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Campo Grande, Terça-feira, 25 de Setembro de 2018

29/05/2018 07:54

No lugar da água, o veneno que matou o ipê produziu "Não verás país nenhum"

O jornalista e escritor Ignácio Loyola Brandão foi o convidado do projeto Diálogos Contemporâneos nessa segunda-feira e dentre muitos assuntos, falou sobre a origem de um de seus livros

Thaís Pimenta
Ignácio de Loyola Brandão é jornalista, escritor e foi o convidado para a conferência desta segunda. A professora Maria Adélia Menegazzo foi a mediadora. (foto: Thaís Pimenta)Ignácio de Loyola Brandão é jornalista, escritor e foi o convidado para a conferência desta segunda. A professora Maria Adélia Menegazzo foi a mediadora. (foto: Thaís Pimenta)

Com um bom humor permanente, o jornalista, escritor e importante defensor das causas do meio ambiente, Ignácio de Loyola Brandão, lidou com as duas horas disponíveis no projeto Diálogos Contemporâneos para destrinchar o tema "A cultura do descarte, a sociedade de consumo e a tragédia do meio ambiente".

Logo de início, ele já se apresenta como um criador, um narrador e ficcionista e  assim justifica a maneira de expor seu conhecimento, uma das conferências mais leves do projeto até então apresentada por aqui. O que poderia ser uma palestra repleta de termos complexos foi, na verdade, um bate papo, uma contação de causos que explicam sua ligação com o meio ambiente por meio de experiências vividas, que concomitaram na criação de personagens e de seus livros, dentre eles o "Não Verás País Nenhum", com mais de um milhão e meio de cópias vendidas desde o ano de lançamento, em 1981.

Com a leveza de um sábio de 82 anos e um quê de expertise de um jornalista que foi editor do jornal Última Hora em plena ditadura militar, ele deixou claro o caráter premonitivo de seus livros é fruto de muita pesquisa, documentada em anos de recortes de jornais - uma mania que o jornalista carrega até hoje - e fruto das situações pelas quais passou durante a vida.

Ele conta que foi uma senhora de mais de 80 anos, que morava no mesmo bairro em que o araraquaense, uma das pessoas responsaveis por criar o cenário apocalíptico para seu livro. A senhorinha aguava, todos os dias, até debaixo de chuva, uma árvore de ipê amarelo linda, que havia na rua de Loyola.

"Nós, eu e a vizinhança, admirávamos muito aquele ipê, era símbolo da rua mesmo. Pouco a pouco vimos ele apodrecendo, perdendo suas folhas, sua casca, até morrer de vez. Achamos estranho e eu tinha contato na época com professores da USP. Lhes contei o caso da árvore e eles foram até lá fazer uma biópsia da árvore, na qual foi constatada o envenenamento da planta. Ainda mais curiosos, fomos atrás da vizinha que colocava água todos os dias no ipê e ela nos confirmou que jogava veneno ali. Eu nunca vou me esquecer das palavras sobre o porquê: 'esse ipê maldito sujava a calçada da minha casa todo dia'", conta.

Para ele, ali ficou claro que tudo estava de cabeça pra baixo. "A partir do momento em que uma árvore é maldita, tem alguma coisa de muito errado acontecendo". Foi a partir da exímia capacidade de observação e de se permitir tocar pelo meio que Loyola, que ele criou um cenário do "Não verás país nenhum", que narra a história de uma época terrível, na qual a Amazônia se transformou em um deserto sem nenhuma árvore; onde 'O lixo forma setenta e sete colinas que ondulam, habitadas, todas. E o sol, violento demais, corrói e apodrece a carne em poucas horas'; onde a carência de água impõe a reciclagem da urina, bebida pelas pessoas. A administração do país chegou ao caos. Governantes medíocres, cada vez mais afastados do povo, interessados apenas em vantagens pessoais, uma polícia corrupta e assustadora. No meio desse mundo sombrio, uma história de amor, na qual o autor sugere que nem tudo está perdido, pelo menos enquanto o bicho-homem alimentar esperanças e for capaz de gestos de generosidade.

Com carinho, Loyola relembra das professoras Lurdes e Ruth, responsáveis por introduzir o que viria a ser definido depois como meio ambiente. É delas que o escritor herdou, de forma, mais uma vez, observativa, a premonição de seus textos. "Nos anos 40 elas montaram conosco um cartaz com regras a serem seguidas por nós. Uma delas já dizia que não podíamos deixar água parada em superfíceis pois jutavam mosquitos", justifica ele.

Exemplos e justificativas deixam claro aos presentes que o meio ambiente segue esquecido por nós e que é preciso, vez em quando, uma pessoa como Ignácio, escancarar a realidade para que acordemos.

Quando o momento para o debate foi aberto e as perguntas, previamente escritas, foram lidas pela mediadora Maria Adélia Menegazzo, o tema da ditadura veio a tona com o questionamento de "como foi viver naquele período". Com a tranquilidade e sabedoria de um gênio, Loyola arrematou a conferência dizendo que "foi a pior coisa da minha vida ter vivido na ditadura e a ausência da liberdade é a pior coisa que existe".

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*O Lado B é um apoiador do evento Diálogos Contemporâneos.



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