hoje, mas agora tá parado lá. Ele parece que deu para o neto dele, o Vinícius, só que o menino não tem dinheiro para reformar ainda", explica o esposo de Tereza, Canuto Cação.

Mesmo destruída, a Chevrolet Brasil continua imponente! Relíquia do cunhado da família que não está a venda. (Foto: Fernando Antunes)Mesmo destruída, a Chevrolet Brasil continua imponente! Relíquia do cunhado da família que não está a venda. (Foto: Fernando Antunes)
Marcas do tempo no carro. (Foto: Fernando Antunes)Marcas do tempo no carro. (Foto: Fernando Antunes)
Chevrolet Brasil, detalhes. (Foto: Fernando Antunes)Chevrolet Brasil, detalhes. (Foto: Fernando Antunes)

A construção também de mais de 60 anos foi construída pelo pai de Tereza,  Frederico Miralles, quando o bairro ainda era conhecido por Cascudo. "Eu devia ter menos de dois anos quando viemos pra cá. Hoje eu vou completa 68 anos, então pra você ver a idade que essa construção tem".

Frederico morreu muito antes da esposa, em 1989. Talvez por isso, Nair precisou ser tão rígida com os filhos, por medo de não dar conta sozinha. As lembranças do pai são poucas na memória da filha. "Ele era uma pessoa que deitava muito cedo. Jantava cinco horas da tarde para poder domir cedo e acordar cedo. Ia para o trabalho, nos Correios, voltava e tudo se repetia". Curioso, o pai era daqueles que desmontava e montava tudo que via pela frente. 

Até hoje, nos fundos do terreno, o galpãozinho continua de pé. Ali o pai fazia pequenos trabalhos com serraria, e também ficava montando "aqueles radinhos de ouvido", como Tereza se recorda. "Tem ferramenta dele até hoje ali. A gente nunca mexeu muito", revela sobre mais um lugar onde o apego fala mais alto na família.

Ainda nos fundos da casa, a memória viva da mãe na área de lavanderia vem à cabeça da filha sempre que ela passa por ali. "Ali era um poço. Ela foi mexendo com um tempo, cobriu aquela área. Não gosto muito de passar por ali e ver o estado em que está, tudo sujo".

Dos pés de caju, laranja, jabuticaba e limão sobraram só os dois últimos, que se transformaram em grandes árvores. "Eu subia tudo aquilo ali com meus irmãos".

Tímida para fotos, Tereza mostra álbum da família. (foto: Thaís Pimenta)Tímida para fotos, Tereza mostra álbum da família. (foto: Thaís Pimenta)
Os pais, Maria e Frederico. (foto: Thaís Pimenta)Os pais, Maria e Frederico. (foto: Thaís Pimenta)

Doceira, cabeleireira, fiel da Igreja da Congregação do Brasil e, inclusive. uma das fundadoras da sede evangélica, prédio vizinho à casa da família, Nair passou esses genes de "fazer de tudo um pouco" só para Tereza, que foi por muito tempo da vida doceira, manicure e cozinheira, mas hoje ela faz seus quitutes só para o esposo e para as duas filhas.

"Mamãe fazia suas filhas ajudarem na produção dos docinhos cristalizados, dos bolos de metro. Nós fazíamos tudo, desde as flores que decoravam o bolo, até a massa. Tinha dias que a gente varava a noite, aprendi ali", relembra.

Da criação que teve, a  mãe escolheu dois valores essenciais para transmitir às filhas: honestidade e parceria entre as irmãs, diz Tereza. "Sempre fomos muito unidas, até meu irmão, que já é falecido, era chegado na gente. Todo domingo era dia de festa na casa da mãe. Vinha todo mundo, todas as famílias e todos os agregados. Tenho uma saudade dessa época".

Tudo deve continuar parado do jeito que está até o inventário ser liberado pela Justiça. Tereza não nega que, se tivesse dinheiro, compraria a casinha pra poder mantê-la na família. "Querendo ou não, ali está a nossa história". 

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Único registro em que mostra a casa no passado. (Foto: Thaís Pimenta)Único registro em que mostra a casa no passado. (Foto: Thaís Pimenta)


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