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Campo Grande, Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018

14/05/2017 08:27

No campo dos índios, conheci o povo que luta e se adapta sem perder a identidade

Lu Tanno é jornalista, escritora e produtora de TV. Depois de um convite, conheceu a cultura que está em suas memórias de infância

Thailla Torres
Cavalos são pintados com grafismo Kadiwéu durante festividade. (Foto: Arquivo Pessoal)Cavalos são pintados com grafismo Kadiwéu durante festividade. (Foto: Arquivo Pessoal)

Lu Tanno é jornalista, produtora e escritora em Mato Grosso do sul. No Estado com a segunda maior população de índios, a luta deles é algo importante e íntimo na vida de Lu. Recentemente ela recebeu o convite de participar de uma comemoração da etnia Kadiwéu que há mais de três décadas em terras demarcadas, vive entre tradição e vida contemporânea. Os dias com os índios trouxeram a ela uma reflexão sobre a importância cultural e a preservação de um povo que luta para não perder sua identidade, que ela aqui conta aqui no Voz da Experiência.

"Quem eram os povos que habitavam aqui à época da conquista e como viviam? Encontro vestígios olhando pessoas em minhas andanças por nas ruas de Campo Grande, seus traços, olhos, cor. O conhecimento ancestral guarani de quem sabe manipular a natureza a seu favor, repassado pelas “cunhãs” ervateiras, personificado em tantas bancas de “jujus”, chás e garrafadas, tão presentes em nosso cotidiano do Mercadão às bancas de revistas.

A tradicional colheita terena carregada de feijão de corda, jurubebas, guarirobas e no tempo da catação de guavira e pequi, traz de volta os sabores deliciosos que povoam minha memória de criança. Comer a comida de um lugar é mais que se alimentar, é também se apropriar de seus valores, símbolos e signos.

Mas uma etnia sempre esteve envolta em uma névoa de mistério intensificada pelo ar mitológico que a cerca. A obra Carga da Cavalaria Guaicurus traduz a aura fascinante que envolveu a etnia nativo-americana que mais empreendeu resistência e conflito ao colonizador europeu.

Artesanatos. (Foto: Arquivo Pessoal)Artesanatos. (Foto: Arquivo Pessoal)

A autoproclamada Nação Guaicuru teve um papel preponderante no maior conflito armado internacional da América do Sul, a Guerra do Paraguai (1864/ 1870) e, por extensão, na configuração dos marcos e fronteiras que dão a grande dimensão territorial brasileira. Fator que levou a doação pelo Segundo Império Brasileiro das terras da reserva em que hoje habitam entre as escarpas de planalto da Serra da Bodoquena e Pantanal do Nabileque e sedimentou o mito fundacional de seu ethos belicoso, mas que à época quase os aniquilou. Segundo relatos históricos, ao findar do combate, restaram pouco mais de 300 homens adultos.

Dedicados à arte e à guerra, elementos constituintes de seu ethos fundamental, ou seja, aquilo que é característico ou predominante em um povo ou nação, os Kadiwéus, único grupo remanescente do tronco Guaicuru, por muito tempo dominaram meu imaginário em um misto de curiosidade e medo na cidade de Jardim, onde vivi minha primeira infância, eram temidos como bravos, malvados e arredios desde o município vizinho, Porto Murtinho, onde estão localizadas suas aldeias.

O contato se deu por meio do convite de um ativista da causa indígena que conheci em Campo Grande no Tribunal da Terra, fórum popular destinado ao debate da causa indígena, ano de 2012. Joel Índio, nativo do idioma Kadiwéu, estudou a língua portuguesa para mediar os interesses de seu povo junto as instituições públicas pertinentes à questão. Alto e altivo, muito articulado, com uma performance culta e polida da linguagem, diz pertencer à casta nobre dos Senhores.

Sim, era uma sociedade estamental, dividida em classes e que predava escravos entre as outras etnias. Relatos dados ao antropólogo Claude Lévi-Strauss na obra Tristes Trópicos, que narra sua ida à região na década de 30, descrevem uma doce escravidão.

Pinturas corporais. (Foto: Arquivo Pessoal)Pinturas corporais. (Foto: Arquivo Pessoal)

Ainda hoje ali nas terras do Kadiwéus vivem terenas, guaranis e kinikinaus. Este ano, alguma pesquisa teórica e quase quatro décadas depois, pude finalmente pisar em solo Guaicuru, na aldeia Alves de Barros, partindo do município de Bodoquena- a rota mais curta, em que enfrentamos 60 quilômetros da estrada boiadeira, que, nos últimos 50 anos sem conservação, só admitia carro traçado, ainda assim com um motorista bem experiente tal o nível de dificuldades e inclinações extremamente íngremes.

Vencemos a estrada com duas horas em uma picape que não é 4x4, mas confesso que não me arriscaria na direção. Meu pensamento revisitava o tempo em que a grande muralha natural os protegia em um véu de isolamento contra os colonizadores da sociedade envolvente e o cavalo era o único meio de transporte: quem eram esses homens?

E o que vi lá no Campo dos Índios? A compleição física e a beleza de um povo com íntima ligação com o fazer artístico, quer nas pinturas corporais, quanto na cerâmica reinventada em novos objetos e usos, como os sinos de vento com uma iconografia milenar. O domínio sobre o cavalo, o boi e a erva-mate, tornando-os muito semelhantes ou iguais aos vaqueiros de toda a extensão pantaneira, tanto nas vestes dos homens, chapéu, camisa, chiripá, quanto pela tradicional lida com o gado de que todos se orgulham, quer pela alimentação típica à base de carne de sol e mandioca."

Vi também problemas enfrentados por todos nós, a chamada sociedade envolvente. Escola pública infantil sem água, sem carteiras. Vi um prédio imponente do que seria a escola de ensino médio inacabado desde a gestão estadual anterior. Mas vi também crianças lindas em um dia festivo que faziam apresentações culturais e prestavam atenção a absolutamente tudo com silêncio e serenidades constrangedoras, para quem está acostumado ao ruído das cidades. Vi modos gentis e hospitaleiros por parte dos adultos.

Vi também o olhar selvagem do guerreiro em alguns homens. Vi e assisti estarrecida, a destreza com o cavalo sublimada pela habilidade de pilotar motos pelas escarpas da morraria que habitam. Em situação tecnológica desigual, os guaicurus tomaram de assalto os bens culturais de seus oponentes, em um processo permanente de apropriação e ressignificação cultural.

Por tudo isso, o que vi foi o guerreiro Guaicuru, mas cujo ethos da guerra pareceu-me deslocar-se na contemporaneidade para outra coisa, a qual difere dos embates e batalhas de um passado mítico e imemorial contra outros povos, sobrepondo-se em uma luta diária pela sobrevivência material e cultural, frente a uma sociedade capitalista envolvente.

Neste contexto, a cerâmica ofício tradicional das mulheres, passado de geração a geração, me parece não só uma forma de subsistência, mas algo de resiliência, um caco de resistência identitária.

De acordo com o pesquisador Henrique Spengler, os Kadiwéus têm uma história que o povo brasileiro deveria conhecer melhor, não apenas pela ferocidade com a qual foram julgados no passado- traço que a civilização experimentou muitas vezes, mas pela capacidade de lutar e se adaptar sem perder a própria identidade.

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